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sexta-feira, 3 de março de 2017

Estudo revela que povos pré-colombianos moldaram a flora da floresta amazônica

Povos pré-colombianos domesticaram ao menos 85 espécies de árvores que até hoje estão concentradas em florestas próximas a antigos assentamentos


Por Luciete Pedrosa*
Fotos: Acervo da Pesquisadora

Estudo inédito liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) mostra que há uma relação entre a ocupação humana passada na Amazônia e a presença de plantas domesticadas na floresta. Isso indica que essas florestas podem ser em parte um patrimônio vivo dos povos pré-colombianos. O resultado da pesquisa publicada (3 de março de 2017) na revista Science põe abaixo a ideia de que as florestas amazônicas estavam intocadas pelo homem.

O estudo contou com a participação de um grupo internacional e interdisciplinar de 152 cientistas, incluindo 53 brasileiros, dentre eles 30 colaboradores do Inpa e 01 do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá. Tem como autora principal Carolina Levis, doutoranda pelo Inpa, no Amazonas-Brasil, e pela Wageningen University and Research Center, da Holanda.

“O que fizemos foi cruzar os dados botânicos de parcelas de inventários florestais com dados arqueológicos”, diz Levis. “Por alto, são pelo menos 80 anos de pesquisas com centenas de pessoas trabalhando para conseguir coletar essas informações. Foi a primeira vez na escala da Amazônia que juntamos esses dados”, acrescenta.

A equipe de cientistas chegou à descoberta ao sobrepor dados de mais de mil inventários florestais da Rede de Diversidade das Árvores da Amazônia (ATDN) com o mapa da localização de mais de três mil sítios arqueológicos espalhados por toda a bacia amazônica. Ao comparar a composição de espécies em florestas situadas a diferentes distâncias de sítios aqrqueológicos, as análises geraram a primeira imagem do grau de influência dos povos pré-colombianos na biodiversidade amazônica atual.

Os primeiros estudos tiveram início em 2010, nas regiões dos rios Purus e Madeira, durante o mestrado de Levis, orientada pelos pesquisadores do Inpa, Flavia Costa e Charles Clement, que começaram a trabalhar para entender o efeito humano passado na floresta Amazônica.

Espécies

A pesquisa atual focou em 85 espécies de árvores, que foram domesticadas em algum grau pelos povos pré-colombianos, dentre elas cacau, castanha-do-Brasil, açaí, bacaba, patauá, mapati, seringueira, pupunha e muitas outras espécies que são fonte de alimentação, abrigo ou outros usos.

Os pesquisadores descobriram que em toda a bacia amazônica essas espécies eram cinco vezes mais comuns em inventários florestais do que as espécies não domesticadas. As maiores abundância e diversidade de espécies domesticadas foram encontradas em florestas próximas de sítios arqueológicos.

Levis explica que o sudoeste da Amazônia (Bolívia e Rondônia/Brasil) foi altamente transformado e habitado e é onde há uma densa concentração de plantas domesticadas. “Já no Escudo das Guianas não encontramos essa mesma relação dos sítios arqueológicos com as plantas e não sabemos o motivo”, destaca. “Mas mesmo assim com alguns vazios de amostragem, conseguimos relacionar dados florísticos e arqueológicos”, acrescenta.

Para o estudo, foram utilizadas informações do banco de dados liderado pelo pesquisador Eduardo Kazuo Tamanaha, do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá. De acordo com o arqueólogo, que é coautor na publicação, os resultados ilustram a força da interdisciplinaridade e importância de correlação de dados científicos para o conhecimento da região Amazônica.

“Pensando a longo prazo, a grande contribuição do trabalho é estreitar os laços entre as duas áreas, botânica e arqueologia. Demonstra a importância de cruzar e discutir estes dados, de diferentes pesquisadores, e de começar a propor hipóteses juntos”, comenta o arqueólogo.

Ocupação da Amazônia

Para a pesquisadora do Inpa e uma das coautoras do artigo, Flavia Costa, não é totalmente novo dizer que a Amazônia há muito tempo já era habitada. Segunda ela, ao olhar para outros estudos se vê que as pessoas usaram e modificaram a Amazônia somente perto dos grandes rios onde era bom para a pesca e pela facilidade de transporte, já nas áreas entre os rios (os chamados interflúvios) eram considerados vazios demográficos.

“Mas o trabalho da Carolina mostra que nesses interflúvios também tinha gente usando e modificando a floresta. De verdade, o impacto da ocupação humana é muito mais espalhado do que se pensava”, diz Costa, acrescentando que o sudoeste e leste da Amazônia são as regiões onde concentram a maior abundância e diversidade de espécies domesticadas e, ao mesmo tempo, é onde a maior parte da degradação e desmatamento ocorre.

A pesquisadora afirma que uma das implicações do trabalho é que essas regiões que estão sendo destruídas são também os reservatórios de plantas úteis para os seres humanos e lamenta não existir nenhum um tipo de política para conservação dessas áreas.

Origem da domesticação

Os cientistas também analisaram a origem da domesticação daquelas espécies e os locais onde as espécies se concentram, hoje, na floresta. A pesquisa se baseou nos estudos do Dr. Charles Clement, pesquisador do Inpa e também um dos coautores do trabalho. “Vimos que algumas vezes o local de origem da domesticação não se encontrava com o local onde tem mais concentração da espécie na floresta, o que poderia indicar uma dispersão humana”, diz Levis.

Segundo Clement, na região do sudoeste da Amazônia, a pupunha, por exemplo, se originou como planta domesticada e depois foi dispersa para outras partes da Amazônia. “No oeste da Amazônia, o fruto é graúdo e seco e os índios não usam para comer, mas, sim, para fazer cerveja de pupunha”, revela.

“O trabalho de Carolina mostra que algumas espécies poderiam ter sido originadas lá no sudoeste, porque ocorre em maior abundância do que em outros lugares”, explica o pesquisador. “Essa ‘brincadeira’ (estudo) tem diferentes facetas. O estudo de Carolina usou a classificação das plantas domesticadas para orientar a seleção de espécies que permitem as análises”, completa.

Para o pesquisador da Naturalis Biodiversity Center e coordenador da ATDN, Hans ter Steege, a descoberta promete esquentar um debate de longa data entre cientistas sobre o grau de influência da história humana milenar da bacia amazônica na biodiversidade atual. “E desafia a visão que muitos de nós, ecólogos, tínhamos e ainda temos dessa imensa floresta”, diz, ao comentar que a imensidão verde das florestas amazônicas camufla evidências das ocupações passadas e dá a falsa impressão de uma paisagem intocada. Com as crescentes pesquisas arqueológicas, particularmente, nas últimas décadas, centenas de novos sítios estão sendo descobertos em áreas aparentemente intocadas.

Fonte: EcoDebate

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