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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Marajó não está para peixe

Muitos rios do arquipélago do Marajó já não têm mais peixes, a matas perderam suas árvores nobres e os bichos estão cada vez mais raros. Sobrou o açaí, que se tornou a salvação da lavoura.


No horizonte, mais água do que os olhos alcançam. O barco que sai de Belém se aproxima da maior ilha fluvial do mundo e onde deságua, de um lado o rio Amazonas, que atravessa a maior floresta tropical do planeta e com força empurra a água do mar por quilômetros. Do lado leste vêm as águas do Tocantins e centenas de seus afluentes. O arquipélago do Marajó, com suas 19 cidades, carrega o título de região mais pobre do Pará. De longe, o imaginário das pessoas pode acreditar que o cenário é parte de um paraíso idílico. A imagem não poderia ser mais falsa.

Semanas atrás uma equipe de pesquisadores do Instituto Peabiru, ONG que atua com desenvolvimento local no Pará, atravessou a baía do Marapatá em direção ao município de Curralinho. Oito horas em um barco  onde as pessoas viajam em redes. De passagem pela cidade de 30 mil pessoas, metade na zona rural, dá para notar os resultados da improbidade administrativa pela qual foram condenados dois ex-prefeitos, além do descaso em relação ao Conselho Tutelar da Infância, que levou o Ministério Público do Pará a agir contra o atual prefeito. Em abril, a Justiça Estadual afastou o prefeito José Leonaldo dos Santos Arruda, que também teve seus direitos políticos caçados por cinco anos.

O primeiro indício de problemas com a biodiversidade local aparece em uma cuia de tacacá, comida típica do Pará, um caldo com goma de tapioca, folhas de jambú e camarão. No primeiro gole vem um camarão tão pequeno que cabe sobre uma unha. Logo depois vem um camarão “ovado”, carregando no ventre ovas que dariam origem a centenas de novos crustáceos. As provas de uma pesca descomprometida com o amanhã. Os camarões foram capturados durante o período de defeso, quando os pescadores recebem uma bolsa do Governo Federal para garantir sua subsistência enquanto os peixes e crustáceos se reproduzem.

A equipe segue em um barco menor em direção ao rio Canaticu, pequeno para os padrões da Amazônia, mas que despeja cerca de 50 vezes o volume do rio Tietê em sua foz.  Quase 20 comunidades se abrigam em suas margens, casas, em sua maioria de madeira, construídas sobre palafitas e com o barco como único meio de transporte. A mata verde é exuberante e o rio é uma promessa de muita vida. Mais uma vez um grande engano. Nas matas não tem mais madeira nobre, não tem mais bicho, nas águas, não tem mais peixe, não tem mais camarão.

É por isso que os pesquisadores estão lá, para conversar, entender o que aconteceu e tentar ajudar a construir algum tipo de solução. Vicente de Paula Ferreira de Oliveira, morador antigo, conta que o fim dos peixes começou com a “malhadeira”, uma rede de malha fina que os ribeirinhos esticam de margem a margem nos rios e igarapés do Marajó. Mais de 20 anos de pesca predatória, capturando peixes que subiam o rio para desovar na piracema, praticamente acabaram com a presença de grandes peixes como o Tucunaré e o Pirarucu nos rios da região. No prato do ribeirinho reina o frango congelado, que atravessa meio mundo para chegar naquelas barrancas.

A principal renda na região vem do açaí, a coqueluche como suco ou sorvete nas cidades do Sul. Mas ele também quase acabou. O palmito das palmeiras de açaí atraiu fábricas que o cortavam e envasavam, mas não plantavam uma muda sequer. No fim, foi apenas um curto ciclo e exploração que deixou a região ainda mais pobre. O crescimento dos mercados de açaí fora do Pará deu um novo fôlego para os ribeirinhos, que conseguiram replantar os açaizeiros e começar uma nova e rentável atividade econômica. No entanto, João Meirelles, diretor do Instituto Peabirú, aponta para o risco que a coleta do açaí representa para as crianças. “Boa parte do açaí que chega ao mercado é coletado por crianças, com muitos acidentes”, diz Meirelles. Segundo ele, a maior parte do açaí consumido em todo o Brasil vem do Marajó.

Nas matas da região também não tem mais bichos. Raimundo Ferreira, de 77 anos, fala de um tempo em que havia de tudo no Marajó: “jabuti, jacaré, veados, caça farta”, diz. Mas tudo o que se mexe no mato é morto, os moradores estão acostumados a comer caça. Os pesquisadores do Peabirú apostam na construção de um acordo de pesca voluntário que dê alguma folga para a recuperação dos estoques pesqueiros. “Não adianta querer resolver esse desastre pela força”, diz Meirelles, que acredita no diálogo e aponta a impossibilidade de onipresença do Estado. 

Fonte: Envolverde

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