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terça-feira, 25 de março de 2014

Vai faltar água, artigo de Montserrat Martins

No Dia Mundial da Água, saibam as novas gerações urbanas que já nasceram sob o gosto ruim das águas de torneiras, mas nem sempre foi assim. Sinal dos tempos, de uma crise anunciada: esta semana, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro entraram em conflito pelo abastecimento de água. A falta de água e sua perda de qualidade são uma crise anunciada “para o futuro” que já está batendo na porta.

Vai faltar água para a região metropolitana de São Paulo e o plano emergencial é o bombeamento a partir do rio Paraíba do Sul. Acontece que esse rio passa por uma vasta extensão do estado do Rio de Janeiro e dele dependem 11 milhões de habitantes de lá, que seriam afetados pelo bombeamento para a capital paulista. Já o governador de São Paulo foi ao governo federal em busca de solução, pois diz que sem o bombeamento haverá racionamento de água na região metropolitana.

Os bairros de periferia costumam ser vítimas da negligência na manutenção de suas redes de distribuição a ponto de faltar água em suas regiões. Revoltantes negligências, mas que podem ser sanadas por obras das prefeituras. Já a crise de abastecimento, a falta de água para as regiões metropolitanas, não tem soluções fáceis nem locais – está aí o conflito de São Paulo e Rio de Janeiro por um rio, análogo ao de regiões desérticas onde já há guerras pelos reservatórios naturais de água.

País rico em recursos naturais, com 11% da água doce de todo o planeta, é um absurdo total a crise de abastecimento das cidades, prova maior de nossa ignorância com o que nos é mais essencial. O Brasil é um paraíso hídrico totalmente negligente com seu patrimônio ambiental, que está degradando rapidamente – tanto os recursos hídricos quanto os florestais, pois somos o país campeão mundial de desmatamento e não falamos disso, como se o mais importante fosse o mundial de futebol.

Metade dos brasileiros ainda não tem esgoto tratado. Empresas poluem rios das regiões metropolitanas, sem tratamento adequado dos resíduos e sem fiscalização eficiente dos órgãos públicos. Governos e iniciativa privada são parceiros nessa negligência para a qual a sociedade ainda não acordou. A grande ausente nas manifestações de junho de 2013 – onde se gritou sobre a importância da saúde, educação e mobilidade – foi a consciência ambiental.

É um problema mundial, não só nosso, é claro. A ONU estima que mais da metade dos rios do mundo está poluída pelos despejos dos esgotos domésticos, efluentes industriais e agrotóxicos. No Terceiro Mundo, nove em cada dez litros de esgoto são lançados nos rios sem tratamento. Mas a Europa também vive no limite dos seus recursos naturais, que historicamente degradou bem antes da nossa era de consciência científica ecológica.

Poucos sabem que o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” não foi obra de ambientalistas mas sim de uma comissão de assuntos econômicos da ONU, na década de 70, quando os europeus identificaram que o grande gargalo para o desenvolvimento econômico era o esgotamento dos recursos naturais.

A grande questão é que não existem soluções imediatistas para problemas que requerem planejamento, prevenção e preservação. Não há como restituir rios às suas condições originais, nem abastecer metrópoles da noite para o dia. Quer dizer, vai faltar água e vai piorar a qualidade, até faltar. E quando formos protestar será tarde, porque as medidas a tomar levam décadas para surtir efeito. Ao contrário do que estamos fazendo, não falar no assunto não resolve o problema, só adia as soluções.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate

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