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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Impactos sociais e ambientais da Bralanda no Sul e no Extremo Sul Baiano, por Elissandro dos Santos Santana e Ramon Rafaello

Impactos sociais e ambientais da Bralanda no Sul e no Extremo Sul Baiano


Elissandro dos Santos Santana

Ramon Rafaello

Resumo: Este trabalho resultou de pesquisa bibliográfica em torno dos impactos sociais e ambientais provocados pela BRALANDA nos territórios do Sul e do Extremo Sul da Bahia ao longo dos anos. A partir das leituras e das observações feitas foi possível elaborar uma análise dos fatos, problematizar histórico-econômico-socialmente o objeto estudado e refletir acerca das questões oriundas da exploração extrativista que interferiram e interferem nas dinâmicas sociais, econômicas e ambientais em um dos biomas mais ricos em biodiversidade do Brasil e do Mundo, a Mata Atlântica, um dos hotspots mais ameaçados de extinção no Planeta.

Palavras-chave: Impactos Sociais e ambientais; BRALANDA; Sul e Extremo Sul da Bahia; Mata Atlântica; Hotspot.

Resumen: Este trabajo resultó de una investigación bibliográfica en torno a los impactos sociales y ambientales provocados por BRALANDA en los territorios del Sur y del Extremo Sur de Bahía a lo largo de los años. A partir de las lecturas y de las observaciones hechas fue posible elaborar un análisis de los hechos, problematizar histórico-económico-socialmente el objeto estudiado y reflexionar acerca de las cuestiones originadas de la explotación extractivista que interfirieron e interfieren en las dinámicas sociales, económicas y ambientales en uno de los biomas más ricos en biodiversidad de Brasil y del Mundo, la Mata Atlántica, uno de los hotspots más amenazados de extinción en el Planeta.

Palabras-clave: Impactos Sociales y Ambientales; BRALANDA; Sur y Extremo Sur de Bahía; Bosque Atlántico; Hotspot.

Abstract: This work resulted from a bibliographical research about the social and environmental impacts caused by BRALANDA in the territories of the South and the Southern End of Bahia over the years. From the readings and the observations made, it was possible to elaborate an analysis of the facts, to problematize historically-economically-socially the object studied and to reflect on the questions originating from the extractive exploration that interfered and interfered in the social, economic and environmental dynamics in one of the most rich in biodiversity in Brazil and the World, the Atlantic Forest, one of the most endangered hotspots on the planet.

Key words: Social and Environmental Impacts; BRALANDA; South and Extreme South of Bahia; Atlantic forest; Hotspot.

Uma breve introdução

Parte da discussão acerca do objeto de estudo “Impactos sociais e ambientais da Bralanda no Sul e no Extremo Sul Baiano” foi feita em matéria publicada no Portal Desacato ao longo deste ano de 2017, mas como o fenômeno de pesquisa é extenso, exige análises multirreferenciais expansivas a partir de parâmetros que abarquem realidades históricas, econômicas, sociais e ambientais.

Torna-se oportuno pontuar que já existe uma gama de estudos sobre desmatamento na Mata Atlântica, inclusive, no perímetro geográfico-referencial do Extremo Sul da Bahia, no entanto, poucos analisaram as origens e as causas geradoras desse fenômeno em uma perspectiva sócio-econômico-histórica. Diante disso, este trabalho desponta como oportunidade para ampliar o estado da arte em torno desse tema para novos resultados no tangente ao histórico de destruição deste que é um dos biomas mais importantes do Brasil e do Mundo.

Referente à Mata Atlântica, pela importância que possui, e em decorrência da destruição pela qual passou desde os primeiros momentos de formação, consolidação e constituição da Nação Brasileira, atualmente, é classificado como um hotspot haja vista que possui uma grande diversidade ecológica em risco de extinção.

