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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A mulher que mudou nossa visão sobre a morte

"Nada neste mundo é certo, exceto a morte e os impostos", disse uma vez o político americano Benjamin Franklin (1706-1790).

Se alguns cientistas e empresários estiverem certos, a afirmação de Franklin é apenas uma meia verdade. Pela quantia de R$ 650 mil, você pode pagar para ter o próprio corpo saturado de anticongelante e colocado em um freezer gigante em Scottsdale, nos EUA. (Para conseguir um desconto de R$ 400 mil, você pode preservar apenas o cérebro).


Até hoje, cerca de mil pessoas contrataram o serviço na esperança de um dia serem descongelados para uma segunda vida.

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Sempre que ouço falar dessas coisas, lembro de Jessica Mitford, que morreu há 20 anos. Militante comunista, jornalista investigativa, ativista de direitos civis e cantora pop, ela chegou a abrir um show de Cyndi Lauper e a gravar um dueto com a escritora Maya Angelou. A autora da série Harry Potter, J.K Rowling, gosta tanto de Mitford que batizou a primeira filha com o nome dela.

Mas Mitford deve ser lembrada hoje pelo seu livro The American Way of Death (O Jeito Americano de Morrer, em tradução livre), de 1963. Uma análise nada sentimental (e às vezes grotesca) das formas extravagantes e bizarras de lidar com a mortalidade, sua mensagem é hoje mais pertinente do que nunca.

'Conta bancária da fuga'

Decca, como era conhecida por amigos e parentes, nasceu em 1917, filha de Lord e Lady Redesdale. Sexta filha de sete crianças, revelou cedo sua insatisfação com a vida aristocrática: aos 12 anos, planejava fugir de casa, plano que se tornou mais sério quando seus pais e duas irmãs mais velhas, Diana e Unity, começaram a flertar com o fascismo.

Unity eventualmente mudou-se para a Alemanha e fez amizade (alguns dizem que foi romance) com Adolf Hitler, e Diana se casou com o líder da União Britânica de Fascistas, Oswald Mosley - com Hitler na plateia.

Enojada pela ideologia da família, Decca se tornou a ovelha "vermelha" da família, usando seus anéis de diamante para esculpir martelos e foices no vidro da janela do quarto.

Seus princípios amadureceram aos 19 anos, quando conheceu o sobrinho socialista de Winston Churchill, Esmond Romilly, em uma festa. Os dois fugiram para se juntar aos republicanos na Guerra Civil Espanhola. Abatidos e desanimados após a vitória de Franco, eles voltaram para a Inglaterra e depois emigraram aos Estados Unidos.

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A vida dela foi desde cedo marcada pela tragédia: primeiro perdeu uma filha para o sarampo e, em seguida, Esmond morreu em combate na Segunda Guerra Mundial.

Mas ela se casou novamente e começou uma nova vida, entrando para o Partido Comunista em São Francisco (EUA) e fazendo campanha pelos direitos civis dos negros americanos.

Indústria da morte

Já na meia idade, começou a fazer jornalismo investigativo, especializando-se em expor injustiças sociais - incluindo uma reportagem sobre os cada vez mais extravagantes serviços funerários, muitas vezes impostos a famílias que mal conseguiam arcar com as despesas.

Combinando consciência social com humor negro, o texto chamou a atenção e logo virou livro. Era uma leitura reveladora. Mesmo quem havia passado recentemente por luto entendia muito pouco sobre o que ocorria dentro dos limites legais das funerárias.

"Milhares de livros foram escritos descrevendo, catalogando, teorizando sobre os procedimentos funerários de povos antigos e modernos, dos astecas aos zulus, mas quase nada foi escrito sobre as práticas funerárias contemporâneas nos EUA", notava Mitford na publicação.

Os relatos de Mitford eram tão hediondos que sua primeira editora decidiu rescindir seu contrato. Ela tinha dedicado atenção especial ao processo de embalsamamento - descrevendo em detalhes como cada corpo era "pulverizado, cortado, perfurado, conservado, aparado, besuntado, encerado, pintado e ordenadamente vestido - passando de um cadáver comum a uma bela foto de álbum".

Era claramente uma medida sanitária, para impedir a deterioração e apresentar aos enlutados um último e pungente lampejo de seu ente querido. Na prática, significava uma verdadeira cirurgia estética "post-mortem".

O embalsamador drenava o sangue das veias - quanto mais cedo melhor, para evitar dano celular - antes de preencher as artérias com fluido de embalsamamento. Esse fluido tinha diferentes matizes, dando ao agente funerário todo um leque de cores, de um bronzeado marrom a um brilho rosado saudável.

Em seguida, o coveiro beliscava e dobrava o tecido em todo o corpo com implantes, pinos e enchimentos para esconder manchas e inchaços, antes de costurar o rosto com a mais atraente (e jovem) expressão possível.

