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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Clima complica fragilidade do sul global


Enquanto o Sul Global se esforça para superar uma história de fraca institucionalidade, conflitos armados e êxodos forçados pela pobreza, origem de suas crises humanitárias, seus países agora devem lutar para que o aquecimento global não complique essas vulnerabilidades.

Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS –

São José, Costa Rica, 20/5/2016 – “A redução dos riscos de desastres e a adaptação à mudança climática em Estados frágeis e afetados por conflitos do Sul Global historicamente são deixados de lado e frequentemente vistos como muito complexos ou de menor prioridade”, disse à IPS a especialista em segurança e mudança climática, Janani Vivekananda.

Vivekananda, diretora de Ambiente, Mudança Climática e Segurança, da organização não governamental International Alert, citou como exemplo seu país, o Sri Lanka, cuja realidade, com suas peculiaridades,é comum em países em desenvolvimento que formam esse Sul Global.“Devido à frágil situação política nesse país, após 25 anos de conflitos que terminaram em maio de 2009, é crítico assegurar que os impactos da mudança climática não exacerbam dinâmicas conflituosas”, afirmou, de Londres.

Uma nação insular, em desenvolvimento e instável politicamente como a sua e muitas outras no Sul, verá seus problemas se multiplicar em um planeta mais quente e com o nível do mar mais elevado, destacou a especialista.“A mudança climática é multiplicadora de risco por excelência: agravará situações que já são frágeis e pode contribuir para a convulsão social ou mesmo conflitos violentos”, afirma o documento A New Climate for Peace, preparado em 2015 para o Grupo dos Sete (G-7) países mais ricos.

Esse é o desafio dos governos e organizaçõesque estarão em Istambul na primeira Cúpula Humanitária Mundial (CHM), que acontecerá nos dias 23 e 24 deste mês, convocada pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, para discutir o enfoque do sistema humanitário global.Nessa cidade turca, os delegados buscarão o caminho para integrar a concepção tradicional de emergências humanitárias com a irrupção de outras, começando pelas rápidas transformações do clima mundial, que este ano alcançou recordes de temperatura.

“É por isso que a iniciativade refazer o sistema humanitário, que nasce com a Cúpula, é importante”, explicou Vivekananda. Justamente nesta semana que antecede a CHM, chuvas torrenciais expulsaram quase 200 mil habitantes do Sri Lanka de suas casas e 35 morreram em deslizamentos, contou Vivekananda a título de exemplo das crises contínuas geradas pela mudança climática.

O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC) estima que o planeta esquentará até mais quatro graus Celsius até 2100, se a humanidade mantiver o ritmo atual de emissões de gases-estufa.Mesmo chegando ao “limite seguro” de 1,5 ou dois graus acordados em dezembro no Acordo de Paris, os efeitos seriam sentidos por todos, segundo o IPCC, que em abril concordou em preparar um informe detalhado sobre os impactos de um aquecimento global de 1,5 grau.

O histórico Acordo de Paris é uma das pedras angulares com que contarão as delegações nacionais que forem a Istambul, junto com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, , e o Marco de Ação Sendai para a Redução de Desastres, estabelecidos, respectivamente, em setembro e março do ano passado. “Ainda falta reconhecer os vínculos entre diferentes tipos de riscos e vulnerabilidades”, indicou Vivekananda a respeito da ainda não formalizada conexão entre esses dois acordos e a CHM.



Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), acordados dentro da Agenda 2030, são fundamentais para compreender a relação entre mudança climática e atenção humanitária.O informe para o G-7 mostra que os países mais pobres e com sistemas políticos frágeis – como Iraque, República Democrática do Congo ou Haiti – são os que correm mais riscos e terão mais dificuldades para se adaptarem à mudança climática.

A pressão climática pode transtornar a produção alimentícia ou exigir atenção extra por parte de governos locais dizimados. Em situações extremas, esses fenômenos podem levar à migração forçada.Segundo o Informe Global 2016 sobre Deslocamentos Internos, publicado este mês pelo Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), em 2015 houve mais pessoas deslocadas por desastres naturais relacionados com fenômenos hidrometeorológicos (14,7 milhões) do que por conflitos ou violência (8,5 milhões).

O documento também destaca o impacto do fenômeno meteorológico El Niño Oscilação Sul (Enos) e diz que, para as pessoas mais expostas e vulneráveis a chuvas e temperaturas extremas,“seus efeitos foram devastadores e provocaram deslizamentos”.Por exemplo, o El Niño causou intensa seca na costa sul-americana do Pacíficoe em particular no Corredor Seco Centro-Americano, uma faixa árida de floresta onde predomina a agricultura familiar de subsistência e na estação úmida as precipitações chegam a diminuir entre 40% e 60%.

“Centenas de pessoas da Nicarágua foram obrigadas a se deslocar fora das fronteiras do país por causa da seca”, informou à IPS o costarriquenho Juan Carlos Méndez, da Comissão Nacional de Prevenção de Riscos e Atenção a Emergências (CNE) de seu país. Como funcionário da CNE, também atua como assessor para a Iniciativa Nansen, um esforço internacional para criar mecanismos de atenção a deslocamentos transfronteiriços por desastres naturais e pela mudança climática.

“Aqui é onde encontramos os maiores desafios políticos e técnicos. Pode-se ligar claramente o deslocamento com um desastre natural,como um terremoto ou furacão, mas agora temos que ligá-lo a temas de mudança climática”, ponderouMéndez.Na versão final do Acordo de Paris, o conceito foi incluído como um dos princípios que guiarão sua implantação. Os cruzamentos entre mudança climática, impactos humanitários e cúpulas internacionais são novos, mas crescentes.

Em novembro de 2013, as negociações climáticas da 19ª Conferência das Partes (COP 19) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC), realizada em Varsóvia, tiveram como pano de fundo a devastação deixada, quase simultaneamente, pelo supertufão Haiyán no sudeste asiático, em particular nas Filipinas.Com 6.300 mortes, o impacto humano do ciclone tropical intensificou as negociações na capital polonesa e levou à criação de um mecanismo para lidar com danos e perdas associados à mudança climática.

Um estudo científico, publicado em janeiro deste ano, mostra que as Filipinas terão o maior aumento anual do nível do mar do mundo, 14,7 milímetros anuais, cerca de cinco vezes a média mundial.“Por isso, é urgente que as Filipinas potencializem seus esforços em preparação para atender desastres, particularmente em comunidades com alto risco de desastres e alta incidência de pobreza”, ressaltou à IPS a ativista Ivy Marian Panganiban, do Caucus de Redes de Organizações para o Desenvolvimento (Code-NGO).

Junto a outras seis instituições filipinas, essa organização defende uma resposta humanitária centrada no nível local e espera diretrizes de Istambul nessa direção. Essas organizações não governamentais “deveriam ser capacitadas e envolvidas no processo de governança, já que estão na primeira linha, junto com as pessoas afetadas pelos desastres”, pontuou Panganiban, de Manila.

Fonte: Envolverde

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