Tecnologia do Blogger.

Siga-nos por Email

Seguidores

Arquivo do blog

Pesquisar neste blog

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Contaminação da biodiversidade por transgênicos, Parte 1/6, artigo de Roberto Naime

NODARI et. al. (2010) asseveram que biodiversidade significa mais do que a riqueza de espécies, pois inclui também os ecossistemas. Mais do que manter a vida no planeta, a biodiversidade, está intimamente relacionada com a cultura e a socioeconomia de todos os povos.


Desta forma, a erosão genética tem consequências múltiplas, muitas delas imprevisíveis. Os efeitos das mudanças climáticas, a disseminação de espécies invasoras, a expansão da fronteira agrícola e o cultivo em larga escala de transgênicos, estão causando danos reais a parte significativa da biodiversidade.

A biodiversidade é sinônimo de diversidade biológica, sendo entendida como riqueza de espécies. Para a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), diversidade biológica significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens em ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte.

Assim, a biodiversidade é a soma de toda variação biótica desde o nível dos genes até os ecossistemas. Também utilizada como sinônimo de vida, a biodiversidade é tão rica quanto desconhecida.

Por sua vez o ecossistema é o complexo dinâmico de comunidades vegetais, animais, microrganismos e seu respectivo meio que interagem como unidade funcional.

Se estabeleceram diferentes categorias de ecossistemas, desde as florestas naturais, ecossistemas mistos e finalmente até as cidades (MILLENIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT, 2005).

Esta avaliação ecossistêmica categorizou quatro relações sistêmicas dos homens com a natureza, serviços de provisão como alimentos, água, madeira, fibras, entre outros, serviços reguladores como clima, inundações, doenças, entre outros, serviços culturais, do tipo recrear ou estéticos e espirituais e finalmente serviços de suporte como solos, fotossínteses, ciclos biogeoquímicos e de nutrientes, entre outros.

Nos últimos 50 anos, a biodiversidade adquiriu uma importância sem precedentes, a ponto de serem construídos e assinados acordos, tratados e criados órgão intergovernamentais.
Cabem destacar as ações da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), o Plano de Ação Global (GPA) para a Conservação e Uso Sustentável dos Recursos Genéticos Vegetais para a Alimentação e a Agricultura, o Tratado Internacional de Recursos Genéticos Vegetais para a Alimentação e a Agricultura (ITPGRFA), a Convenção do Combate a Desertificação, a Convenção Ramsar e a Convenção das Espécies Migratórias.

Aquela parcela utilizada da biodiversidade pode ser compreendida como agrobiodiversidade, representada por um conjunto de organismos e ecossistemas que apresentam fortes relações com os seres humanos, podendo ser domesticados, semi-domesticados, cultivados, ou manejados pelo homem.

Representa a agrobiodiversidade, segundo a CDB, uma gama praticamente inesgotável de combinações entre suas complexidades. Diversidade dentro de espécies, diversidade entre espécies, diversidade entre ecossistemas e diversidade etno-cultural.

Neste vasto conjunto de combinações, encontram-se componentes de alto interesse para o desenvolvimento socioambiental sustentável, com foco em comunidades rurais e locais, quilombolas e povos indígenas, que representam acúmulos de saberes transmitidos de gerações antepassadas, muitas vezes seculares (STELLA et al., 2004). Assim, as espécies vegetais ou animais utilizados como alimento são parte intrínseca da agrobiodiversidade.

Fazem parte também de um ecossistema, como mencionado anteriormente, outros organismos que não são utilizados diretamente como alimentos, mas que tem funções relevantes nos agroecossistemas como, entre outros, insetos polinizadores, fungos microrrizicos, decompositores, minhocas e inimigos naturais de organismos considerados pragas ou patógenos de plantas e animais domesticados ou não.

Esta parte da biodiversidade que serve de alimento, fibras, óleos, energia, medicamentos, entre outros usos, foi reconhecida pela civilização humana ainda em seus primórdios.
O que se desfruta hoje é resultado de práticas e inovações feitas pelos agricultores no passado. Esta fartura de diversidade genética tem sido mantida pelo uso sustentável e pela conservação “on farm”.

O rompimento da harmonia entre agricultura e meio ambiente a partir de meados do século passado, determinou a intensificação das ameaças a esta agrobiodiversidade, sendo a principal delas, a erosão genética.

