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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ascensão e queda da civilização dos combustíveis fósseis, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


 “We should leave oil before it leaves us”
    (Devemos deixar o petróleo antes que ele nos deixe)
    Faith Birol (Chief economist of the IEA)

Tudo que sobe cai. Esta verdade não vale apenas para a lei da gravidade, mas também para os diversos sistemas econômicos-culturais da história da humanidade. A ascensão do império de Nabucodonosor desmoronou junto com os jardins suspensos da Babilônia. Após a ascensão dos impérios Persa, Egípcio, Grego, além do império progressista de Asoka na Índia e do império guerreiro de Qin Shi Huang na China, houve um período de plenitude, mas depois de um certo tempo todas essas civilizações colapsaram. O império Otomano calapsou. O império Maia colapsou. O império Austro-Húngaro colapsou, assim como tantos outros.

O “Abismo de Sêneca” é uma teoria utilizada para descrever a tendência das civilizações entrarem em colapso depois de ter atingido o seu pico máximo. O Império Romano gastou mais de 500 anos para chegar ao seu apogeu mas desmoronou em pouquíssimo tempo. Por isto se diz que a evolução da riqueza é lenta, mas a ruína é rápida. Mais recentemente o mundo assistiu a ascensão do império Soviético durante 70 anos e seu colapso em menos de um ano. Há várias pessoas que falam também em um possível colapso americano.

Mas, para além dos colapsos específicos, o mundo pode assistir a uma transformação maior do que a apresentada nos exemplos acima. Trata-se do colapso dos 250 anos da civilização dos combustíveis fósseis (1768-2018). Antes da invenção da máquina a vapor, por James Watt, em 1768, eram utilizadas três fontes básicas de energia: a força humana, a força animal e a energia da lenha (carvão vegetal obtido nas florestas). Para plantar, a humanidade usava a enxada ou o arado puxado por algum animal. A locomoção era a pé, no lombo de cavalos, camelos, etc. ou em carroças. Não existiam prédios com elevadores. A luz vinha das fogueiras ou da gordura de animais, como os óleos de baleia e tartaruga. A concentração de CO2 na atmosfera estava em torno de 280 partes por milhão (ppm).

Todavia, tudo isso mudou com o início da Revolução Industrial e Energética que aconteceu no final do século XVIII. O artesão foi substituído pela manufatura que, por sua vez, foi substituída pela grande indústria. O transporte foi revolucionado, primeiro pelas ferrovias e pelos navios a vapor, depois pelo automóvel, caminhão e rodovias, transatlânticos (e transpacíficos), aviões, helicópteros, etc. A pequena agricultura foi substituída pela grande produção agrícola na base de fertilizantes, agrotóxicos, tratores, colhedeiras, etc. As cidades que abrigavam 5% da população mundial em 1800 passaram a abrigar 50% em 2008 e devem chegar a 70% em 2050. A mortalidade infantil caiu e a esperança de vida ao nascer da população mundial chegou a 70 anos, em 2013. Tudo isto foi possível graças ao uso da energia advinda do carvão mineral, petróleo e gás.

Os ganhos foram extraordinários. Considerando o período 1768 a 2018 (auge da utilização dos combustíveis fósseis), a população mundial saltou de cerca de 760 milhões para 7,6 bilhões de habitantes (multiplicando por 10 vezes em 250 anos) enquanto a economia deve apresentar um crescimento de 130 vezes no mesmo período (números interpolados dos cálculos de Angus Maddison). Assim, o pulo do gato na história do homo sapiens foi o uso da energia extrasomática (exterior ao corpo humano ou animal). A exploração dos combustíveis fósseis tornou possível à humanidade libertar, para uso próprio e em curto intervalo de tempo, vastas quantidades de energia acumuladas durante milhões de anos na forma de hidrocarbonetos. A humanidade deixou de temer a natureza e passou a controlá-la e dominá-la. Entramos na Era do Antropoceno, que é a época em que a humanidade se torna capaz de mudar o curso natural da vida no Planeta, sendo determinante para a extinção em massa de inúmeras espécies e pelo aquecimento global e as mudanças climáticas.