Por fim, os dentes eram clareados, maquiagem era aplicada e o cadáver recebia sua roupa final. Mitford ficou surpresa ao encontrar uma enorme variedade de roupas comercializadas especificamente para defuntos; sua favorita era uma marca especial de sutiã projetada para "restauração post-mortem das formas".

Ela dizia que parentes em luto eram estimulados a bancar caixões caríssimos, arranjos espalhafatosos de flores e recordações de gosto duvidoso (como cinzeiros em forma de coração), sempre com a mensagem subjacente de que seria desrespeitoso não comprar o melhor item disponível.

Crítica e questionamento

Mitford questionava a dignidade e a utilidade desses procedimentos invasivos. Dizia-se chocada porque agentes funerários desencorajavam autópsias médicas que tornariam mais difícil a tarefa de embelezar o corpo.

Também contestava a prática dos agentes funerários de revestir o serviço com uma "pseudopsicologia", argumentando que um funeral luxuoso, com um cadáver polido e arrumado, era essencial para o processo de luto - apesar de haver poucas evidências nesse sentido.

Para famílias vulneráveis seria muito melhor buscar ajuda de psicanalistas qualificados, pensava Mitford, do que comprar um caixão de luxo forrado de cetim e rosas e mais rosas para coroas


Mais do que tudo, ela criticava o fato de a morte estar sendo embelezada e higienizada, mascarando fatos duros sobre nossa mortalidade. Mitford decidiu que era hora de o público encarar a morte de frente.

Os Estados Unidos concordaram. Mitford esperava vender apenas algumas centenas de cópias de seu livro, mas a primeira impressão - de 20 mil exemplares - esgotou no primeiro dia.

O livro encabeçou a lista de mais vendidos do The New York Times e ali ficou durante a maior parte do ano. Em 1965, o cineasta Tony Richardson o usou como inspiração para o filme The Loved One, anunciado como "um filme com algo para ofender a todos". David Bowie listou a obra como um de seus livros "top 100".

A popularidade da obra, de fato, parecia começar a deixar uma marca na maneira como as pessoas tratavam os mortos, com mais opções por cremações e funerais simples, ou "serviços Mitford".

Ela ficou encantada quando um dono de funerária batizou um caixão simples com o nome dela. Em suas cartas, ela observou que Robert Kennedy lhe dissera uma vez que o livro inspirara os arranjos para o funeral de seu irmão, o presidente John F. Kennedy.

Ritos de passagem

Hoje, a ciência oferece mais formas do que nunca para marcar a morte, e podemos ter certeza de que Mitford teria aprovado algumas mais do que outras.

O Projeto de Morte Urbana em Seattle, por exemplo, transforma cadáveres em adubo - uma forma mais verde do "retorno do pó ao pó" do que uma cremação tradicional.

A criogenia, por outro lado, pode parecer a apoteose de tudo que ela criticava, apesar de não podermos levar essa comparação ao extremo. Como a revista New Scientist apontou recentemente, pesquisas médicas valiosas podem surgir dessas iniciativas.

Pelo menos, falar sobre a morte pode estar perdendo um pouco de seu estigma. Um exemplo são os "Cafés da Morte", que incentivam a discussão franca do assunto. Criado pelo sociólogo suíço Bernard Crettaz em 2004, o "Café Morte" oferece um local para falar sobre mortalidade, em meio a chás e bolos.

Seguidores do movimento argumentam que é preciso se envolver mais nas decisões práticas que marcam nossa saída final deste mundo, as maneiras como gostaríamos de ser lembrados e como vivenciamos a morte alheia.

Mitford certamente enfrentou a própria morte com o mesmo humor franco com que tinha encarado a vida.

No início de 1996, ela tinha começado a revisar e atualizar sua principal obra ("a morte requentada", como havia apelidado a nova edição) quando foi diagnosticada com câncer terminal, com poucos meses de vida pela frente.

Ela permaneceu otimista e estava agradecida por ter tempo suficiente para terminar seu livro e amarrar algumas pontas soltas de sua vida. Ela morreu em 22 de julho, aos 78 anos.

A escritora uma vez brincou que, apesar de defender uma atitude mais simples e digna diante da morte, ela queria um funeral com "ruas fechadas, autoridades declamando sobre o carrinho do caixão - esse tipo de coisa".

Seus amigos concordaram e arranjaram seis cavalos negros para puxar um carrinho antigo pelo centro de São Francisco, seguido por uma banda de metais com 12 integrantes.

Se Mitford pudesse ter visto o espetáculo, ela certamente teria enrolado os lábios num sorriso travesso.

Após dedicar tantos anos de sua vida à indústria funerária, seu único arrependimento tinha sido o fato de que nunca poderia assistir ao próprio, e uma vez escreveu: "Meu Deus, quem me dera poder estar lá."

Fonte: BBC

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