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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Lutando contra o vazio, artigo de Montserrat Martins

Ao contrário do que pensa o deputado Heinze, a essência do povo brasileiro é ser aquele que “quanto mais misturado, mais puro fica”, como já disse Nelson Rodrigues. 


A espiritualidade iorubá está presente na nossa vida através dos Orixás, a música de bandinha alemã e a tradição da Oktoberfest também está, assim como as pizzas italianas. Construída de modo sofrido ao longo dos séculos, o convívio entre povos de origem muito diversa está hoje entre nossos maiores patrimônios nacionais, que incluem a miscigenação multicultural e seus inúmeros sincretismos. O genocídio dos povos indígenas, porém, ainda está em curso e ameaça de extinção física seus últimos remanescentes, bem como o que resta de sua cultura.

Superinteressante mesmo ler a revista sobre “1499, o Brasil antes de Cabral”, mostrando descobertas arqueológicas sobre a “civilização da selva” no século XV. Eram “estruturas multicêntricas, com redes de assentamentos”, interconectados, tendo as imagens de satélite identificado que “o caminho entre eles era permeado de hortas e pomares para sustentar uma população de milhares”. Os pesquisadores descreveram esses assentamentos como cidades-jardim e “a população de uma cidade-jardim poderia chegar a 50 mil pessoas, o equivalente a cidades-estado da Grécia”. Além disso, também tinham uma rede de trocas muito mais extensa do que se imaginava e que precedeu o Mercosul. Num sítio arqueológico indígena “em Cananéia (SP) por exemplo foi encontrado um machado pré-colombiano feito com cobre dos Andes”.

A sabedoria da civilização em harmonia com a floresta é ameaçada agora também pela PEC 215 , que transfere da União para o Congresso a competência sobre a demarcação das terras indígenas. Manobra da bancada ruralista para tomar as terras indígenas, no rumo do extermínio tanto dos índios quanto da própria floresta. Um drama que não está claro para muitos mas afeta a todos, como provam as insanas oscilações de temperatura a que estamos submetidos com o desequilíbrio climático. O Brasil, que aumentou o desmatamento após as mudanças no Código Florestal feitas pelo próprio Congresso, hoje é um dos principais responsáveis pelas alterações do clima, ao lado de Estados Unidos e China.

O risco de extinção dos índios, portanto, não é só deles, é de todos nós. O século XXI é o que definirá nossa permanência ou não no planeta. Seremos capazes de evitar a previsão do antropólogo Claude Lévi-Strauss de que a Terra “começou sem nós e terminará sem nós”? Um cientista social, aliás, que testemunhou o drama dos índios brasileiros, relatado em “Tristes Trópicos”, uma leitura obrigatória que esse francês nos deixou, para compreendermos nosso próprio país. Vivemos hoje o risco da extinção dos índios e das matas, sem que a sociedade pareça alerta o suficiente para impedi-los. Em contraste com a história popular onde os índios eram ludibriados com quinquilharias, hoje somos nós quem consumimos bugigangas diariamente, enquanto se extirpa uma parte fundamental da essência do nosso povo e da nossa terra, sem que nos demos conta disso, deixando um verdadeiro vazio entre nós.

Além do vazio na identidade do país, com seu extermínio físico e cultural, se abrem as portas para o vazio seguinte que é o das florestas, com a exploração predatória das suas reservas, ameaçadas pela PEC 215. Há vazios que vão contra a própria vida e esses, não podemos admitir. Essa luta é pela nossa própria existência.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate

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