Como calculou Price (1995), o uso dos combustíveis fósseis é equivalente à posse de 50 escravos por pessoa no mundo. Sociedades altamente intensivas no uso do petróleo, como os Estados Unidos (EUA), teriam o equivalente a 200 escravos per capita. Ou seja, seria com se os EUA tivessem 62 bilhões de “escravos fantasmas” à disposição do país, sendo que estes escravos não fazem greve, nem revoltas e não precisam de comida, ao contrário, ajudam a alimentar o “senhorio” humano.

Desta forma, pode-se dizer que o “santo” que propiciou o “milagre” do crescimento da civilização humana nos últimos 250 anos foi, sem dúvida, o combustível fóssil. É claro que a ciência e a tecnologia ajudaram o crescimento econômico, o aumento da produtividade e a disponibilidade de alimentos. O crescimento demográfico também foi fundamental para aumentar o número de trabalhadores e de consumidores. Mas sem energia abundante não haveria oferta de meios de subsistência e nenhuma invenção científica e tecnológica funcionaria. Desta forma, não é possível ignorar que oitenta por cento da matriz energética mundial advém do petróleo, gás e carvão mineral. Porém, este “escravo barato e cheio de energia” não é eterno e nem ilimitado. O “ouro negro” está ficando caro e cada vez mais escasso. Os problemas ambientais se avolumam e a demanda de energia aumenta com o crescimento das atividades antrópicas.

O petróleo e demais combustíveis fósseis não vão acabar totalmente e de repente, mas a exploração de novas reservas vai ficar economicamente muito cara, tornando-as inviáveis comercialmente. Um campo de petróleo é uma jazida onde o petróleo ocupa o espaço poroso entre os grãos da rocha reservatório. A jazida é uma armadilha (no Brasil, costuma-se dizer “trapa”, de trap, em inglês) que retém o petróleo no seu caminho ascendente a partir da rocha geradora. Mas a jazida é diferente de reserva, pois nem todo o petróleo de um campo pode ser extraído. Reserva de petróleo é o volume que se pode extrair, comercialmente, de uma jazida, pelos métodos de recuperação e produção conhecidos, sob as condições econômicas e regulamentares vigentes. Além disto há custos crescentes no transporte, no armazenamento, no refino, etc.

Na primeira metade do século XX, a EROEI (energia retornada sobre energia investida) era alta. Atualmente existe uma erosão da EROEI e muitos poços se tornam deseconômicos. Isto quer dizer que o limite máximo (pico) para a produção de petróleo pode ocorrer muito antes do esgotamento das jazidas, talvez a partir de 2018. Por exemplo, o Estado da Califórnia era o maior produtor dos Estados Unidos há 100 anos. Mas os campos foram se esgotando e agora a Califórnia está em terceiro lugar. A possibilidade de produzir gás de xisto (hydraulic fracturing and horizontal drilling) está esbarrando na falta de água e nos perigos de contaminação dos lençóis freáticos. Entre o gás e a água parece que a Califórnia vai ter que optar pela água e buscar uma saída da dependência dos combustíveis fósseis. O fato é que a produção de petróleo convencional está estagnada.



O pico de Hubbert (Hubbert’s peak) é uma teoria que modela a produção de petróleo indicando que as descobertas e a produção seguem, de início, a forma de uma curva logística – apresentando um crescimento lento no começo, se acelerando em um estágio posterior e depois se desacelerando até se inverter e fazer o movimento logístico para baixo. Ou seja, a produção de petróleo segue o comportamento de uma curva normal, ou em forma de sino (curva de Gauss). A teoria foi desenvolvida pelo geofísico americano M. King Hubbert, que em 1956, publicou um artigo mostrando que o pico (máximo da produção) de petróleo, no mundo, deveria ser atingido em torno de 50 anos. Depois deste pico, a produção cairia rapidamente, podendo criar um grande desequilíbrio entre a demanda e a oferta, o que provocaria um grande aumento do preço dos combustíveis fósseis.

