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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Plantas medicinais e economia de reciprocidade, artigo de Roberto Naime

As plantas medicinais, ou fitoterápicas são objeto da ausência de transmissão de conhecimento, do preconceito e do desinteresse da indústria farmacêutica e de outros tantos fatores.  
Não integram o currículo e não patrocinam qualquer movimento no interior dos cursos de medicina, então só podem ser relegadas mesmo ao ostracismo. Não há interesse em viabilizar qualquer defesa ou condenação de seu uso ou de atestar sua eficácia ou eficiência, o que pode e deve ser feito por pessoas habilitadas especificamente para isto.

Mas cabem algumas reflexões, num país aquinhoado por uma das maiores e mais notáveis, massas de biodiversidades do mundo, em seus diversos biomas e ecossistemas. O patrimônio genético do país é quase imensurável, tanto em elementos faunísticos, como em diversidade botânica. A indústria de fármacos alopáticos argumenta que componentes de plantas fitoterápicas são ineficientes ou de reduzida capacidade terapêutica. Não cabe opinar sobre esta manifestação.

Mas então porque as terapias com plantas não acabam se reduzindo amplamente no país? Só a existência de populações pobres e vulnerabilizadas explica tudo? A resposta, certamente é negativa. Para espanto de todos. Certa vez empresa multinacional de fármacos desenvolveu remédio que dependia de planta existente em local remoto. As populações que viviam no local eram tradicionais, detentoras de saberes e modo de vida despojado, que obviamente não era compreendido. Então os responsáveis precificaram a planta de forma que lhes pareceu adequado. Quando fatores mercadológicos tornaram necessária maiores quantidades da planta, os responsáveis elevaram o valor do preço de compra. E para seu espanto diminuíram as quantidades coletadas e entregues pela população local.

É que as populações locais necessitavam certa quantidade de recursos para seu sustento e quando esta quantidade de valores passou a ser obtida com menor quantidade de plantas, então as disponibilidades de matérias-primas obtidas passou a ser menor. Diante da premissa de acumulação contínua e crescente que caracteriza as sociedades ocidentais, esta realidade deve continuar sendo incompreendida até os dias atuais.

Raciocínio análogo, mas não exatamente igual, ocorre em relação às redes de saberes tradicionais, e sustentação que se estabelecem entre as comunidades e determinam a continuidade das terapias com plantas. A este cenário se denomina de economia de reciprocidade.

Um indivíduo tem conhecimento da natureza fitoterápica. Outro tem conhecimentos tradicionais em botânica popular. Determinada pessoa conhece outras que já usaram a substância de forma medicamentosa, e atestam sua efetividade. Outras pessoas detém conhecimentos históricos de usuários capazes de certificar as condições de uso e a eficiência do fitoterápico considerado. Tudo não depende da presença ou ausência de recursos financeiros. Mas está formada a interligação que determina a formação de redes de confiabilidade entre indivíduos e grupos sociais e é esta “rede” ou interligação que vai certificar a formação de um núcleo de economia de reciprocidade.

É extremamente natural que indivíduos integrantes de indústrias farmacêuticas tradicionais, pensem e necessitem de farmacopéias em volumes extensos, e em testes padronizados de eficiência terapêutica dentro de uma ótica cartesiana. E da mesma forma que a formação científica hegemônica de todos, questionem a veracidade da certificação informal ou nem mesmo compreendam os mecanismos atuantes na economia de reciprocidade que estabelece os mecanismos de validação do conhecimento que perpetuam a permanência da terapêutica das plantas.

Sobre economia de reciprocidade, se pode definir a mesma com uma só expressão, que independe de fatores econômicos, omissões curriculares, ou interesses econômicos explícitos ou difusos. A palavra é confiança. A reciprocidade se estabelece como um valor determinante para a existência de todas as populações excluídas ou vulnerabilizadas e que é de extrema importância, se diria que é um vetor fundamental. Reciprocidade é confiança. A necessária confiabilidade entre indivíduos, que fundamenta a vida e viabiliza a sobrevivência de quem mais precisa.

Certamente este valor humano explica todo um conjunto de relações subjacentes ou subterrâneas, de extrema consistência que, como as raízes de uma grande árvore, sustenta o modo de vida das pessoas. Ninguém vai tomar um chá de um extrato de planta, que não tem a menor probabilidade de atuar de maneira eficiente. Mas entre as populações de mais baixa renda, carentes ou vulnerabilizadas, subsistem relações apenas ancoradas em confiabilidade ou solidariedade, em muito maior dimensão do que se imagina.

Tal qual os gestores que dependiam de matéria-prima de região habitada apenas por populações tradicionais que não entenderam a diminuição da oferta com a elevação de preço, os pilares da economia de reciprocidade ainda ficarão por muito tempo incompreendidos e a utilização de fitoterápicos continuará existindo por muitas gerações dentro deste cenário, até que seja absorvida ou não pela medicina e farmacologia mais formalizada. Ou simplesmente, a medicina mais tradicional.

Até lá prevalecerão constantes que priorizam a manutenção de qualidade ambiental e maior qualidade de vida das populações consideradas, com ou sem mecanismos formais que atestem eficientização de remédios à base de princípios fitoterápicos. Ou seja, até lá, nada além do que a economia de reciprocidade avaliza e a confiabilidade sustenta.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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