Além da Mata Atlântica, há outros biomas ao redor de todo o mundo que foram classificados como hotspots, conforme é possível observar no mapa abaixo:



Fonte: https://www.learner.org/courses/envsci/visual/visual.php?shortname=hotspots

A classificação da Mata Atlântica como hotspot é importante, pois assim denominado, atrai a atenção de estudiosos, observadores e pesquisadores da área ambiental e de organizações de todo o mundo. Ao se classificar este bioma desta forma, parte-se do pressuposto de que ele é uma área natural de preservação importante para todo o Planeta.

Feitas as considerações acima, é importante colocar que este trabalho resultou de pesquisa bibliográfica em torno dos impactos sociais e ambientais provocados pela BRALANDA nos territórios do Sul e do Extremo Sul da Bahia ao longo dos anos e que a partir das leituras e das observações feitas foi possível elaborar uma análise dos fatos, problematizar histórico-econômico-socialmente o fenômeno de pesquisa estudado e refletir acerca das questões oriundas da exploração extrativista que interferiram e interferem nas dinâmicas sociais, econômicas e ambientais em um dos biomas mais ricos em biodiversidade do Brasil e do Mundo.

Contextualização, origens e causas do Desmatamento no Extremo Sul da Bahia

Para iniciar a discussão em torno dos impactos sociais e ambientais da BRALANDA no Sul e no Extremo Sul Baiano, a partir da ótica dos “desenvolvimentos insustentáveis”, é oportuno recorrer a Dean (2004) para compreender que no início dos anos 70, os últimos grandes arvoredos acessíveis da Mata Atlântica se encontravam no Sul da Bahia. Ali, onde uma rodovia federal asfaltada acabava de ser concluída para ligar a região baiana com o Rio de Janeiro. Nesse espaço, centenas de empreiteiros equipados com motosserra, tratores diesel, guinchos, arrastadores e caminhões com carroceria aberta derrubaram árvores que ficaram intactas desde que os portugueses, pela primeira vez, aportaram naquele litoral.

Ainda segundo Dean (2004), nesse mesmo período, o cultivo do cacau começava a ser implantado no Sul da Bahia de uma maneira considerada ameaçadora para a Mata Atlântica. As árvores de sombra nas fazendas mais velhas destinadas ao cacau, algumas datando da década de 10 do século XX foram cortadas para que não desabassem nos trabalhadores. O plantio de cacau se expandiu, enquanto os preços aumentaram até 1986, ocupando 7 mil kms2 naquele ano. Na época, a exigência do Código Florestal de 1965 era de que 20% da terra permanecessem florestados, mas isso não foi obedecido nem no Sul da Bahia nem em outros espaços de Mata Atlântica no Brasil. Em operação conjunta na área de São Fidélis no Rio de Janeiro em 1976 dezenas de proprietários de terra e empreiteiros foram multados por derrubar matas sem autorização, mas os infratores pagavam sem recorrer à justiça já que, para a época, a questão ambiental não havia alcançado a importância que possui atualmente.

A Mata Atlântica, desde o período colonial, foi alvo de investimentos em atividades extrativistas e desenvolvimentistas. As atividades em questão causaram diversos impactos socioambientais, mas foi a partir de 1940, até a atualidade, que ocorreu e ocorre uma intensificação no âmbito dos investimentos por meio de iniciativas públicas e privadas para a exploração econômica dos recursos naturais da região envolvendo, principalmente, a atividade do desmatamento.

Em relação ao perímetro do Sul e Extremo Sul da Bahia, no início do século XX, a baixa densidade demográfica, a dificuldade de acesso e transporte na região, aliada a técnicas ainda rudimentares de extração madeireira dificultaram a intensificação da atividade econômica e do povoamento, porém, à medida que as técnicas de exploração foram se desenvolvendo, grandes grupos madeireiros com base em tecnologias mais sofisticadas e, consequentemente, com maquinários mais potentes e dotados com uma logística para atender o mercado externo, foram extraídos grandes volumes de madeira da vegetação nativa (MACHADO, G. 2000).  Nesse contexto, torna-se oportuno apresentar o que afirma Garcez (1975): “a partir de 1940 inicia-se o processo de desmatamento e cultivo de terras mais interiores, tendo como ponto de partida a fronteira mineira, fornecedora de capitais e material humano. Criaram-se novos municípios cujas sedes não passaram, até 1950, de comércios, (Itanhém, Medeiros Neto, Lagedão, etc). Atuando principalmente, em função da madeira”. 

