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terça-feira, 21 de maio de 2013

Resíduos da indústria alimentícia podem se trasformar em alimento

Segundo afirmava Lavoisier, na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Tantos séculos mais tarde, em tempos em que se tornou cada vez mais premente pensar soluções ambientalmente sustentáveis, por que não seguir ao pé da letra a máxima do pai da química moderna? Buscar formas de reaproveitamento de resíduos da indústria, por exemplo, já significa matar dois coelhos de um só golpe: por um lado, dar um destino a rejeitos que, de outra forma, poderiam ser descartados de maneira inadequada no meio ambiente; e por outro, transformar esses resíduos em novos produtos. É exatamente esse o objetivo da pesquisadora Cristiane Hess de Azevedo Meleiro, do Departamento de Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que vem estudando o reaproveitamento de sementes e cascas de tomate, descartados pela indústria de alimentos. O que ainda se torna mais oportuno nesses dias em que, por diversos fatores, o preço do tomate chegou às alturas.
No caso do Rio de Janeiro, o estado conta com grandes regiões produtoras de tomate, um dos motivos que levou a pesquisadora a focar neles seu trabalho. “Além de exigir destino adequado e investimentos significativos em tratamentos para controlar a poluição, os resíduos industriais também representam perda de matérias-primas e energia. As sementes e cascas de tomate, por exemplo, significam um material ainda rico em licopeno e outros compostos bioativos. Em outras palavras, seriam ainda substâncias nobres para a indústria, que deixam de ser aproveitadas, ou são subaproveitadas, como ração animal. Por isso, queremos promover uma integração de interesses”, explica a pesquisadora, que em seu projeto contou com recursos do edital de Apoio ao Desenvolvimento Regional, da FAPERJ.

O licopeno, como se sabe, é um carotenoide, a substância que confere o tom avermelhado não só ao tomate, mas a outros frutos, como melancia, pitanga e goiaba. Potente antioxidante, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres. “Queremos partir para a produção limpa, com o reaproveitamento dos rejeitos e sem qualquer sobra de resíduos”, fala a pesquisadora. Para isso, seu grupo de pesquisa na UFRRJ – Marisa Fernandes Mendes e Luiz Augusto da Cruz Meleiro, ambos docentes do Departamento de Engenharia Química da UFRRJ; e as alunas Barbara Avancini Teixeira, bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ; e a doutoranda Maria Rosa Figueiredo Nascimento – procura responder várias perguntas: uma delas é sobre a composição desses resíduos e a concentração de compostos bioativos que contém; outra é como extraí-los de modo a maximizar seu aproveitamento; e ainda uma terceira questão é sobre suas possibilidades de uso.

Para alcançar as respostas, o grupo está comparando diferentes técnicas de extração. “A tradicional é a que usa solvente orgânico, como, por exemplo, o hexano, empregado pela indústria para extração de óleos, como o de soja. Outro método é a que trabalha com o CO2 em condições supercríticas, o chamado fluido supercrítico”, esclarece a pesquisadora Marisa Mendes,que coordena as pesquisas com essa técnica. Ela acrescenta que a técnica combina condições de temperatura e pressão controladas, e consegue ser mais seletiva, priorizando a extração de apenas determinadas substâncias, e em maior quantidade. “Quanto mais se consegue otimizar essa combinação de pressão e temperatura, mais eficiente se torna o processo e maiores as concentrações obtidas da substância desejada”, afirma Marisa.

De tonalidade vermelho intenso – que pode indicar que mantém um grande teor de licopeno e, por conseguinte, um bom potencial antioxidante – o óleo extraído está sendo analisado de várias formas. “Ainda temos dúvidas se ele é seguro para o consumo humano e se poderia ser empregado novamente na produção de alimentos. Estamos fazendo estudos nessa área”, destaca Cristiane. Por enquanto, a equipe se empenha em responder a essas perguntas, analisando o teor dos óleos extraídos, a composição em ácidos graxos e se eles são mais ou menos insaturados. “Mas uma boa indicação é a indústria cosmética. Como o licopeno é um dos carotenoides com maior potencial antioxidante, possivelmente poderá ser usado em cremes e produtos do gênero”, avalia.

A pesquisadora acrescenta ainda que, ambientalmente falando, outra vantagem da técnica de extração por fluido supercrítico é não gerar resíduo. A explicação é simples: após a extração do óleo, sobra uma borra, que pode ser seca e empregada como ingrediente para novos produtos, como biscoitos. “Com o uso da borra, que além de ser rica em licopeno ainda contém maior teor de fibras do que a farinha de trigo comum, temos benefícios adicionais. Podemos misturá-la à farinha de trigo e preparar biscoitos que também são ricos em licopeno. Ou seja, transformamos o que seria descartado em produtos mais saudáveis”, anima-se a pesquisadora.

“Além disso, como na extração supercrítica não há a utilização de solventes orgânicos, os problemas associados ao uso e à recuperação e descarte deste tipo de solvente não existe, já que o CO2 é totalmente recuperado na forma de gás pela simples despressurização do sistema, tornando o processo ambientalmente correto”, comenta Luiz Meleiro.

Para ver se, além de saudáveis, os biscoitos passam no teste de aceitação, a equipe os submeteu a análises sensoriais. “Entre os que participaram da amostragem, voluntários da universidade, muitos não perceberam diferenças. Alguns poucos notaram um leve gosto, o que também não foi visto como ponto negativo”, comenta. Para a pesquisadora, igualmente importante é o fato de que, com a utilização da borra, dos resíduos iniciais, termina não sobrando nada. “Aliando a engenharia química à engenharia de alimentos, estamos obtendo grandes progressos. Além de evitar o descarte inadequado, o que seria jogado fora passa a ser matéria-prima para produtos mais saudáveis. É o descarte zero produzindo novos produtos a custo praticamente zero com uso de tecnologia limpa”, conclui Cristiane.

Fonte: EcoDebate

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