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quarta-feira, 30 de abril de 2014

A densidade demográfica e o déficit ambiental na Holanda e em Ruanda, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Europa tinha uma densidade demográfica maior do que a África. Mas isto mudou no século XXI, pois, em 2010, a África (34 habitantes/km2) ultrapassou a densidade demográfica da Europa (32 hab/km2). Em 2100, na projeção média de fecundidade, a densidade demográfica da África deve passar para (138 hab/km2) contra (28 hab/km2) da Europa, quase 5 vezes maior.


A Holanda e Ruanda são dois países representativos destas novas tendências demográficas. A Holanda se desenvolveu em uma época que havia superavit ambiental no mundo. O avanço no desenvolvimento humano holandês pode contar com a disponibilidade de recursos naturais de outros países do globo e a alta densidade demográfica não foi obstáculo para a melhoria da qualidade de vida.

Já Ruanda tinha uma densidade demográfica relativamente baixa em 1950, mas o alto crescimento populacional mudou rapidamente esta situação, mesmo depois do grave genocídio ocorrido em meados dos anos 1990. Alguns autores, como Jared Diamond, argumentam que a alta densidade acirrou a competição pela posse da terra e foi um dos fatores que provocou a guerra civil que desaguou no genocídio de 1994 e que agora completa 20 anos.

Porém, passado o efeito da queda populacional provocado pela mortalidade, o ritmo de crescimento demográfico voltou a crescer e Ruanda deve atingir uma densidade de cerca de 1.400 habitantes por km2 em 2100, no caso da hipótese média de fecundidade, ou de 800 habitantes por km2 em 2100, no caso das taxas de fecundidade caírem em ritmo mais acelerado. Mesmo nesta segunda hipótese, a densidade demográfica será o dobro da densidade holandesa.

Mas Ruanda vai enfrentar uma alta densidade demográfica em uma conjuntura de menor crescimento econômico internacional e mais alto deficit ambiental. O deficit holandês é grande, pois o país tinha, em 2008, uma pegada ecológica per capita de 6,34 hectares globais (gha) para uma biocapacidade per capita de somente 1,03 gha. Todavia, Ruanda também possuía deficit, pois mesmo tempo uma pegada ecológica baixa (de 0,71 gha) tinha uma biocapacidade per capita de somente 0,52 gha. Com o crescimento populacional a biocapacidade per capita de Ruanda pode chegar a meros 0,16 gha em 2100.

Para enfrentar os desafios atuais e futuros de Ruanda, o presidente Paul Kagame tem tomado uma série de medidas. Por exemplo, Ruanda é o único país do mundo em que a participação das mulheres na política supera a dos pares masculinos. A fecundidade caiu de 6 filhos por mulher para 4,6 filhos entre 2005 e 2010. Kagame participou da Cúpula do Planejamento Familiar, em Londres, em 2012 e tem buscado ajuda externa para reduzir a pobreza e defender o meio ambiente, inclusive protegendo a população de Gorilas, que vivem no pouco que resta das montanhas verdes do país.

Enquanto a Holanda tem o desafio de promover o decrescimento demo-econômico, Ruanda vai ter que enfrentar a dupla tarefa de reduzir a pobreza e defender o meio ambiente, ao mesmo tempo, na perspectiva de elevação do índice de desenvolvimento humano (IDH) com respeito à biodiversidade. Ao contrário do que supunha Ester Boserup, a alta densidade demográfica de Ruanda, no atual contexto de uma economia globalizada, pode se tornar um fator de freio ao desenvolvimento sustentável e um elemento de instabilidade social e política. Mas com sabedoria e coesão social Ruanda poderá trilhar, mesmo com dificuldades, o caminho do progresso social e ambiental. Para tanto, vai precisar da ajuda internacional e da solidariedade entre os povos.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate

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