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terça-feira, 24 de maio de 2016

Agroecossistema. A interação e os relacionamentos de todas as partes do sistema alimentar

Agroecossistema. A interação e os relacionamentos de todas as partes do sistema alimentar. Entrevista especial com Steve Gliessman


“Agroecologia é muito mais do que as práticas agrícolas, é a interação e os relacionamentos de todas as partes do sistema alimentar. É um conjunto de princípios de ação, não apenas um conjunto de práticas para a produção”, pontua o pesquisador americano.

Podemos conceber a ideia de sistema alimentar como o fluxo que se estabelece entre quem precisa comer e quem gera os alimentos, envolvendo agentes desde a produção, o plantio, o cultivo e a colheita no campo, passando pelo processamento, industrialização ou beneficiamento, até a venda e o consumo desses produtos [1]. Entretanto, percebemos uma banalização dessas relações no modo de vida da sociedade atual, baseada no capitalismo. “A agricultura veio a se concentrar principalmente em aumentar o rendimento e intensificar o processo. Virou um negócio, em vez de um meio de sustento, perdendo, nessa evolução, seu fundamento ecológico original”, classifica Steve Gliessman, professor de Agroecologia do Departamento de Estudos Ambientais da Universidade da Califórnia. É por isso que defende o regaste do conceito ecológico de produção e consumo de alimentos. Assim, compreende que “agroecologia é muito mais do que as práticas agrícolas, é a interação e os relacionamentos de todas as partes do sistema alimentar. É um conjunto de princípios de ação, não apenas um conjunto de práticas para a produção”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Gliessman defende a agroecologia como “uma maneira de devolver ‘cultura’ à agricultura”. “Como a agroecologia é a ecologia do sistema alimentar inteiro, desde a semente e o solo por todo o trajeto até a mesa, sua fundação holística inclui as pessoas, a sociedade e as economias”, completa. Por isso, acredita no papel de cooperativas e outras organizações que são capazes de restaurar essas relações entre produtores e consumidores, a terra e o planeta. “Relações profundas entre consumidores conscientes e comprometidos e produtores agroecológicos são uma parte essencial da mudança do sistema alimentar”, analisa. Para ele, os governos, o Estado, também devem assumir seu papel diante da necessidade de restaurar essas conexões pelo bem de todos, do planeta. “Precisam reconhecer e apoiar essa voz da sociedade civil, e não apenas se deixar influenciar por grandes produtores, interesses corporativos e empresas internacionais”, dispara o professor.

Steve Gliessman é professor de Agroecologia do Departamento de Estudos Ambientais da Universidade da Califórnia; é doutor pela Universidade da Califórnia. Realiza pesquisas no âmbito da agroecologia, definida como a aplicação de conceitos ecológicos e princípios para a concepção e gestão de sistemas alimentares sustentáveis. Seu foco é a identificação, mensuração e monitoramento dos componentes ecológicos da sustentabilidade na agricultura, e a conexão destes componentes para os aspectos econômicos e sociais do projeto do sistema alimentar a longo prazo e de gestão. Entre suas publicações, destacamos Agroecology: The Ecology of Sustainable Food Systems(Agroecologia: A Ecologia de sistemas alimentares sustentáveis, em livre tradução) (Estados Unidos: CRC Press, 2006).

A entrevista foi publicada na revista IHU On-Line, Agroecossistemas e a ecologia da vida do solo. Por uma outra forma de agricultura, no. 485.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compreender o rompimento da agricultura com sua base ecológica? Como isso se dá e quais as consequências?

Steve Gliessman – Em partes demasiado numerosas do mundo, aagricultura veio a se concentrar principalmente em aumentar o rendimento e intensificar o processo. Virou um negócio, em vez de um meio de sustento, perdendo, nessa evolução, seu fundamento ecológico original.

IHU On-Line – Em que medida a agroecologia pode ser vista como alternativa aos problemas da agricultura convencional?