A primeira empresa madeireira do Extremo Sul da Bahia foi a Elcunha S/A (Eliozípio Cunha e Cia), instalada no município de Nova Viçosa, o ponto de partida para o desmatamento industrial nas terras do baixo sul baiano. Conforme menciona Garcez (1975): “A segunda madeireira de grande porte a vir para região, é a [1]BRALANDA, em 1952 com a instalação de uma serraria de água fria no município de Medeiros Neto.”.

Desde 1952, a BRALANDA é uma das principais responsáveis por promover o desenvolvimento econômico no Extremo Sul da Bahia e incentivar o povoamento do território com suas atividades de desmatamento intensivo, abrindo espaço para a implantação da agricultura, pecuária e atraindo investidores do Espírito Santo e de Minas Gerais. Consequentemente, a perda de vegetação nativa acelerou-se provocando profundas transformações geográficas, sociais e ambientais no território em um espaço de tempo relativamente curto.

Com o objetivo de uma análise histórica mais detalhada, de 1945 a 1990, acerca dos impactos da indústria madeireira na região, observe-se o mapa do desmatamento no Extremo Sul da Bahia abaixo.



FONTE – http://almeidadohrn.com/lang/pt/bahia/natureza-bela/

Antes da década de 40, o Extremo Sul da Bahia foi alvo de algumas atividades extrativistas que desencadearam impactos socioambientais, porém, de forma bastante reduzida em cotejo com o que ocorreu após a presença da grande indústria madeireira multinacional que causou impactos imediatos e profundos deixando marcas irreversíveis na região. Quando a BRALANDA se instalou na região, encontrou um território de Mata Atlântica rica em biodiversidade, tanto em relação à fauna quanto à flora. No Sul e Extremo Sul do Estado existiam árvores nobres, animais, rios, afluentes e nascentes em estado de preservação quase total, populações nativas formadas por comunidades indígenas e pequenos agricultores que dependiam, fundamentalmente, dos recursos naturais locais, para a própria subsistência econômica, social e cultural. Estas populações sobreviviam da criação de animais, da pesca, da caça, da coleta e do cultivo de pequenas lavouras, causando impactos extremamente reduzidos ao meio ambiente habitado.

Conforme a FUNAI, a aparente tranquilidade reinante na região foi rompida com a saída de [2]Júlio na década de 1970 (segundo os índios, ele foi para o Rio de Janeiro) e com a chegada de Múcio e Expedito. Esses homens realizaram uma forte pressão para que as famílias que sempre viveram dispersas nessa região começassem a vender ou a entregar suas terras por valores irrisórios ou por promessas mentirosas, demarcando, assim, posses irregulares, muitas delas repassadas para a FLONIBRA e, posteriormente, para a BRALANDA. Segundo informações dos Pataxós, tanto Múcio quanto Expedito eram contratados dessas empresas. (FUNAI, 2006)

Com a chegada da BRALANDA ao Extremo Sul da Bahia, se intensificaram os casos de violência no campo e degradação ambiental. A empresa tem sido acusada de beneficiar-se da grilagem de terras que pertenciam a aproximadamente 100 famílias, explorando, de forma predatória, a atividade madeireira nos municípios de Porto Seguro, Prado e Mucuri e desmatando aproximadamente 40 mil hectares de Mata Atlântica, além de perseguir indígenas e trabalhadores rurais, cerca de 1000 pessoas que passaram a viver marginalizadas por capangas armados. São muitos os casos de espancamentos, prisões, desaparecimentos e dez pessoas assassinadas. Estas ações se transformaram em inquéritos policiais que hoje estão paralisados e arquivados na justiça, beneficiando a empresa acusada e anunciando a prevalência da impunidade sobre a lei.

