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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Parem de ‘salvar’ a África, artigo de Daniel Clemente

Entre meados dos séculos XV e XVI, o reino português torna-se potência marítima ao apossar-se de terras do além-mar e inaugurar novas rotas ligando as necessidades europeias aos mercados “das Índias” contornando o continente africano. Triste África que passou a ser utilizada inicialmente como entreposto comercial alheio, depois como mão-de-obra escava alheia, e posteriormente como fornecedor de riquezas naturais para as economias alheia. Tempos depois já não era somente os portugueses que sequestravam terras africanas, mas também os ingleses, espanhóis, holandeses, italianos, belgas, entre outros usurpadores. Foram trezentos anos onde a regra era não ter regra, o direito era negar direitos e a lei era agir em uma terra sem lei.


Com o estabelecimento das independências políticas do fracionado continente americano, as treze principais nações europeias contando com a participação dos Estados Unidos e da Turquia, dirigiram seus olhares para o continente africano, partilhando do vasto território de acordo com seus poderes políticos e seus interesses econômicos. A Conferência de Berlim em 1884 traçou as fronteiras, o mapa da África atual é uma invenção em que nenhum representante de continente participou. Tribos inimigas passaram a dividir o mesmo território, pequenos reinos perderam seus poderes, sociedades nômades restringiram suas caminhadas, cidades foram divididas e pessoas passaram a ter uma nacionalidade na qual não se reconheciam. As nações capitalistas necessitavam reafirmar suas economias, saqueando as riquezas do solo africano e despejando novas necessidades de mercado ao povo já necessitado de condições de sobrevivência.

Após três anos do fim da II Guerra Mundial que reduziu aos escombros os projetos racistas do nazismo e fascismo, a África do Sul no ano de 1948 coloca em vigor o apartheid, a lei de segregação racial, separando vidas vividas por vidas unicolor, a partir daquele momento brancos teriam direitos e negros teriam deveres, uma nova ordem social baseada na desordem antropológica, a minoria branca concluiria o projeto colonizador de seus antepassados conquistadores, caçadores de tesouros metálicos e assassinos da rica vida negra. Durante 46 anos a cor da pele sentenciou o direito de ir e vir, determinou a porcentagem de verbas para educação, saúde e habitação, a repressão policial formulou o marginal padrão, e a condição humana foi negada a grande maioria dos sul-africanos. Nelson Mandela, líder do braço armado do Conselho Nacional Africano, organização política que lutava contra a segregação racial, foi detido e preso ficou durante 28 anos, nos quais 19 anos em uma solitária. Ao ser libertado participou dos projetos que levaram o fim do apartheid, recebeu prêmio nobel da paz e se fez presidente da república da África do Sul. Procurou estabelecer uma nova identidade nacional, onde todos passaram a ser iguais, disse não a vingança e assistiu até os seus últimos dias de vida a manutenção da segregação econômica entre brancos e negros.

O ano de 1989 assistiu a demolição do maior símbolo da disputa militar-ideológica entre as superpotências capitalistas e socialistas, a queda do Muro de Berlim marcou o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Porém, nos quase 45 anos de ameaça mútua, a produção de armas de destruição em massa chegou ao absurdo de ter a capacidade de destruir o planeta Terra em mais de vinte vezes. Esse estoque, semeador da morte, que se manteve inutilizado por mais de quatro décadas, necessitava de guerras para contemplar os seus criadores. A década de 1990 assistiu a dezenas de conflitos armados forjados espalhados pelo continente africano, disputas territoriais, religiosas, ideológicas e políticas foram ressuscitadas ou potencializadas, com o único objetivo de consumir o velho estoque armamentista da Guerra Fria. Depois de dez anos, milhares de africanos mortos e milhões de dólares contabilizados, os humanitaristas do mundo cessaram o envio de armas e mandaram burocratas, tão letais como as armas de fogo, impuseram a democracia ocidental para esmagar e decretar o fim da cultura local.

Na atualidade os propósitos humanitaristas continuam condenando a África à miséria, países europeus despejam seus velhos computadores, celulares, impressoras, monitores, com o argumento de estar contribuindo com a inclusão africana na rede mundial de computadores, porém, menos de 10% dos equipamentos de tecnologia ultrapassada que chegam estão funcionando, o restante não passa de sucata, transformando Gana no maior lixão eletrônico do mundo. A Libéria, o único país não colonizado da África, nasceu escravo, por obra da American Colonization Society, organização estadunidense que incentivava negros libertos e negros já nascidos livres em migrar para o continente africano, com o argumento de que os negros não iriam conseguir se integrar na sociedade americana que estava sendo idealizada anos após a independência das treze colônias.

As Grandes Navegações prometiam um novo mundo para aqueles velhos costumes, o Tratado de Berlin profetizava uma cultura moderna perante o atraso social, o apartheid pretendia humanizar as relações entre humanos e semi-humanos, as armas do pós guerra fria calavam as diferenças e os indiferentes, o lixo despejado por europeus em solo africano é anunciado como luxo aos pobres coletores de migalhas. Depois de mais de 500 anos de contribuição, o melhor para os africanos seria cessar a cordialidade colonizadora

Parem de ‘ajudar’ a África.

Daniel Clemente é Professor de História, Sociologia e Filosofia do Colégio Adventista de Santos

Fonte: EcoDebate

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