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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Rio São Francisco: A travessia de balsa é uma vergonha, por Aroldo Cangussu

Apreciar o Rio São Francisco, a sua paisagem e as suas águas, desde a cachoeira Casca D’Anta na nascente no sudoeste de Minas Gerais até os cânions próximos a sua foz e a entrada triunfal no Oceano Atlântico, na divisa entre os estados de Sergipe e Alagoas, é muito prazeroso. Mesmo com os problemas sobejamente conhecidos – assoreamento, desmatamento, poluição – ainda assim ele é muito bonito.


Entretanto, quando se tenta atravessá-lo, de balsa, entre os municípios de Matias Cardoso e Manga, a beleza do rio é ofuscada pela irritação, descontentamento e tristeza. O serviço é pessimamente gerenciado, o atendimento aos usuários é lamentável e a pobreza da região fica gritante.

Existem cinco balsas no local de três proprietários. Apesar de a travessia ser feita de trinta em trinta minutos durante o dia inteiro, a impressão que fica é que cada viagem parece ser a primeira da vida da tripulação. Ao encostar-se à margem do rio, o barranco precisa ser “adaptado” manualmente com pás e enxadas para que os veículos possam descer. A balsa fica abarrotada de automóveis, caminhões, motos e pessoas e durante a viagem eles são acomodados nas posições que os tripulantes acham mais seguros. É um problema constante a travessia de caminhões de carvão – muito comuns na região – e carretas mais pesadas. A sensação de insegurança é constante.

Não existe nenhum programa de conscientização ambiental. Os passageiros atiram na água do rio qualquer tipo de objeto descartável: papel e palito de picolé, garrafas de toda qualidade, sacolinhas plásticas e cascas de frutas. O sol é inclemente e o calor insuportável – não existe cobertura nas balsas. A travessia pode demorar vinte minutos ou até duas horas. Não tem nenhum tipo de planejamento operacional e nem esquema de engenharia para a coordenação dos serviços.

Além disso, as embarcações que empurram – ou puxam – as balsas são violentamente poluidoras. Elas são acionadas por motores a diesel que despejam um canudo negro de fumaça para o ar. Observa-se nesses barcos derramamento de óleo para todos os lados. A manutenção passa longe do local. Tudo é muito precário e improvisado e quem sofre com isto, acima de tudo, é o belo e velho Chico, além, é claro, das pessoas que precisam desse serviço.

Conversei com um membro da tripulação e esse me disse que tudo isto acontece por ganância dos proprietários e concessionários das balsas que não têm interesse em melhorar nada, desde que o dinheiro esteja entrando normalmente do jeito que está. Segundo apurei, esses proprietários são políticos da região e, por isso mesmo, a salvo de exigências ambientais, de segurança e operacionalidade dos órgãos de fiscalização do governo.

Acho que é papel das autoridades impedirem a continuidade desse descalabro de serviço público, a começar pelo Comitê de Bacia do Rio São Francisco, que teria o dever de intervir no assunto, como bem determina a Lei 9.433/97 e, também, o Ministério Público e os órgãos ambientais, além do CREA e as prefeituras dos dois municípios envolvidos.

* Aroldo Cangussu é engenheiro e ex-secretário de meio ambiente de Janaúba e diretor da ARC EMPREENDIMENTOS AMBIENTAIS LTDA.

Fonte: EcoDebate

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