Steve Gliessman – A agroecologia é uma maneira de devolver “cultura” à agricultura, assim restabelecendo a base ecológica do nosso sistema alimentar. Como a agroecologia é a ecologia do sistema alimentar inteiro, desde a semente e o solo por todo o trajeto até a mesa, sua fundação holística inclui as pessoas, a sociedade e as economias.

IHU On-Line – Quais os desafios, tanto do ponto de vista técnico como também econômico, para a expansão da agroecologia no mundo e para conversão do sistema tradicional de produção?

Steve Gliessman – O maior desafio é, muito provavelmente, desenvolver agroecossistemas [2] alternativos ante o forte controle do sistema alimentar do qual se assenhorearam atualmente grandes corporações e interesses privados que pensam do jeito que descrevi na primeira resposta. Isto exige uma compreensão profunda da economia política dos sistemas alimentares, e o desenvolvimento de alternativas para a atual estrutura de poder político e econômico.

IHU On-Line – De que forma é possível aliar as discussões ecológicas em torno da produção desde a agricultura até a pecuária?

Steve Gliessman – A principal maneira de se fazê-lo é usar o conceito de agroecossistema para redesenhar os sistemas alimentares, devolvendo aos mesmos a diversidade, especialmente pela “re-integração” de animais e plantas em sistemas equilibrados e interativos.

“Os princípios básicos do desenvolvimento da agroecologia são os conceitos de diversificação, interação, pensamento sistêmico, transdisciplinaridade, justiça social e sustentabilidade”

IHU On-Line – Como compreender os princípios da agroecologia? Qual sua origem e como vem sendo trabalhada no mundo?

Steve Gliessman – A agroecologia opera como uma ciência que ao mesmo tempo se fundamenta na teoria ecológica holística [3]. Ela opera como conjunto de práticas baseadas na experiência e no conhecimento local e, além disso, funciona como parte de um movimento social projetado para levar sustentabilidade ecológica, econômica e social a todos os lugares e pessoas de sistemas alimentares por toda a parte. Todos os três componentes são necessários, caso contrário, não será agroecologia plena.

Ela tem muitas origens, mas, para mim pessoalmente, começou nos campos dos agricultores maias no sudeste doMéxico, quando os engajei num processo de compartilhamento de conhecimento participativo em meados da década de 1970. Agora ela se tornou um movimento global.

IHU On-Line – Como a Teoria da Trofobiose [4], de Chaboussou [5], pode contribuir para que se compreenda o que está por trás da ideia de agroecologia?

Steve Gliessman – Trofobiose é apenas uma pequena parte de um sistema alimentar, que se aplica principalmente ao âmbito do cultivo, onde um organismo interage com outro, de modo a produzir mais alimentos. É uma interação positiva que raramente ocorre em lavouras convencionais, mas acontece frequentemente em agroecossistemas diversificados. Os princípios básicos do desenvolvimento da agroecologia são os conceitos de diversificação, interação, pensamento sistêmico, transdisciplinaridade, justiça social e sustentabilidade.

IHU On-Line – Qual sua avaliação acerca da produção agroecológica no Brasil e América Latina?

Steve Gliessman – Em termos do mercado maior, a agroecologia ainda forma uma parte pequena da produção agroecológica, mas para a maioria dos latino-americanos continua sendo a principal fonte de alimentos. Esse alimento vem de milhões de granjas familiares e pequenos agricultores que continuam em atividade no Brasil e naAmérica Latina.

IHU On-Line – De que forma o conceito de agroecologia pode impactar socialmente na vida de produtores e consumidores?

Steve Gliessman – Com seu foco em segurança alimentar, soberania alimentar, meios de vida sustentáveis e justiça social no sistema alimentar, produtores e consumidores precisam reconectar-se desenvolvendo interações e sistemas alimentares baseados no relacionamento. Agroecologia tem a ver tanto com os produtores quanto com os consumidores. Sua estreita relação proporciona uma base importante para a mudança do sistema alimentar.

