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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Mudanças climáticas provocam batalhas entre países por causa de peixes

Perdão leitores, mas é impossível escrever hoje sem o impacto da notícia de que o presidente da nação mais rica do planeta havia ordenado que separassem filhos, muitos deles bebês de colo, de seus pais imigrantes.
Entendo perfeitamente o choro da jornalista que se viu obrigada a contar ao mundo tal barbaridade e sofro, de verdade, quando leio comentários que dão razão ao ato. Não é uma questão de política ou partidos, de esquerda ou direita: é de humanidade que estamos falando! Ainda assim, sei que Donald Trump é apenas um líder, e que muitos são aqueles que se indignam, sinceramente, com uma covardia dessas.

Sim, eu sei, ele voltou atrás, o que apenas comprova que tinha tomado uma decisão equivocada (para dizer o mínimo). Ao mesmo tempo, mostra também que o líder dos mais poderosos toma atitudes assim, levado talvez pela raiva, de um jeito imediatista, querendo apenas resolver um problema rapidamente, não importa como.

E é deste jeito mesmo, imediatista, que estamos lidando com os bens que a natureza nos oferece. É um tema recorrente aqui no meu blog, mas hoje falo sobre os peixes. Uma pesquisa feita por um pesquisador da Rutgers University New Brunswick e publicada pela revista Science dá conta de que as mudanças climáticas (causadas pelas atividades humanas, como se sabe) estão também forçando migrações de várias espécies de peixes. E o que está acontecendo, ainda segundo a pesquisa, é que este movimento está causando tensões entre algumas nações.

Mudanças climáticas estão forçando migrações de várias espécies de peixe e provocando tensão entre países (Foto: Reprodução/ NSC TV)Mudanças climáticas estão forçando migrações de várias espécies de peixe e provocando tensão entre países (Foto: Reprodução/ NSC TV)
Mudanças climáticas estão forçando migrações de várias espécies de peixe e provocando tensão entre países (Foto: Reprodução/ NSC TV)

“O conflito leva à sobrepesca, que reduz a alimentação, o lucro e o emprego que a pesca pode proporcionar, e também pode fraturar as relações internacionais em outras áreas além da pesca”, diz o texto da reportagem que publicou a pesquisa.

O que acontece é o seguinte: existem regras federais para pesca, e tais regras precisam ser obedecidas. Ou seja, uma espécie de peixe que está em um território só pode ser pescado ali, até porque o país que o tem como propriedade vai ganhar dinheiro ao exportá-lo. Como, impulsionado pelas mudanças do clima, os peixes estão correndo para buscar águas mais frias, isso está criando uma baita confusão. Já é conhecida, por exemplo, a “guerra pela cavala” que vem sendo travada entre Islândia e União Europeia.

As cavalas eram “propriedade” da União Europeia. A partir de 2007, porém, elas começaram a se mover para águas mais frias, perto da Islândia, que não é membro da UE . E os pescadores islandeses começaram a se sentir com sorte por conta da súbita abundância de cavalas em seu território. Só que a União Europeia segue limites de pescaria para tentar manter as espécies, e os islandeses não obedeceram. A disputa ainda está em andamento, e não dá sinais de que seja resolvida tão cedo.

A mesma coisa acontece com pescadores de lagosta dos Estados Unidos e do Canadá, que também entraram em conflito sobre a pescaria de lagosta, já que o crustáceo está indo do norte da Nova Inglaterra para as províncias marítimas canadenses. E haja briga.

O estudo sugere uma solução. Os órgãos que supervisionam as pescarias na União Europeia poderiam negociar com organizações de pesca vizinhas para começar a levar em conta o novo fenômeno migratório provocado pelas mudanças climáticas. Os autores lembram que os governos podem permitir o comércio de licenças de pesca. Ou cotas através das fronteiras internacionais.

“Precisamos de acordos internacionais para o monitoramento colaborativo, da mesma forma que o acordo de conservação da Antártida”, disse Malin Pinsky, professor assistente de ecologia, evolução e recursos naturais na Escola de Meio Ambiente de Rutgers-New Brunswick.

É o que torcemos que aconteça, claro, para evitar ainda mais conflitos. Não estamos precisando deles.

O resultado deste estudo, que como disse no início do texto, me pega num dia em que estou com um nível baixíssimo de crença na humanidade, me fez recorrer aos arquivos do tempo em que eu editava o “Razão Social”, caderno sobre sustentabilidade do jornal “O Globo”. Fui buscar, especificamente, uma entrevista que fiz com Sylvia Earle, bióloga marinha de 83 anos que já passou mais de 6 mil horas debaixo dágua fazendo pesquisas marinhas.

Earle era uma das palestrantes do Forum Mundial de Sustentabilidade que aconteceu em Manaus em março de 2012, do qual participei. Na exposição que fez, ela deixou a plateia emocionada ao fazer um alerta:

“Estamos muito próximos de chegar a um limite de onde não poderemos retornar. A nossa vantagem, hoje, é que temos conhecimento. Isto quer dizer que já sabemos a causa dos problemas e está em nossas mãos acharmos a solução para eles. Falta aos governos incorporarem este conhecimento em suas políticas”.

Mais lucidez, impossível. Earle falou muito sobre peixes. E disse que um dos problemas é termos transformado a vida marinha em comodittie.

“Os peixes não têm valor quando estão nos mares, só depois de mortos. É mais ou menos como se déssemos valor às árvores somente depois de arrancá-las do solo”.

O alerta de Earle, e agora a batalha das cavalas e lagostas remeteram-me a um artigo publicado também no “Razão Social”, um ano antes, assinado por Andrea Sales Soares de Azevedo Melo, então pesquisadora sobre o mercado de pesca da lagosta na Universidade Federal de Pernambuco. Andrea lembra, no artigo, a Tragédia dos Comuns, uma parábola que ilustra o motivo pelo qual certos bens naturais são usados por alguns até se esgotarem, mesmo contrariando as necessidades de toda a comunidade.

A pesquisadora, no texto publicado há sete anos, antevê o problema que o estudo atual está trazendo. Referindo-se à exaustão do crustáceo devido à pesca predatória da lagosta no Brasil, Andréa Sales anunciava que a questão poderia ser resolvida com regulação do estado. Uma das alternativas seria a imposição de cotas, ou seja, quando cada pescador poderia pescar a cota que lhe foi designada ou vender o seu quinhão para outro pescador. Mais ou menos o que Pinsky sugere.

Apesar de não ter se passado nem uma década em que abri espaço para o artigo tão gabaritado da pesquisadora no “Razão Social”, ou da entrevista tão emocionante da bióloga, parece mesmo que se passaram várias décadas. Eram tempos diferentes, quando o problema estava prestes a eclodir e eu, por uma baita sorte, tinha acesso às pessoas que pensavam soluções otimistas para ele. Tempos, talvez, mais ingênuos, quem sabe.

Fonte: Amelia Gonzalez, G1

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