O uso intensivo de químicos, na forma de fertilizantes ou agrotóxicos, por exemplo, e a introdução em larga escala de novas variedades, espécies exóticas e os transgênicos causam enormes danos à biodiversidade, em particular à agrobiodiversidade.

A avaliação ecossistêmica identificou que dos 24 serviços categorizados, 15 (60%) se encontram em estado de degradação como purificação do ar e da água, regulação climática local e regional, ameaças naturais e epidemias e outras, (MILLENIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT, 2005), se constituindo em passivos para a sociedade.

Os agricultores sempre foram inovadores por excelência. Na época que o homem se tornou sedentário, os humanos foram capazes de escolher plantas e animais, os quais poderiam cultivar e criar.

Foram eles que criaram o ciclo de selecionar, plantar e colher. Com isso, foram desenvolvendo plantas mais adaptadas e mais produtivas aos ambientes de cultivo. Comparando-se com os tipos silvestres, as características das variedades domesticadas são muito diferentes das originais, indicando que os agricultores demonstraram habilidade de inovar, independente de conhecer genética ou outra ciência.

A domesticação de plantas e de animais ocorreu simultaneamente em várias partes do mundo. Onde houve maior concentração de atividades e inovações, esta domesticação resultou no desenvolvimento de variedades de diferentes espécies adaptadas a distintas condições ambientais.

Estes locais são denominados de Centro de Diversidade, uma região onde existem elevados níveis de variabilidade de uma espécie ou complexo de espécies de interesse humano.

Em diferentes locais foram domesticadas diferentes espécies. Embora as práticas tenham sido semelhantes, as espécies domesticadas e os usos estão associados aos valores culturais e aos ritos dos habitantes daquela região.

Assim, a diversidade nestes centros de diversidade genética é resultado de fatores de natureza histórica, ecológica, genética e cultural. Um processo co-evolutivo onde tanto a cultura humana moldou os sistemas biológicos, como estes moldaram a cultura (NORGAARD, 1989)

NODARI et. al. (2010) assinala que para algumas espécies, a domesticação foi tão intensa que resultou na formação de variedades crioulas, que possuem características bem definidas e distintas de outras, a ponto de cada agricultor ter sua variedade. É o caso do milho, batata, abóbora e tantas outras.

Esta diversidade atualmente é denominada de agrobiodiversidade, que compreende a parcela utilizada da biodiversidade, representada, como já dissemos, por um conjunto de organismos e ecossistemas que apresentam fortes relações com os seres humanos, podendo ser domesticados, semi-domesticados, cultivados, ou manejados pelo homem.

De posse desta imensa diversidade genética e de variedades crioulas bem-adaptadas a distintos ambientes, os geneticistas começaram a utilizar ainda no final do século XIX seleção, cruzamentos entre plantas de distintas variedades, testes de progênies destes cruzamentos e novamente seleção, reiniciando o ciclo.

Este é o ciclo do melhoramento genético atual, de alta eficiência quando existe variabilidade genética e conhecimento. Assim, um dos sucessos foi garantido pela grande magnitude da variabilidade genética de formas e tipos desenvolvidos pelos agricultores ao longo da história.

Referências:

ABUD, S., SOUZA, P. I. M., MOREIRA, C. T.; ANDRADE, S. R. M., ULBRICH, A. V., VIANNA, G. R., RECH, E. L. e ARAGÃO, F. J. L., Dispersão de pólen em soja transgênica na região do Cerrado. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.38, p.1229-1235, 2003.

BINIMELIS, R. Coexistence of plants, coexistence of farmers: Is an individual choice possible? Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 21, p. 437–457, 2008.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Convenção sobre Diversidade Biológica. Serie Biodiversidade 2. Brasília: MMA, 2000, 32 p. (disponível em www.mma.gov.br/portalbio).

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Parentes silvestres das espécies de plantas cultivadas. Brasília, DF: MMA, 2006. 44 p. (disponível em www.mma.gov.br/portalbio).

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Metas Nacionais de Biodiversidade para 2010. Brasília, DF: MMA, 2007. 16 p. (disponível em www.mma.gov.br/portalbio).

BRUSH, S. B. The issues of in situ conservation of crop genetic resources. In: BRUSH, S. B. (ed). Genes in the field – On-Farm Conservation of Crop Diversity. Roma: IDRC/IPGRI/Lewis Publishers, 2000, p. 3-26.