“Relações profundas entre consumidores conscientes e comprometidos e produtores agroecológicos são uma parte essencial da mudança do sistema alimentar”

IHU On-Line – Muitas iniciativas de produção e venda de produtos agroecológicos partem da sociedade civil, através de cooperativas. Qual a importância dessas iniciativas? Qual deve ser o papel do poder público no estímulo à produção e consumo desses alimentos?

Steve Gliessman – Relações profundas entre consumidores conscientes e comprometidos e produtores agroecológicos são uma parte essencial da mudança do sistema alimentar. As cooperativas oferecem uma forma de organizar essas relações. Há muitas outras que permitem essa relação direta: grupos de consumidores, associações, cooperativas de comercialização, feiras de agricultores etc. Os governos precisam reconhecer e apoiar essa voz da sociedade civil, e não apenas se deixar influenciar por grandes produtores, interesses corporativos e empresas internacionais.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Steve Gliessman – Agroecologia é muito mais do que as práticas agrícolas, é a interação e os relacionamentos de todas as partes do sistema alimentar. É um conjunto de princípios de ação, não apenas um conjunto de práticas para a produção.

Por João Vitor Santos | Tradução Walter O. Schlupp

Notas:

[1] O tema também foi discutido durante o XV Simpósio Internacional IHU – Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU em maio de 2014. O tema ainda foi pauta de duas edições da revista IHU On-Line no mesmo ano. São elas: Alimento e nutrição no contexto dos Objetivos do Milênio, edição número 442, de 05-05-2014 da revista IHU On-Line; e Desperdício e perda de alimentos, edição número 452, de 01-09-2014. (Nota da IHU On-Line)

[2] Agroecossistema: é um ecossistema com presença de, pelo menos, uma população agrícola. Portanto, pode ser entendido como uma unidade de trabalho no caso de sistemas agrícolas, diferindo fundamentalmente dos ecossistemas naturais por ser regulado pela intervenção humana na busca de um determinado propósito. Os agroecossistemas possuem quatro propriedades (produtividade, estabilidade, sustentabilidade e equidade) que avaliam se os objetivos do sistema – aumentar o bem-estar econômico e os valores sociais dos produtores – estão sendo atingidos. (Nota da IHU On-Line)

[3] No modelo de pensamento sistêmico holístico ou ecológico, o universo é explicado como um grande sistema, uma rede dinâmica de eventos inter-relacionados. Sendo assim a percepção de uma determinada realidade não faz sentido se ao observá-la não considerar o seu contexto. Nessa perspectiva o observador também é parte integrante da realidade observada, pois nada se encontra isolado e tudo faz parte de uma rede de relações, na qual todos são responsáveis por tudo. Por sistema entende-se um conjunto com dois ou mais elementos (conceitos, ideias, objetos, organismo ou pessoas), em constante interação, que sempre buscam atingir um mesmo objetivo ou equilíbrio. Esta forma de compreensão e interpretação é uma inovadora estrutura conceitual do processo de pensamento, seja em relação à natureza, à sociedade ou ao processo de construção do conhecimento. A visão holística ou sistêmica é um retorno às antigas cosmovisões. (Nota daIHU On-Line)

[4] Teoria da Trofobiose: diz que uma planta desequilibrada nutricionalmente torna-se mais suscetível a pragas e patógenos. A adubação mineral e o uso de agrotóxicos provocam inibição na síntese de proteínas, causando acúmulo de nitrogênio e aminoácidos livres no suco celular e na seiva da planta, alimento que pragas e patógenos utilizarão para se proliferar. O primeiro e formular a teoria foi Francis Chaboussou. (Nota da IHU On-Line)

[5] Francis Chaboussou: pesquisador francês autor da Teoria da Trofobiose que, na década de 1970, lançou um dos pilares da agroecologia. Formado em biologia pela Universidade de Bordeaux, na França, foi pesquisador do Institut National de la Recherche Agronomique e da Estação de Zoologia do Centro de Pesquisas Agronômicas de Bordeaux. (Nota da IHU On-Line)

Fonte: EcoDebate

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