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quinta-feira, 16 de março de 2017

Sobre turismo cemiterial

O conceito do necroturismo1 não é uma novidade. No século XIX, os guias turísticos de Paris, vendidos em Inglaterra,incluíam a morgue como atracção turística, considerando-a irresistível e um local a não perder2. Os recém-criados cemitérios-jardins do período romântico eram desenhados invocando a Arcádia e os Campos Elísios3, atraindo os domingueiros passeantes da classe média; e nas Catacumbas de Paris, de paredes forradas com ossadas de antepassados exumados dos cemitérios antigos, faziam-se festas e tocava-se piano.


O nosso afastamento da morte, que principiou no século XX, depois do entorpecimento da sensibilidade causado pelos milhões de mortes em duas guerras mundiais num curto espaço de tempo4, devotou os cemitérios à condição de locais moribundos em que os vivos enterram os amigos e familiares falecidos, associando o espaço cemiterial a esses específicos momentos dolorosos. Os mesmos cemitérios que no século anterior tinham sido cuidadosamente desenhados por arquitectos e paisagistas, como o célebre cemitério de Highgate5 – um dos Sete Magníficos que rodeia a cidade de Londres – foram deixados ao esquecimento e à ruína.

O século XXI está a reenquadrar o cemitério como cenário de diversos pontos de interesse: pitoresco, visitável e turístico, criando-se um subtipo do necroturismo que pode ser designado de turismo cemiterial.

Esta vertente turística é especialmente verdadeira para cemitérios antigos, com grandes zonas de sepulturas e mausoléus perpétuos onde, em alguns casos, já foi descontinuada a venda de talhões ou inumações temporárias. Dependendo dos gostos, os visitantes encontram diferentes perspectivas de atracção, que passam pela forte componente histórica, social e genealógica, mas também pela observação da arte, pelo coleccionismo de epitáfios ou a visita de campas de personalidades conhecidas.

Há poucos anos, um artigo do jornal Expresso6 apresentava a campa de Jim Morrison (vocalista da banda americana The Doors, falecido em 1971) no cemitério parisiense de Père Lachaise como a campa de pessoa famosa com maior número de visitas; com efeito, perscrutando os caminhos propositadamente ziguezagueantes de Père Lachaise (de planta na mão – oferecida aos visitantes à entrada do cemitério), encontra-se centenas de pessoas que procuram os repousos finais de músicos, pintores, escritores, políticos e actores.

Estes movimentos turísticos não são assim tão recentes e, em alguns casos, acabam por ser uma consequência de outras acções. Um exemplo é o já referido cemitério de Highgate, em que a zona mais antiga se encontra encerrada, apenas permitida a entrada de visitas guiadas pagas; sendo que o valor das vendas reverte a favor da manutenção e recuperação do espaço.

A história é curiosa: em 1975 foi criada a Associação dos Amigos do Cemitério de Highgate, composta por voluntários que, nos tempos livres, domaram a flora selvagem que crescia por entre essas campas e as arruinava, consumindo pedra e história; assim foram recuperadas e reconstruídas peças únicas que o tempo destruíra. Comprado todo o terreno na sequência de uma ameaça de venda para a construção de um condomínio residencial, foram criadas visitas guiadas no sentido de angariar fundos que suportassem os contínuos trabalhos de manutenção e reconstrução, ao mesmo tempo que permitissem aos tafófilos7 o acesso a um espaço singular e cada vez mais valorizado.

Percorrer o Círculo do Líbano ou caminhar na Avenida Egípcia são experiências imperdíveis, que nos levam a viajar no tempo e permitem perceber o fascínio dos vitorianos com a morte. (As visitas guiadas em Highgate esgotam depressa: é fundamental comprar os bilhetes com antecedência, o que pode ser feito online.)

A forma como as diferentes culturas encaram a morte e os espaços cemiteriais também têm impacto na oferta turística e na adaptação desses equipamentos a esta nova realidade: o cemitério de Glasnevin, em Dublin, tem no seu interior uma loja onde vende livros, pins, canecas, cruzes celtas, etc. (tudo subordinado ao tema da morte e dos cemitérios), e, adjacente, um café e refeitório onde se pode tomar um chá quente ou almoçar. Um refeitório dentro de um cemitério seria impensável em Portugal, porque não faz parte da nossa matriz cultural, mas os turistas que chegam em grupos numerosos a Glasnevin não estranham e, depois de serem guiados por entre os monumentos fazem compras, bebem um café, comem um scone e continuam a visita pela cidade.