[3]A lenta tramitação dos processos judiciais entre a BRALANDA e pequenos agricultores fez com que a Associação Rio da Barra, representante dos camponeses posseiros do Vale Verde acionasse o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em 2006 reivindicando a fiscalização da situação que vem se arrastando desde o início da década de 70, sem que, até hoje, a empresa acusada fosse responsabilizada pelos atos. Em resposta ao pedido, o ministro Gilmar, Mendes presidente do CNJ no ano de 2009, cobrou do TJBA (Tribunal de Justiça da Bahia) agilidade na resolução dos impasses judiciais entre a empresa multinacional e os posseiros. Porém, o caso ainda encontra-se em processo de tramitação, sendo que até hoje a grande maioria das famílias de indígenas e agricultores impactados não recebeu nenhum tipo de indenização.

De acordo com esse contexto de impunidade e arbitrariedade, pode-se questionar a atuação da justiça na resolução dos conflitos fundiários no Sul e Extremo Sul da Bahia, pois são muitos os casos inconclusos de conflitos envolvendo indígenas, posseiros, movimentos de reforma agrária, fazendeiros e empresários. Estas relações entre diferentes setores e interesses mediados pela posse da terra quase sempre estão marcadas por desequilíbrios jurídicos, em um jogo de relações políticas onde determinados interesses prevalecem sobre a imparcialidade da justiça. Neste cenário, é cada vez mais comum a criminalização e a perseguição de lideranças e de movimentos de luta pela terra como justificativa para a defesa do direito privado e da ordem. Sendo assim, quando se trata de promover a reintegração de posse em áreas ocupadas e reivindicadas por indígenas e movimentos de reforma agrária, a justiça brasileira faz uma demonstração de sua total eficiência, sem que seja necessário grandes esforços para agilizar pedidos de reintegração e operações policiais para a garantia do direito de posse individual, que acontece muitas vezes sobre terras devolutas, que são patrimônios públicos. Porém, quando se trata da grilagem de terras promovida por grandes corporações do capital privado que causaram mortes, perseguições e impactos socioambientais irreversíveis, a justiça se demonstra pouco afeita à resolução dos conflitos de forma ágil, beneficiando ações criminosas de grandes empresas em detrimento do direito das comunidades afetadas e da preservação do meio ambiente.

Diante do histórico de degradação ambiental e dos impactos negativos causados pela BRALANDA no Sul e Extremo Sul da Bahia, pode-se dizer que 47 anos de tramitação de processos paralisados e inconclusos na justiça representam, talvez, uma falência da legalidade e das instituições brasileiras em um contexto de ampliação das políticas neoliberais, onde o estado nacional se converte em um balcão de negócios para a administração de interesses privados, perdendo gradativamente sua autonomia política, jurídica e administrativa. Não faltam provas, testemunhas e processos jurídicos que evidenciem as arbitrariedades cometidas pela empresa no Sul-Extremo Sul da Bahia, porém, isso ainda não foi capaz de fazer com que as vítimas fossem indenizadas e que os culpados respondessem por seus crimes.

[4]Essa empresa responde por vários processos de expropriação e violência. Um dos casos mais conhecidos é o da região do Vale Verde, próximo a Arraial D’ajuda, onde hoje está instalado o Parna Pau Brasil (ação expropriatória nº 2006.33.10.003251-4). Vale Verde era na década de 70 uma importante reserva de Mata Atlântica, sua população, composta na essência por pequenos agricultores, foi presenteada com a Bralanda. Não satisfeita com o espaço que possuía para as suas atividades de extração de madeira em áreas importantes de Porto Seguro, Mucuri e Prado, a empresa invadiu o espaço dos trabalhadores rurais, promovendo episódios que entraram para os anais das atrocidades na região. Casas incendiadas e centenas de famílias desabrigadas. Quem conhece a história sabe do envolvimento de jagunços contratados para persegui-los, prisões arbitrárias, mortes, desaparecimentos e ações nefastas que emperraram o seguimento das ações judiciais. O extrativismo predatório em cerca de 40 mil hectares foi encerrado com a empresa levando consigo cerca de 80% do valor das indenizações que foi judicialmente destinada aos posseiros”.