CARTA CAPITAL. Os riscos da omissão, p.22-29, 18/07/2007.

CLEVELAND, D. A., SOLERI, D., CUEVAS, F. A., CROSSA, J. e GEPTS, P. Detecting (trans)gene flow to landraces in centers of crop origin: lessons from the case of maize in Mexico. In Environ. Biosafety Res., v. 4, p. 197-208. 2005.

CTNBio. RESOLUÇÃO NORMATIVA n° 4, de 16 de agosto de 2007, DOU, n° 163 de 23/08/2007, p.19. (Disponível em www.ctnbio.gov.br).

CORDEIRO, A., ALVES, A. C. e OGLIARI, J. B., Challenges for co-existence in small-scale farming: the case of maize in Brazil. In: BRECKLING, B., REUTER, H. e VERHOEVEN, R. (Org.). Implications of GM-Crop Cultivation at Large Spatial Scales. Theorie in der Ökologie 14.. Frankfurt: Peter Lang, 2008, p. 134-139.

DAVIS, D. R. Declining Fruit and Vegetable Nutrient Composition: What Is the Evidence? HortScience, v. 44, p.15-19, 2009.

DAVIS, D. R. EPP, M. D. e RIORDAN, H. D., Changes in USDA Food Composition Data for 43 Garden Crops, 1950 to 1999. Journal of the American College of Nutrition, v. 23, p. 669–682, 2004.

DONAZZOLO, J., GUERRA, M. P., BIZZOCCHI, L., VOLPATO, C. e NODARI, R. O., Manejo de paisagem e a promoção da goiabeira-serrana (Acca sellowiana) na serra gaúcha. In: I Workshop Sul Americano sobre Acca sellowiana, 2009, São Joaquim. Anais do I Workshop Sul Americano sobre Acca sellowiana, 2009.

ELLSTRAND, N. C., Dangerous liaisons? When Cultivated Plants Mate with Their Wild Relatives. Baltimore: Johns Hopkins University Press. 2003. 244p.

FERMENT, G., ZANONI, M. e NODARI, R. O., Estudo de caso: Sojas convencionais e transgênicas no planalto do Rio Grande do Sul. Brasília: MDA, 2010. 101p.
FOLHA DE SÃO PAULO. Brasil não tem controle sobre milho transgênico. p. B1 10/05./2009.

GUTIÉRREZ-ROSATI, A., POGGI, P. D., GÁLVEZ, G. M. e CÁCERES, R. R., Investigaciones sobre la presencia de transgenes en Perú: caso maíz (Zea mays L.). Revista Latinoamericana de Genética, v. 1, (10, GV-89), 2008.

HEINEMANN, J. A., A Typology of the Effects of (Trans) Gene Flow on the Conservation and Sustainable Use of Genetic Resources. Roma: FAO, Bsp35r1, 2007. 94 p.

HOYLE, M. e CRESSWELL, J. E., The effect of wind direction on cross-pollination in wind-pollinated GM crops. Ecological Applications, v. 17, p. 1234–1243, 2007.

INTERNATIONAL SERVICE FOR THE ACQUISITION OF AGRI-BIOTECH APPLICATIONS – ISAAA. URL: www.isaaa.org. Acessado em 10 de novembro de 2010.

JARVIS, D. I., PADOCH, C. e COOPER, H. D., Managing Biodiversity in Agricultural Ecosystems. New York: Columbia University Press, 2007, 512 p.

KALUZA, J., HAKANSSON, N., BRZOZOWSKA, A. e WOLK, A., Diet quality and mortality: a population-based prospective study of men. Eur J Clin Nutr., v. 63, p. 451-457, 2009.

KANT, A. K., SCHATZKIN, A., GRAUBARD, B. I. e SCHAIRER, C. A., Prospective Study of Diet Quality and Mortality in Women. JAMA, v. 283 p. 2109-2115, 2000.

MELLON, M. e RISSLER, J., Gone to Seed: Transgenic Contaminants in the Traditional Seed Supply. Cambridge: Union of Concerned Scientist, 2004. 80 p.

MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT. Ecosystems and Human Well-Being: General Synthesis. Washington, DC: Island Press, 2005, 100 p.

