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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Reúso da água é essencial para gestão dos recursos hídricos

Reúso da água é essencial para gestão dos recursos hídricos. Entrevista especial com José Galizia Tundisi


“Pode-se afirmar que 60% da água utilizada para abastecimento no Brasil é perdida pela incapacidade de reutilização”, constata o pesquisador.

“A gestão das águas por bacias hidrográficas é atualmente o grande desafio”, diz José Galizia Tundisi à IHU On-Line, ao comentar a atual situação dos recursos hídricos no Brasil. Segundo ele, se fosse realizada uma gestão “bem executada”, seria possível “assegurar um controle mais efetivo às reservas de água e maior eficiência no uso”.

Outro fator que contribui para a má gestão dos recursos hídricos no país, frisa, é o não tratamento de esgoto. A ineficiência desse serviço, explica, faz com que a perda de água chegue a “quantidades abundantes pela incapacidade de reúso”, chegando a um total de 60%.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Tundisi pontua ainda que o “reúso de água implica técnicas avançadas para melhorar a qualidade das águas já tratadas. Por exemplo, pode-se melhorar muito a qualidade da água ao utilizar membranas especiais para filtrar água do esgoto já tratada”.

José Galizia Tundisi é graduado em História Natural, mestre em Oceanografia pela University of Southampton e doutor em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor titular aposentado da USP e professor titular do curso de Qualidade Ambiental da Feevale, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista.


Foto: Ronan Dannenberg / COMUSA


IHU On-Line – Em artigo recente o senhor afirma que o ciclo hidrológico foi alterado para um ciclo hidrossocial. Em que consiste essa mudança e o que entende por hidrossocial?

José Galizia Tundisi – Ciclo hidrossocial refere-se a todas as atividades humanas relacionadas com o ciclo da água. Podemos dizer que o ciclo hidrossocial é a expressão da atividade humana no ciclo hidrológico.

IHU On-Line – De que modo o crescimento populacional, a urbanização e o aumento na produção de alimentos têm impactado nos recursos hídricos?

José Galizia Tundisi – Crescimento populacional, produção de alimentos e urbanização impactam o ciclo da água pelo uso excessivo da água superficial e água subterrânea e pela degradação produzida por resíduos. Como a quantidade de água é sempre a mesma, o uso excessivo de água leva à depleção. Além disso, a poluição e a degradação pelo uso do solo, e esgotos não tratados impedem o uso de águas superficiais e subterrâneas.

IHU On-Line – Como deveria se pensar a gestão da água na atual configuração social em que vivemos, com aumento populacional e maior produção de alimentos?

José Galizia Tundisi – A gestão da água deve ser feita por bacias hidrográficas. Os usos da água na área urbana devem ser estritamente controlados. A utilização da água na produção dos alimentos deve ter tecnologias mais avançadas. Se a gestão for bem executada em nível de bacias hidrográficas, pode-se assegurar um controle mais efetivo às reservas de águas e maior eficiência no uso.


“Há riscos de esgotamento de recursos hídricos por bacias hidrográficas e uso excessivo do recurso”

IHU On-Line – Quais são os riscos em torno da segurança hídrica nos nossos dias?

José Galizia Tundisi – Os riscos principais referentes à segurança hídrica são: mudanças globais e falta de água; contaminação e poluição que impedem abastecimento efetivo; incapacidade de ministrar água suficiente de boa qualidade para a população humana e para manter o funcionamento dos ecossistemas.

IHU On-Line – Há riscos de esgotamento dos recursos hídricos dado o aumento do uso desses recursos nas últimas décadas?

José Galizia Tundisi – Sim. Há riscos de esgotamento de recursos hídricos por bacias hidrográficas e uso excessivo do recurso. Como a reciclagem é ainda pouco utilizada, há riscos de se esgotarem as reservas devido ao desequilíbrio: precipitação — uso excessivo.

IHU On-Line – O que é o fenômeno de eutrofização e de que modo ele impacta o tratamento da água?

José Galizia Tundisi – A eutrofização é um fenômeno resultante da intensa carga de nitrogênio e fósforo para lagos, represas e rios. É resultado de atividades humanas como a agricultura, urbanização e despejos de esgotos não tratados nos corpos de água. Quanto maiores os graus de eutrofização, maior é o custo do tratamento de água para torná-la potável.

IHU On-Line – Quando se trata de sugerir o reúso de água tratada, que práticas já têm sido implementadas nesse sentido e de que maneira é possível avançar para ampliar o reúso?

José Galizia Tundisi – O reúso de água implica técnicas avançadas para melhorar a qualidade das águas já tratadas. Por exemplo, pode-se melhorar muito a qualidade da água ao utilizar membranas especiais para filtrar água do esgoto já tratada. Este tipo de tratamento já vem sendo realizado por pesquisadores da Universidade FEEVALE com coordenação do professor Marco Antonio Siqueira Rodrigues. Um novo Centro de Pesquisa em Tecnologias Limpas foi criado só para tratar deste problema do uso de membranas para reúso de água. Isto permitirá ampliar o reúso. O Centro Internacional de Referência em Reúso de Água da Escola Politécnica da USP, em São Paulo, vai na mesma linha.


“Para uma gestão integrada, preditiva e de alto nível é necessário utilizar tecnologias avançadas, participação comunitária e integração de processos econômicos, ecológicos e sociais”

IHU On-Line – O não tratamento do esgoto provoca a perda de recursos hídricos. Considerando que no país somente 40% do esgoto é tratado, é possível estimar quanto se perde em termos de recursos hídricos por conta desse percentual de tratamento?

José Galizia Tundisi – O não tratamento de esgoto perde quantidades abundantes de água pela impossibilidade de reúso. Portanto, perdem-se recursos hídricos pela incapacidade de reúso. Pode-se afirmar que 60% da água utilizada para abastecimento no Brasil é perdida pela incapacidade de reutilização.

IHU On-Line – Há risco de crise de abastecimento hoje no Brasil?

José Galizia Tundisi – Há problemas localizados de abastecimento no Brasil que podem se agravar em função do ciclo hidrológico comprometido e pelo uso excessivo de água. Problemas de impactos de mudanças climáticas podem ocorrer dependendo da região, latitude e longitude. Crise de abastecimento pode ocorrer em grandes regiões metropolitanas que usam muita água sem gestão adequada.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Galizia Tundisi – A gestão das águas por bacias hidrográficas é atualmente o grande desafio. Para uma gestão integrada, preditiva e de alto nível é necessário utilizar tecnologias avançadas, participação comunitária e integração de processos econômicos, ecológicos e sociais.

Fonte: EcoDebate

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