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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Antropoceno, Parte 3/3, artigo de Roberto Naime

A questão do tecnógeno ou antropoceno é mais bem compreendido quando se parte das premissas da moderna biologia, de Lynn Margulis e James E. Lovelock, criadores da hipótese Gaia, que a partir dos conceitos de entropia e processos, imaginam a vida como fluxos dinâmicos de matéria e energia, não mensuráveis por equações matemáticas simples.

São processos que guardam em si a tendência natural da energia e da matéria em caminharem inexoravelmente para a situação de maior entropia, de caos. Mas e a vida? E a complexidade de cada célula viva? Nada mais que um pequeno recipiente de organização capaz de causar um arranjo muito mais alto ao seu redor em sua curta existência do que um agente abiótico seria capaz em toda a escala geológica.

Nós seres vivos somos um trampolim, um lançador de foguetes para o caos, a obra máxima da natureza, não por nossa beleza e pela maravilhosa sensação do amor, de estarmos vivos, mas por que somos a expressão máxima da fome de natureza, de autodestruir e reinventar.

Para Margulis e Lovelock, as condições necessárias para a vida são criadas e mantidas pela própria vida num processo auto-mantenedor de retroalimentação dinâmica, caótico. Um bom exemplo é a versão mais simples da analogia da margarida. As margaridas brancas refletem a luz, tornando o planeta mais frio. As margaridas pretas absorvem a luz, reduzindo o albedo ou refletividade e com isto tornando o planeta mais quente.

As margaridas brancas querem um planeta mais frio, significando que florescem preferencialmente quando as temperaturas se reduzem. As margaridas pretas querem um clima mais quente. Estas características podem ser descritas em uma série de equações não lineares e o mundo das margaridas pode ser movimentado, formando um equilíbrio dinâmico (homeostase).

A preocupação com o meio ambiente em sua concepção mai atual nasceu na década de 50, na pequena cidade de Minamata no litoral do Japão, um lugar pequeno e tranquilo, em que boa parte da população vivia da pesca.

Em 1932 se instalou nesta localidade japonesa, a indústria Chisso, que fabricava acetaldeído, que é usado na produção de plásticos. Seus resíduos eram despejados no mar, sem qualquer tratamento e continham grande carga de mercúrio.

O mercúrio é um metal pesado, teratogênico (causa problemas na formação dos fetos durante a gravidez). Em 1953, depois de várias observações de animais com comportamento estranho (gatos realizando estranhos movimentos, com sinais de comprometimento das funções do sistema nervoso), também começaram a se identificar vários problemas de coordenação motora na população humana, além dos problemas dos nascituros.

Na cidade japonesa de Minamata houve mais um desdobramento trágico que hoje se repete de uma forma muito comum. A indústria Chisso empregava boa parte da população e se fechasse as pessoas ficariam sem trabalho. Foi o primeiro e clássico caso de conflito entre a sobrevivência e a qualidade de vida.

Com o tempo se tornou um consenso que para solucionar os problemas ambientais é necessário antes resolver o problema da sustentabilidade econômica das populações humanas. Não tem como pedir para uma pessoa remediada, que sustenta sua família através da renda de uma atividade predatória que pare de fazer isto por consciência ambiental, sem que se dê uma alternativa econômica para estas pessoas.

A segunda fase do chamado Antropoceno, vai de 1950 a 2000 ou 2015 e vem sendo chamada de “a grande aceleração”. Entre 1950 e 2000, a população humana dobrou de 3 para 6 bilhões de pessoas e o número de automóveis passou de 40 para 800 milhões.

O consumo dos mais ricos se destacou do restante da Humanidade, alimentado pela disponibilidade geográfica de petróleo abundante e barato no contexto do pós-Segunda Guerra e pela difusão de tecnologias inovadoras, que catalisaram um vasto processo de consumo de massa, como os automóveis modernos, as TVs e outros.

Na atual fase 2 da era antropocênica (1945-2015), registrou-se uma aceleração considerável das atividades humanas exageradas sobre a natureza. “A grande aceleração se encontra em estado crítico”, afirmaram Crutzen, Steffen e McNeill, porque 60% dos serviços fornecidos pelos ecossistemas terrestres já enfrentam degradação.

Vemos hoje uma combinação explosiva entre os dilemas da crise ecológica global e os dilemas da desigualdade global. Um grupo de 2 bilhões de pessoas dispõe de padrão de consumo elevado e se apropria dos consequentes benefícios materiais, enquanto 4 bilhões vivem na pobreza e 1 bilhão na miséria absoluta.

Numa terceira fase, a partir de 2000 ou, segundo alguns, de 2015, a humanidade toma consciência do Antropoceno. Na realidade, a partir dos anos 1980, os seres humanos começam a tomar progressivamente consciência dos perigos que sua atividade produtiva cada vez mais intensa gerava para o “sistema Terra”.

Trata-se de perigos para a própria humanidade que não poderia sobreviver com a destruição dos recursos naturais.

A humanidade teria três escolhas para a terceira fase da era antropocênica. A primeira consiste em manter as mesmas atitudes e esperar que a economia de mercado e o espírito humano de adaptação cuidem dos problemas ambientais. Esta opção oferece “riscos consideráveis” pois quando forem decididas medidas adequadas de combate aos problemas pode ser “tarde demais”.

A segunda opção, a de atenuação, tem por objetivo reduzir consideravelmente a influência humana sobre o planeta, por meio de uma melhor gestão ambiental, com novas tecnologias, uso mais sábio de recursos e restauração de áreas degradadas, mas isso requer “importantes mudanças no comportamento dos indivíduos e nos valores sociais”. A isto se denomina de autopoiese numa tradução livre das concepções dos sistemistas.

Caso isso não se prove possível, existe uma polêmica terceira opção, que é o uso de geo-engenharia para alterar o clima e combater o aquecimento global. Esta opção envolveria manipulações bastante poderosas e fragmentadas do meio ambiente em escala mundial, com o objetivo de contrabalançar as atividades humanas.

Já existem planos para reter o gás carbônico em reservatórios subterrâneos, ou espalhar na atmosfera partículas que reflitam a luz solar, refrigerando a temperaturas. Mas isso envolve elevados riscos, pois “o remédio pode ser pior que a doença”.

Referência:
http://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/antropoceno-as-ameacas-a-humanidade/


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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