Denúncias apontam que a BRALANDA adquiriu terras no Sul e Extremo Sul da Bahia através da “grilagem terceirizada”, utilizando-se da contratação de pistoleiros para expulsar posseiros e promovendo transações comerciais ilícitas sem vínculo direto com a empresa para a mediação na compra de propriedades rurais. Outras empresas na região também são acusadas de promover esse tipo de atividade, a exemplo das Indústrias Cabrália S/A, e a Flonibra, que respondem a processos judiciais pela compra fraudulenta de propriedades. Fontes bibliográficas utilizadas para este trabalho demostram que em meados da década de 70, estabeleceu-se no Sul e Extremo Sul da Bahia um suposto negócio de compra e venda de terras, apontado pelos inquéritos do INTERBA (Instituto de Terras da Bahia), como uma atividade ilegal que utilizou compradores “fantasmas” para falsificar documentos com a finalidade de ludibriar agricultores locais. Conforme Sotto-Maior (2007), “segundo relatos dos Pataxós, a pressão para venda das terras por valores irrisórios foi feita pelos senhores conhecidos como Múcio e Expedito. Estes demarcavam posses irregulares, muitas destas repassadas para a Bralanda e a Flonilbra”.

[5]“Uma suposta compra de propriedade feita por Sílvio Carvalho, em 10 de junho de 1974, imóvel que pertencia à dona Estelita Batista do Nascimento, ilustra bem o modus operandi da quadrilha. Nessa suposta transação que foi relatada pelo servidor do Interba, Samuel Gomes Lima, em ofício encaminhado a Jayro Nunes Sento-Sé, diretor Executivo do órgão, Ojackson aparece como assinante a rogo da vendedora, que parece fantasma, visto que ninguém consegue localizá-la, nem notícia de que realmente existe, relata o servidor. De posse desse documento forjado, o grileiro tomou à força a terra adquirida por ocupação primária por dona Estelita”.

De acordo com os dados do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Comexatibá (Cahy/Pequi) elaborado por técnicos da FUNAI, as ações irregulares da empresa BRALANDA tornaram-se memórias constantes entre as comunidades Pataxós na região do Monte Pascoal, que vivenciaram os tempos de violências, de perseguições e de expulsões desde a década de 50 até a década de 90. É comum ver depoimentos como o do Sr. Gentil Brito da Conceição, que diz ter sido morador em um local chamado Alegria Nova, em uma pequena roça cercada por grandes fazendas durante um certo tempo, até que a BRALANDA comprou as terras de um fazendeiro vizinho chamado Sr. Mascarenhas, e, depois disso, a empresa passou a pressionar a família do pequeno proprietário para que vendesse a roça. O Sr. Gentil conta que não quis vender a propriedade e, por isso, foi expulso com a família em 1974 sobre a acusação de estar ocupando terras que a empresa havia comprado. Durante a expulsão, os funcionários da BRALANDA mandaram queimar três casas e uma farinheira em sua propriedade com apoio de agentes policiais do município de Prado, Ba, além disso, a família do Senhor Gentil foi obrigada a se retirar em uma noite chuvosa e uma das filhas pequenas que estava com sarampo não resistiu e morreu.