Em Milão, o cemitério Monumental é um autêntico museu a céu aberto. Os trabalhos de escultura são maravilhosos, da autoria de artistas de renome, cujas obras podem também ser vistas um pouco por toda a cidade. Autocarros cheios de pessoas param junto dos enormes portões, de onde saem turistas curiosos, que percorrem os caminhos liderados por especialistas que os levam às principais esculturas e às campas mais conhecidas.

Inúmeros fotógrafos espalham-se de máquinas em punho por entre as sepulturas, registando, promovendo e divulgando a arte cemiterial através do seu trabalho. Barcelona tem uma empresa responsável pelos cemitérios da cidade que é extremamente activa, relativamente ao património cultural de que é responsável: publica livros, disponibiliza mapas, cria percursos e legendas in loco, ao mesmo tempo que preserva e zela pelos espaços.

Nos últimos anos é também possível ver iniciativas culturais associadas aos cemitérios um pouco por todo o mundo ocidental: criação de percursos temáticos, visitas guiadas, passeios nocturnos, exposições, concertos, peças de teatro. Existe até a Rota Europeia de Cemitérios, da Associação dos Cemitérios Significantes da Europa, da qual faz parte o cemitério de Agramonte, na cidade do Porto. Há uma preocupação com a riquíssima herança histórica destes espaços, pelo que muitas das entidades responsáveis colocam informação junto das campas e mausoléus sobre a personalidade que se encontra sepultada, sobre o artista ou arquitecto responsável pela obra, pequenas notas histórias, etc. Alguns têm QR codes para, com ajuda de um smartphone e internet móvel, serem acedidas de imediato informações adicionais.

Foram sendo publicados inúmeros guias cemiteriais, com diferentes perspectivas de enfoque (arte, simbologia, pessoas famosas, história), especialmente para os maiores e mais conhecidos cemitérios de Paris, Itália, Londres, Nova Iorque, Nova Orleães, mas actualmente é possível comprar livros ou pequenas brochuras em quase todos os cemitérios históricos, no local. Normalmente, os sites dos próprios cemitérios disponibilizam mapas que podem ser impressos ou descarregados em dispositivos móveis; mesmo as brochuras comuns de destinos turísticos principais incluem informação sobre cemitérios, tal como sobre mercados, museus, igrejas ou restaurantes (é o cemitério Judaico de Praga, o cemitério Monumental de Milão ou qualquer um dos quatro principais cemitérios de Paris).

No caso específico de Portugal, ainda estamos longe de encarar os cemitérios como espaços turísticos a promover de forma aberta e descomprometida, mas a verdade é que já se deram passos importantes. Em Lisboa, o cemitério dos Prazeres disponibiliza brochuras com vários percursos temáticos e visitas guiadas gratuitas; incluindo ao Jazigo Palmela, o maior mausoléu privado da Europa e onde se podem ver peças de Calmels, Canova e Teixeira Lopes. No cemitério do Alto de São João, também em Lisboa, é possível ver a marca dos anos do Estado Novo e da revolução do 25 de Abril entre as campas dos militares da Guerra do Ultramar, no monumento aos mortos na prisão do Tarrafal, na arquitectura simples e escorreita usada na construção dos jazigos da época.

As iniciativas em torno dos cemitérios (ou que os incluem) são muitas e algumas quase mainstream: a INATEL inclui o cemitério dos Prazeres num dos seus passeios turísticos pela capital (designado por Caminhos da Maçonaria em Lisboa e Sintra); são realizadas visitas nocturnas com frequência nos cemitérios do Porto e, em Lisboa, as iniciativas temáticas (como os eventos comemorativos do dia de São Valentim ou as Noites Brancas dos Museus) incluem visitas e concertos nos cemitérios.

Os recursos existem, o interesse também, a comunidade tafófila está a crescer e ajudar a divulgar este tipo de turismo que ainda nos é culturalmente estranho, mas o que faz falta são as visitas. Assim, concluo com um convite para que se visitem os nossos cemitérios históricos mais relevantes: Prazeres e Alto de São João em Lisboa; Agramonte, Lapa e Prado do Repouso no Porto; e Conchada em Coimbra. Para que se visitem várias vezes. Passe-se, pois, a palavra.

Fonte: Associação de Agentes Funerários do Centro

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