Colaboradores

Tecnologia do Blogger.

Siga-nos por Email

Seguidores

Arquivo do blog

Pesquisar neste blog

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Esgotamento dos cardumes aumenta disputa entre homens e animais pelos recursos pesqueiros

Cooperação entre pescadores e botos, que virou atração turística em Laguna, é exemplo positivo de relação nem sempre amistosa no mar
Atração turística em Laguna, a secular interação com golfinhos é garantia de boa safra de tainha para pescadores artesanais da lagoa Santo Antônio dos Anjos, em Laguna. Mesmo em época de cardumes escassos.  “Só não se sabe ainda se este compartilhamento é bom também para os botos”, ressalta o biólogo Fábio Daura Jorge, 35, que desde 2007 estuda o comportamento da espécie, com tese de doutorado nas universidades federais de Santa Catarina e do Paraná.

O espetáculo é único. Enfileirados sobre pequenas plataformas de madeira, os pescadores se revezam enquanto esperam a aproximação dos botos, trazendo as tainhas contra a barreira humana. Em seguida, jogam as tarrafas abertas, que quase sempre voltam cheias, enquanto os peixes não malhados voltam desorientados e separados do cardume. E se tornam presa fácil para os golfinhos, que, alimentados, saem fazendo piruetas na água. “Aparentemente, é isso que acontece, mas não se sabe como e quando esta interação começou”, diz.

Famintos, os botos passam pelo menos 80% do tempo se alimentando, mas o compartilhamento com os pescadores é comum na época da tainha. Provavelmente, por se tratar de um peixe dinâmico e com grande mobilidade dentro da água. Segundo Daura Jorge, a integração entre botos e pescadores ocorre em outros lugares, como em Miamar, na Ásia, ou na costa africana da Mauritânia. Mas nada que se compare ao fenômeno de Laguna.

Os estudos começaram em 1988, com o professor Paulo Simão Lopes, orientador de Fábio durante o doutorado. O objetivo era estimar os parâmetros e o tamanho da população na lagoa Santo Antônio, que neste período aumentou de 50 para 53. “Trata-se de população residente, estável, provavelmente em função da abundância de alimentação”, diz. Eles nadam de um a dois quilômetros  até o oceano, mas retornam para o ecossistema lagunar.

Boto pescador forma grupo específico, diz biólogo

Fêmeas de boa gestação, Taffarel e Juscelino ainda atendem pelos nomes que receberam na infância. Porquinho é o mais trabalhador do grupo, passa o dia inteiro testando a destreza dos pescadores com suas tarrafas, enquanto Carreirinha e Princesa formam um belo casal. “Sabemos quem é quem pelas manchas na galha dorsal ou outros pequenos sinais no couro”, explica o pescador Evilásio Soares, 53, enquanto aguarda vaga para tarrafear e aponta o velho Scoob. “Tem três iguais a ele, com sinais parecidos, mas o comportamento é único”, completa.

Encantado com a interação entre homens e botos, o biólogo Fábio Daura Jorge prefere sua ferramenta de trabalho para identificar os botos de Laguna. Com a máquina fotográfica em punho, ele foca a nadadeira  dorsal e faz a identificação de cada um dos 53 botos de Laguna. Durante os estudos, ele descobriu, por exemplo, que dos 53, apenas 20 cooperam com os pescadores. “Curiosamente, os que trabalham só convivem entre eles mesmos. Os que não pescam, formam um grupo à parte”, explica. Possível repasse sobre conhecimento de pesca estaria sendo levado à colônia de botos que habita o rio Tramandaí. “Isso explicaria a presença de um deles lá, onde a interação com os pescadores ocorre em menor escala”, diz o biólogo.

Disputa desigual pelos cardumes

O esgotamento gradativo de espécies com valor comercial, como ocorre com a sardinha verdadeira desde 2001 e mais recentemente com a tainha, não afeta apenas ao homem. Antes de refletir nas redes dos pescadores e nos preços ao consumidor nos centros urbanos, o declínio causado pela depredação histórica dos cardumes, no oceano ou nos estuários das zonas costeiras, mexe diretamente com cadeia alimentar e desequilibra a biodiversidade marinha. Mamíferos, tartarugas e aves são vítimas indefesas neste processo.

Descrente com o futuro da atividade pesqueira, o diretor do Museu Oceanográfico da Furg (Fundação Universitária do Rio Grande), Lauro Barcelos, 58, faz um alerta. “É preciso ter cautela. Precaução é a melhor medida neste momento”, diz. Com base no que observa nos últimos 40 anos, segundo Barcelos, não dá para acreditar em abundância diante da capacidade de captura tão elevada da indústria, acelerada nas duas últimas décadas pela sofisticação tecnológica da frota industrial. “O consumo humano aumenta, mas o mar não é infinito. Os peixes não se reproduzem com tanta velocidade”, avisa.