MITTERMEIER, R. A., ROBLES GIL, P. e MITTERMEIER, C. G., Megadiversity earth’s biologically wealthiest nations. México: CEMEX, 1997. 501 p.

NODARI, R. O. e GUERRA, M. P. La bioseguridad de las plantas transgénicas. In: BARBACENA, A., KATZ, J., MORALES, C. e SCHAPER, M. (Org.). Los transgénicos en América latina y el caribe: un dabate abierto. Santiago: Ed. Nações Unidas, 2004, p. 111-122.

NORGAARD, R. B., A base epistemológica da agroecologia. In.: ALTIERI. M.A. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989, p. 42-48.

PIÑEYRO-NELSON, A., VAN HEERWAARDEN, J., PERALES, H. R., SERRATOS- HERNÁNDEZ, J. A., RANGEL, A., HUFFORD, M. B., GEPTS, P., GARAY-ARROYO, A., RIVERA-BUSTAMANTE, R., e ÁLVAREZ-
BUYLLA, E. R., Transgenes in Mexican maize: molecular evidence and methodological considerations for GMO detection in landrace populations. Molecular Ecology, v. 18, p.750-761, 2009.

QUIST, D. e CHAPELA, I. H., Transgenic DNA introgressed into traditional maize landraces in Oaxaca, Mexico. Nature, v. 414, p. 541-543, 2001.

RAMIREZ-ROMERO, R., DESNEUX, N., DECOURTYEC, A., CHAFFIOLD, A. e PHAM-DELE`GUE, M. H., Does Cry1Ab protein affect learning performances of the honey bee Apis mellifera L. (Hymenoptera, Apidae)? Ecotoxicology and Environmental Safety, v. 70, p. 327–333, 2008.

REUTER, H., BÖCKMANN, S. e BRECKLING, B., Analysing cross-pollination studies in maize. In: BRECKLING, B., REUTER, H. e VERHOEVEN, R. (ed.). Implications of GM-Crop Cultivation at Large Spatial Scales. Theorie in der Ökologie 14. Frankfurt, Peter Lang, 2008, p. 47 – 53.

THE ROYAL SOCIETY OF CANADA. Elements of precaution: recommendations for the regulation of food biotechnology in Canadá. Ottawa: RSC, 2001, 265 p.

SCHUSTER, I., VIEIRA, E. S. N., SANTANA, H., SINHORATI, D., SILVA, R. B. e OLIVEIRA, M. A., O. Fluxo gênico em soja na Região Oeste do Paraná. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 42, p.515-520, 2007.

STELLA, A., KAGEYAMA, P. e NODARI, R. O., Políticas públicas para a agrobiodiversidade. In: CARVALHO, C. (ed.). Agrobiodiversidade e Diversidade Cultural. Brasília: MMA. 2004, p.41-56.

TRAAVIK, T. e HEINEMANN, J., Genetic Engineering and Omitted Health Research: Still No Answers to Ageing Questions. Third World Network, 36p. 2007.

TUXILL, J. The biodiversity that people made. Whashington, DC: WorldWatch, v. 3, p. 24-35. 2000.

VILPERTE, V., ROSA, A. M., REIS, E. O., DUTRA, S., DONAZZOLO, J. e NODARI, R. O., Caracterização fenotípica de frutos de Acca sellowiana (Goiabeira-serrana) manejados on farm no Rio Grande do Sul. In: I Congresso Brasileiro de Recursos Genéticos, 2010, Salvador – BA. Anais do I Congresso Brasileiro de Recursos Genéticos. Brasília – DF: Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, 2010. p. 281-281.

ZOLLA, L., RINALDUCCI, S., ANTONIOLI, P. e RIGHETTI, P. G., Proteomics as a Complementary Tool for Identifying Unintended Side Effects Occurring in Transgenic Maize Seeds As a Result of Genetic Modifications. Journal of Proteome Research, v. 7, p. 1850-1861, 2008.
http://www.reid.org.br/?CONT=00000248

NODARI, Rubens Onofre, TENFEN, Sarah Zanon Agapito, DONAZZOLO, Joel, Biodiversidade: ameaças e contaminação por transgenes, Revista Internacional Direito e Cidadania, n 7, jul a set 2010



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

Eco & Ação

Ecologia

Loading...

Postagens populares

Parceiros