Até mesmo em relatos que não estão vinculados diretamente a impactos socioambientais é possível confirmar a presença da BRALANDA na memória das comunidades indígenas, evidenciando a forma como as violações causadas pela empresa deixaram profundas marcas na vida dos moradores dos locais afetados. “Histórias como as de José Ferreira Guedes são comuns. Zeca Guedes, como é conhecido, possui aproximadamente 65 anos e nasceu próximo ao Córrego do Gibura, perto do Rio Corumbau, depois foi morar no Rio do Sul, afluente do Caí. Ele conta que Firmo Carlos de Oliveira, avô de Jovita, encontrou Gregória Santana, sua avó, em uma de suas andanças em busca de pesca e a “pegou para criar”. A menina era pequena e estava perdida na praia perto de Prado. “Ela dizia que era índia de Prado”. A menina cresceu e casou-se também com índio, só que do grupo que chamam de Mavão. Pedro Ferreira de Jesus. Foram morar próximo ao rio Caí. Após vários anos, chegaram uns agrimensores e falaram que eles deveriam sair da terra; pressionaram tanto que Pedro a vendeu por pouco dinheiro. Juntou-se então com outros irmãos para abrir posse na área denominada Brasília, local próximo ao rio Brasília, a oeste da aldeia Pequi, dentro do PND. “Meu avô conta que lá era só mata e só foi desmatada com a presença da BRALANDA”. Zeca Guedes conta ainda que, com a pressão da BRALANDA, seu avô saiu da terra, já com 76 anos, e foi morar em Cumuruxatiba, onde adoeceu de tristeza e morreu um ano depois”. (FUNAI, 2006).

As atividades da Bralanda cessaram, parcialmente, em 1984, quando na época praticamente não havia florestas suficientes para manter o modo de produção em larga escala implantado pela empresa. Porém, na área que hoje é ocupada pelo Parque Nacional do Descobrimento a extração madeireira continuou até a década de 90 de forma “moderada”, sobre a autorização do governo, e cessando definitivamente quando não houve mais condições de continuar explorando o território que se encontrava profundamente desmatado. No final dos anos 90, a BRALANDA vendeu suas terras que somavam aproximadamente 200 hectares para alguns pecuaristas e para o IBAMA que implantou no local o Parque Nacional do Descobrimento.

Algumas considerações finais

É importante destacar que as atividades de extração de madeira de forma insustentável continuam ocorrendo até hoje na região, com outras facetas, pintadas de verde, de economia verde. Atualmente, a maior indústria extrativista de celulose geradora de empregos é também a responsável pela criação de desertos verdes e perda de biodiversidade com a ampliação da área de atuação e plantio. A referida empresa, de certa forma, recopila as práxis das indústrias extrativistas instaladas no território no passado, mas, pelo poder de marketing que possui interfere nos imaginários sociais locais e se projeta como sustentável até nos espaços acadêmicos nos quais possui parcerias com cursos de formação que deveriam ser lócus críticos de discussão sobre educação ambiental, desenvolvimento sustentável e outras questões que poderiam proporcionar desenvolvimento sustentável, de fato, para o Sul e o Extremo Sul da Bahia.

Retomando a discussão em torno da BRALANDA, é interessante mencionar que foi a maior fábrica de compensados da América Latina, que utilizava as atividades de extração madeireira no Sul e no Extremo Sul da Bahia como alternativa para a obtenção de matéria-prima e mão de obra barata. “Ela possuía uma enorme estrutura de produção que formava uma rede que começava no arrancar das árvores em mata fechada até os portos onde seguiam tacos, lâminas de compensado para móveis e outros, além de madeira bruta para abastecer principalmente o mercado europeu”. (CERQUEIRA NETO, 2001, p. 87). A empresa também possuía empreendimentos industriais nos estados do Espírito Santo e Minas Gerais, que eram controlados por um escritório central localizado no Rio de Janeiro, de onde eram feitas as transações comerciais internacionais com grande penetração no mercado global.