Não é só a pesca “devastadora” que deixa em alerta o cientista. Preocupado também com o aquecimento global e dos oceanos e com a poluição, Barcelos classifica como “assustadora” a realidade da pesca no Brasil e com a falta de política de governo para o setor.  De acordo com o pesquisador, a própria natureza se encarregará de dar a resposta. “Hoje, é preciso ir cada vez mais longe, pesca-se cada vez menos, mas mata-se cada vez mais”, ressalta.

Segundo Barcelos, é impressionante a quantidade de espécies sem valor comercial capturadas pelos pescadores, artesanais ou industriais, e descartadas depois de mortas. A degradação, ele não tem dúvida, é resultado da falta de política pesqueira e fiscalização. “É preciso bom senso de governantes e pescadores”, alerta.

A tainha é o exemplo mais clássico usado pelo professor para demonstrar a falta de critério do setor pesqueiro nacional. “É inconcebível a caçada aos cardumes na época da desova”, completa. Mas reconhece que a degradação dos recursos pesqueiros não ocorre só no Brasil. O Canadá, por exemplo, proibiu a captura de bacalhau quando foi percebida a redução dos estoques.

Redes, estresse e poluição elevam taxa de mortalidade dos botos

No caso específico dos golfinhos, a pesca interfere direta e indiretamente na sobrevivência da espécie. As principais causas de mortalidade são as disputas por alimentos, a “sobrepesca”, e as capturas acidentais, situações cada vez mais corriqueiras com a redução dos cardumes que compõem a cadeia alimentar. “Pescadores utilizam redes maiores, e permanecem mais tempo no mar, o que aumenta as probabilidades deste tipo de desencontro”, explica o coordenador do Projeto Botos no Rio Grande do Sul, o oceanógrafo Pedro Fruet, 32.

Nas lagoas de Santo Antônio dos Anjos, Mirim e Imaruim, no complexo lagunar do Sul de Santa Catarina, também há casos de morte de botos malhados em redes. Neste caso, os acidentes são causados por pescadores de bagres que sobem pelo rio Tubarão, segundo o biólogo Fábio Daura Jorge, professor da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) em Laguna. “Apesar da empatia entre eles e os homens, paradoxalmente, a pesca é a maior causa de morte”, diz.

Outros fatores, como poluição e estresse causado por barulho e pelo movimento intenso de embarcações, também comprometem a saúde dos golfinhos de Laguna, onde a taxa de mortalidade é alta. “As malhas de redes causam 100% das mortes acidentais, mas há sinais de que a saúde deles não está tão boa assim. Há sintomas de organismos imunodepressivos”, completa o biólogo. Pelo menos 12% dos 53 botos pesquisados na lagoa Santo Antônio dos Anjos apresentam uma espécie de micose, a lobomicose, fungo causado pela poluição.

Albatrozes fisgados em anzóis morrem afogados

Maiores voadores do planeta, com até 3,5 metros de envergadura de uma ponta a outra das asas, os albatrozes morrem de forma brutal nos oceanos. Atraídas pelas iscas - lulas, peixes e krils, as aves são fisgadas por anzóis de espinhéis com até 150 quilômetros de comprimento e utilizados pela indústria pesqueira na captura de atuns, cações, tubarões e espadartes. Em seguida, são arrastadas para o fundo do mar e morrem afogadas.

Segundo estatísticas da base gaúcha do Projeto Albatroz, na cidade de Rio Grande, pelo menos 100 mil morrem afogados por ano no mundo todo – 10% no Brasil. O incidente no mar é uma forte ameaça às 22 espécies, especialmente às 17 que habitam as ilhas isoladas do hemisfério Sul. Seis delas são encontradas no Brasil, e todas estão na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas, observa o oceanógrafo Dimas Gianuca, 32, coordenador do projeto na Furg.

A implementação da Política Nacional para Conservação dos Albatrozes e Petréis, em 2006, junto com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade), segundo Gianuca, é uma das principais iniciativas em defesa da espécie. Estabelece 39 normas para a pesca profissional, como adoção de bandeirolas na popa das embarcações para espantar as aves, maior peso de chumbo nas linhas de pesca, e largada noturna.  As medidas contribuem para reduzir a morte acidental, hoje em nove aves por mil anzóis jogados ao mar. A meta é chegar a uma ave a cada um milhão de anzóis.

Fonte: Notícias do Dia

0 comentários:

Postar um comentário

Eco & Ação

Postagens populares

Parceiros