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quarta-feira, 22 de março de 2017

Cemitério de Montjuïc

No passado mês de Maio tive a fantástica oportunidade de passear entre as campas, gavetas e mausoléus (na Catalunha chamam-lhes panteões) dos cemitérios de Montjuïc e Poublenou.


As peças são fantásticas, gigantescas, assombrosas e todo o tempo é sempre pouco para visitar (e fotografar um sitio assim).

Montjuïc tem uma dimensão assustadora, correndo monte acima e estendendo-se verdadeiramente até se perder de vista.

A inumação é praticamente toda feita com recurso a gavetas, em paredes altas, decoradas com pequenas pedras que foram retiradas do próprio espaço agora ocupado pelo cemitério, de tonalidade amarelada. 

As pequenas portas. de metal ou de pedra, decoradas com inscrições e desenhos enchem-se de flores, deixadas pelos familiares com recurso a enormes escadas móveis em metal.

As ruas deste cemitério do século XIX - inaugurado a 17 de Março de 1883 - vão-se estendendo monte acima, começando no sopé quase sobre as águas do porto comercial de Barcelona. Sobre o cemitério, enormes e ameaçadoras gaivotas vão esvoaçando e soltando gritos, agressivas por sentirem que estamos a invadir o seu espaço.

Por entre os ciprestes e as cruzes, conseguimos vislumbrar os contentores metálicos coloridos, acabados de chegar do mar ou prontos para partir, e as enormes gruas que os movimentam. É um contraste muito realista, que sobrepõe a Morte e a Vida numa única imagem, num único instante.

O cemitério de Montjuïc nasceu para ser o Monumento dos Monumentos, numa altura em que era possível sonhar ainda com a riqueza que enchia os cofres de Barcelona. 

Os planos arquitectónicos da época mostram um detalhe e cuidado verdadeiramente grandiosos, mas foi necessário simplificar e atalhar caminho. Os restantes cemitérios não conseguiam dar resposta às necessidade da metrópole e, ao mesmo tempo, a crise financeira impedia a construção inicialmente planeada.

Ainda assim, acreditem, o espaço é de tirar a respiração.

A visita mais interessante é, como sempre em todos estes locais, às zonas mais antigas que, felizmente neste caso, são as mais baixas.

A perspectiva turístico-cultural do espaço está sempre presente e, para além das brochuras com mapas que são distribuídas gratuitamente na entrada dos cemitérios é também possível adquirir livros informativos muito bons e que permitem perceber a história do local, o contexto social e económico em que foi construído e quem são as pessoas que aí estão enterradas e que construíram os seus monumentos, com grande destaque para a arte em si: quem fez, em que estilo se enquadra, etc.

Existe um percurso artístico recomendado, onde junto de cada peça se pode encontrar uma placa com informação detalhada.

É muito fácil e reconfortante ser tafófilo num cemitério de Barcelona.


PS: com este post não posso deixar de agradecer a Tony Collbató e Juanjo Macias a forma calorosa como me receberam em Barcelona: sem eles, a minha experiência não tinha sido tão rica, tão cheia, tão mágica: Gràcies, amics!

O meu agradecimento também aos Cementiris de Barcelona por toda a disponibilidade e por tratarem tão bem dos seus espaço e dos seus visitantes. Que inveja, que orgulho.

É uma felicidade perceber que a comunidade tafófila não tem fronteiras para os afectos.

Fonte: Taphophilia

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