A BRALANDA atraiu para o Sul e Extremo Sul da Bahia funcionários de todo o país, pois o funcionalismo nesta empresa foi bastante cobiçado devido às condições oferecidas aos funcionários mais qualificados vindos de “fora” que recebiam bons salários e moradia gratuita em vilas construídas pela empresa, além de gozar de uma determinada “autoridade”, semelhante ao que acontece com os atuais funcionários das empresas de celulose na região. Ademais, os altos investimentos em mão de obra e em infraestrutura da empresa representaram lucros privados e pouco retorno em benefício público diante dos impactos gerados.

Por último, com o objetivo de reiteração e convite à reflexão, é importante mencionar que a presença da multinacional BRALANDA na exploração de mão de obra e dos recursos naturais no Sul e no Extremo Sul da Bahia provocou profundos impactos socioambientais, expulsou pequenos agricultores e indígenas das terras, destruiu 40 mil hectares de Mata Atlântica nativa, promoveu a grilagem de terras e causou diversos conflitos fundiários acirrando a violência no campo e deixando um rastro de destruição que perdura até a atualidade, sem a responsabilização dos culpados e indenização das vítimas.

Diante do quadro apresentado, é possível questionar a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento econômico implantado no Sul e Extremo Sul da Bahia, no passado e no presente, envolvendo empreendimentos financeiros desta natureza, a exemplo da BRALANDA, em terras nacionais e devolutas com incentivos e concessões do Estado, sendo que os benefícios gerados através de empreendimentos dessa tipologia têm sido mínimos, se comparados com os impactos negativos que são causados em detrimento dos benefícios que estes recursos poderiam gerar para o país se estivessem sendo regulados de forma sustentável e responsável pela gestão pública e pela gestão das comunidades que dependem dos serviços ecossistêmicos territoriais para a reprodução social, física e cultural.

Referências bibliográficas

GARCEZ, Angelina Nobre Rolim. FREITAS, Antônio Fernando Guerreiro de. História Econômica e Social da Região Cacaueira. Rio de Janeiro, gráfica Cruzeiro do Sul, Convênio Universidade Católica de Salvador/ CEPLAC, 1975.

CERQUEIRA NETO, Sebastião P. G.  Contribuição ao estudo geográfico do município de Nanuque – MG. Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade Federal de Uberlândia – MG, 2001.

DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.

https://www.learner.org/courses/envsci/visual/visual.php?shortname=hotspots. Acesso em 21/09/2017.

MACHADO, Gustavo B. Tendências e contradições na formação regional do Extremo Sul da Bahia entre 1950 – 2000. Dissertação (mestrado em economia). UFBA/BA. Salvador, 2000.

FUNAI. Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação Terra Indígena Comexatibá (Cahy/Pequi). Município de Prado (BA). SOTTO-MAIOR, Leila Silvia Burger. BRAGA I GAIA,  Sara. Portaria nº 1.455/PRES e complementares, 2006.

Notas:

[1] Sociedade Anônima Brasil-Holanda Indústria

[2] Júlio Rodrigues, fazendeiro que possuía uma grande propriedade rural chamada fazenda Caledônia, que ficava localizada onde hoje está o (PND) Parque Nacional do Descobrimento. Após uma suposta doação da propriedade para os indígenas da região na década de 70, a área passou a ser especulada pela BRALANDA, e muitos posseiros perderam suas terras sobre a justificativa de que Júlio Rodrigues havia vendido sua propriedade para a empresa madeireira.

[3] http://radar64.com/noticia/caso-bralanda-juizas-especiais-vao-julgar-processos_4437.html Acesso em 21/09/2017.

[4] http://papocompaulo.blogspot.com.br/2009/02/bralanda-chegou-hora-da-verdade.html Acesso em 21/09/2017.

[5] http://racismoambiental.net.br/2014/01/22/grilagem-terceirizada-por-teoney-araujo-guerra/ Acesso em 21/09/2017.

Informações sobre os autores:

Elissandro dos Santos Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, colunista socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato e Revisor da Revista Latinoamérica.

Ramon Rafaello é ativista socioambiental e discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Fonte: EcoDebate

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