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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Currículo escolar que aceita mudança climática sofre boicote nos EUA

O duelo entre os céticos da mudança climática e os defensores de ações para conter o aquecimento global está sendo travado também nas escolas americanas.


Estados produtores de petróleo e carvão – já em pé de guerra por causa de novas regras ambientais propostas pela Casa Branca – estão boicotando diretrizes nacionais para o ensino das ciências que estabelecem uma relação de causa e consequência entre as atividades humanas e o aumento da temperatura no planeta.

É nesse contexto que o legislativo do Estado de Wyoming aprovou, na seção do orçamento estadual sobre educação, uma emenda que proíbe ‘qualquer gasto’ com a ‘revisão ou adoção das diretrizes de ciência’ para o currículo oficial de ensino público no Estado.

Foi a primeira unidade da federação que rejeitou oficialmente as diretrizes nacionais para o currículo, que tratam a mudança climática como um fato estabelecido cientificamente.

‘Não aceito que a mudança climática seja um fato’, disse o diretor do Conselho Estadual para Educação, Ron Micheli, ao jornal local Casper Star Tribune. ‘As diretrizes são muito tendenciosas contra o desenvolvimento dos combustíveis fósseis’.

O autor da emenda, o republicano Matt Teers, criticou o currículo por ‘tratar o aquecimento global como ciência comprovada’. ‘Há implicações sociais envolvidas nisso, que não são boas para Wyoming’, disse.

Efeito no bolso – As diretrizes nacionais levam esse nome porque foram elaboradas por organizações científicas e especialistas de 26 Estados. Mas a decisão sobre adotar ou rejeitar, total ou parcialmente, as linhas gerais, cabe a cada unidade federativa.

O currículo foi adotado por uma dúzia de Estados, incluindo o Distrito de Columbia. Porém, encontrou resistência em locais como Kentucky, Texas e Oklahoma, além de Wyoming. Todos devem grande parte de sua riqueza à indústria de combustíveis fósseis.

Em Kentucky, o governador acabou forçando o currículo goela abaixo do Legislativo. Mas no Texas, o comitê de educação já disse que existe ‘chance zero’ de o currículo ser adotado. O legislativo de Oklahoma aprovou uma proibição às novas diretrizes semelhante à de Wyoming.

Apesar de abrigar uma variedade de áreas ambientais protegidas, como florestas e parques nacionais, entre eles Yellowstone e Grand Teton, Wyoming deve o maior quinhão da sua receita à indústria de carvão.

O Estado, que tem 600 mil habitantes distribuídos em uma área do tamanho do Estado de São Paulo, responde por 40% de toda a produção de carvão americana, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA, em inglês), órgão oficial dos EUA.

Por isso, além de proibir a implementação das novas diretrizes científicas nacionais, o legislativo determinou a elaboração de um currículo revisado que ressalte os benefícios da indústria de combustíveis fósseis para o Estado.

‘Perplexidade’ – A disputa em torno do ensino de ciência nas escolas ilustra como a questão climática é ‘um tema politicamente sensível’ no país, disse à BBC Brasil o professor da Universidade de Wyoming James Barrans, que contribuiu para a elaboração das diretrizes.

‘O que me impressiona é que a questão da mudança climática é uma parte muito pequena do currículo’, afirmou o professor. ‘A maioria das diretrizes diz respeito a princípios básicos da ciência’.

Outros aspectos do currículo que têm sofrido resistência em áreas religiosas ou socialmente conservadoras são a teoria da evolução, desenvolvida por Charles Darwin no século 19, e a menção à superpopulação do planeta como uma preocupação dos demógrafos.

Porém, nenhum deles tem o ‘elemento econômico’ ligado à ciência sobre o aquecimento global, observa Barrans.

Os Estados mais poluidores já estão em pé de guerra com a Casa Branca, principalmente depois que a agência ambiental anunciou metas de redução de carbono para as fábricas que funcionam à base de carvão – matéria prima usada na geração de 37% da eletricidade americana, segundo a EIA.

O presidente Barack Obama é acusado de empreender uma ‘guerra ao carvão’ por governadores de Estados como Texas e West Virgínia. Republicanos no Congresso dizem que as medidas impulsionadas pelo presidente serão um ‘peso econômico’.

‘Eles só querem criar resistência a qualquer coisa que acreditem que ameace a sobrevivência das receitas do Estado com a indústria’, rebate o professor da Universidade de Wyoming.

‘Como cientista, às vezes ainda fico perplexo com esta batalha política em torno da ciência do clima nos Estados Unidos. Porque a verdade científica é bem simples’.

Desfecho inevitável – Enquanto a polêmica continua, especialistas apontam que as fábricas americanas já estão substituindo gradualmente o carvão por combustíveis que emitem menos gases causadores do efeito estufa, em particular o gás natural, abundante no país.

Em 2007, o carvão alimentava 50% da geração de eletricidade americana. O governo estima que a extração do hidrocarboneto subirá levemente até 2030 e depois disso, dependendo da legislação ambiental e dos combustíveis disponíveis, estabilizará.

Para Joseph Romm, pesquisador do Center for American Progress, uma organização liberal baseada em Washington, os dados sugerem que o carvão ‘não tem muito futuro nos EUA’.

Para o especialista, os Estados estão dando murro em ponta de faca ao se opor ao ensino da ciência climática nas escolas. ‘É uma tentativa de contestar uma tendência no mercado e no mundo que é inevitável’, opina.

Por outro lado, Romm lembra que, apesar de terem reduzido seu consumo doméstico, os EUA continuam sendo um importante exportador de carvão. E que o governo Obama continua concedendo licenças para novas minas de extração de carvão em Estados como Wyoming e Montana.

‘Mesmo se diminuirmos o consumo de carvão neste país, e simplesmente o exportarmos, não estaremos fazendo nada para conter o aquecimento global. O carvão será apenas queimado em outro lugar’, diz o ambientalista. ‘Para o clima do planeta não faz a menor diferença: tudo acaba na atmosfera’. 

Fonte: G1

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