De fato, a produção convencional de petróleo cru atingiu seu pico em algo como 75 milhões de barris dia, por volta do ano 2005, exatamente 50 anos depois das previsões de Hubbert. O que tem crescido nos últimos anos é a extração do petróleo não convencional, como o gás de xisto, as areias betuminosas e o petróleo das profundezas abissais do pré-sal. Assim mesmo, estas fontes não convencionais estão se mostrando incapazes de compensar o declínio da produção convencional. A depleção dos hidrocarbonetos parece inevitável.

Diversos estudiosos e especialistas do tema, como Gail Tverberg, estão prevendo que o Pico do Petróleo (e dos combustíveis fósseis) será atingido entre 2015 e 2020. A partir daí haverá um declínio rápido, o que poderá provocar um grande aumento do preço dos combustíveis e uma crise econômica maior do que a “estagnação secular” e de tudo que já se viu antes.

Sem energia barata e abundante, ou seja, sem os tais “escravos baratos e cheios de energia” o mundo deve passar por uma grande crise econômica e social. O PIB deve cair e o desemprego deve aumentar. Pode ser o fim do desenvolvimento como se conhece. Diversos países já passam por esta situação como os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) e diversos outros passam por crises econômicas, políticas e sociais: Tailândia, Ucrânia, Síria, Egito, Argentina, Venezuela, Turquia, etc. Para agravar a situação, o preço dos alimentos vai subir, pois grande parte da agricultura mundial é “petroficada” e não funciona sem os fertilizantes, agrotóxicos e o transporte, tudo dependente dos combustíveis fósseis.

O pico do petróleo está associado ao aumento do desemprego e do preço dos alimentos. Segundo Relatório do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2012, há uma correlação importante entre o aumento do preço dos alimentos, calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice da FAO sobe, ocorrem mais manifestações. Crise econômica e crise ambiental, numa situação de enorme desigualdade social, pode ser um fator novo como nunca se viu nos últimos 200 anos. Pode crescer as revoltas populares e não é improvável imaginar uma situação de “canibalismo social”, desafiando as regras da civilização piramidal hierárquica.



Assim, o sonho do progresso civilizatório dos cornucopianos pode se transformar em colapso e no pesadelo do fim da civilização dos combustíveis fósseis e do consumo ostentatório. Esta situação atinge os regimes capitalista e socialista, ou seja, o modelo de sociedade urbana-industrial, independentemente de quem são os proprietários dos meios de produção. Poderá ser o fim do desenvolvimento econômico, em suas formas liberal ou estatal.

A entropia, ou degradação de energia, já havia sido prevista pelo economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen, que nos anos de 1970, mostrou que a economia não pode ignorar a 2ª Lei da Termodinâmica. Uma mesma fonte de energia não pode ser queimada duas vezes, muito menos ad infinitum. Antes do crescimento da civilização do Homo Sapiens, ocorria a retenção da energia mais rapidamente do que a sua dissipação. Atualmente, a sinergia está sendo substituída pela entropia. Georgescu-Roegen mostrou que, em algum momento, a escala da economia teria que ser reduzida, tanto em termos de capital, quanto de força de trabalho. Ou seja, ele mostrou que a alternativa para o declínio da civilização e a possível catástrofe econômica e ambiental seria o decrescimento das atividades antrópicas, quanto mais cedo melhor.

Mas parece que a humanidade ainda não acordou do sonho de grandeza e, provavelmente, terá que pagar um alto preço por ignorar uma verdade muito simples: que não pode haver crescimento infinito em um planeta finito, com recursos naturais escassos e com declínio da exergia (energia disponível). O ajuste entre o consumo humano e a biocapacidade do Planeta deve ocorrer, mais cedo ou mais tarde, e quem se preparar melhor poderá sofrer menos com o fim da civilização dos combustíveis fósseis.

Referências:
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http://ourfiniteworld.com/2014/01/29/a-forecast-of-our-energy-future-why-common-solutions-dont-work/

BIROL, Faith. We can’t cling to crude: we should leave oil before it leaves us. Independent, 02/03/2008

David Price. Energy and Human Evolution, Population and Environment: A Journal of Interdisciplinary Studies, Volume 16, Number 4, March 1995, pp. 301-19

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José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate

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