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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Bienvenidos hermanos médicos! artigo de Montserrat Martins

Bienvenidos, médicos cubanos, milhões de pessoas do interiorzão deste país-continente lhes aguardam ansiosos. Uma dura realidade lhes espera, mostrada em matéria de capa da Carta Capital, “Ruim para todos”, sobre o caos da saúde no país. Uma missão heroica lhes aguarda, mas vocês já sabem disso. Se não fosse vocês, o Brasil talvez devesse convocar os Médicos Sem Fronteiras.

Os médicos brasileiros tem fugido desta realidade que vocês vão enfrentar e quem se colocar nessa situação pode perceber que isso é compreensível, quando pesa sobre os ombros a responsabilidade sobre vidas que podem deixar de ser salvas por falta das condições mínimas para o exercício da profissão.

Falta um pouco de tudo: de instrumentos, de equipamentos, de medicamentos, de equipes básicas de saúde, de prédios em condições adequadas, de sistemas de referência, de programas integrados, de educação para a saúde, de medicina preventiva, de condições sanitárias. Sobram problemas sociais das mais diversas espécies, que desaguam nas redes de saúde: essa é a realidade dos recantos mais solitários desse país, que a Carta Capital mostrou jornalisticamente.

A falta de estrutura dificilmente permitirá que vocês possam utilizar todos os seus conhecimentos médicos, em muitas situações vocês estarão em condição análoga à dos “médicos de pés descalços” na China, que dão a assistência primeira à multidão de desassistidos, à margem da cidadania. Não por falta do “Revalida” ou de qualidade científica, mas porque não terão os recursos necessários para mais do que isso.

Muitos colegas brasileiros se manifestam preocupados com o rebaixamento da qualidade da profissão, pela dispensa do Revalida, vendo na vinda de vocês uma medida demagógica, eleitoreira, ideológica. Mesmo que esse fosse o mote da iniciativa, quero discordar dos que acham que a saúde pública pode piorar com a vinda de vocês, expondo aqui os motivos pelos quais acredito que vai melhorar.

Na saúde pública brasileira, governantes e médicos nunca se entenderam e várias tentativas já fracassaram, em diversas épocas. Quando o CPMF foi proposto para financiar a saúde, a verba foi parar no caixa único do governo. O SUS foi municipalizado mas os municípios não se estruturaram, transportam pacientes para centros maiores e acabam tendo despesas acima dos 15% previstos na rubrica de saúde. Os governos estaduais também não investem o percentual mínimo de 12% não fazem e nenhum governo federal se comprometeu até hoje com a destinação de 10% para a área.

A população que é mal atendida na rede pública se revolta contra os médicos, os vendo como insensíveis. As entidades médicas tentaram estabelecer um limite razoável para cada profissional, de até 40 pacientes atendidos num plantão, para garantir a qualidade do atendimento, mas isso nunca foi obtido. Disso resulta que os médicos atendem um número absurdo de pacientes, sem o tempo devido para cada um, rebaixando a qualidade do atendimento e aumentando o risco de erros. Para um atendimento digno, é preciso um tempo mínimo para cada consulta e diagnóstico.

A fala do governo no lançamento do “Mais Médicos” é que ele iria “humanizar os médicos”. Pois vocês, hermanos, poderão nos ajudar muito. O governo confia em vocês e pode atendê-los quando vocês indicarem a falta de equipamentos básicos, quando informarem o que necessitam, sem o que não podem exercer a boa medicina, promover a saúde pública. Talvez com vocês indicando a estrutura que falta na saúde, hermanos médicos cubanos, cheguemos um dia à “humanização do governo”.

Fonte: EcoDebate

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