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quinta-feira, 24 de julho de 2014

A dança da vitória, artigo de Montserrat Martins

Uma imagem que merece ficar gravada na história, pelo seu simbolismo: a seleção campeã coloca a Copa do Mundo no gramado do Maracanã e com os jogadores em círculo faz uma dança pataxó ao redor da taça. Ninguém imaginava essa cena final na Copa de 2014 no Brasil, ao mesmo tempo em que nenhuma outra comemoração seria tão representativa das nossas origens.


Se alguém previsse que a dança da vitória seria pataxó, o que você pensaria? A Seleção brasileira nunca manifestou interesse pela cultura indígena, nossa identidade nacional se resume ao pagode, derivação do samba, onde podemos encontrar origens afrodescendentes, também uma das raízes mais importantes da nação brasileira. O que ninguém acompanhava até então era o interesse e respeito dos alemães por nossas origens.

A cumplicidade que a seleção alemã manteve com a população local, nessa Copa, não tem precedentes conhecidos. Ao invés de gastar em hospedagem, construíram suas próprias instalações na Bahia. Mas muito mais que isso, criaram vínculos com a comunidade da região, que incluíram desde a construção de escola para as crianças até as visitas aos índios.

Com uma preparação física cientificamente perfeita, tanto quanto o entrosamento do grupo e a disciplina tática, tudo que o futebol moderno exige, é de se perguntar porque a Alemanha investiu tanto nos vínculos com a comunidade e a cultura locais. Merece uma tese de psicologia do esporte o papel que essa ambientação trouxe nos resultados de campo.

O grande paradoxo da “dança da vitória” pataxó é o contraste com a negligência do nosso próprio país com a cultura indígena. Valorizados pelos estrangeiros, os índios são negados, negligenciados e até rejeitados por parcelas significativas de nossa população. Isso não ocorre por acaso, é influenciado por um tipo de ruralismo predatório que cobiça as terras indígenas principalmente na região amazônica, onde suas reservas são também garantias de preservação das nossas florestas, essenciais por sua vez à própria preservação do clima.

Sem que apareça muito na mídia, o Congresso quer mudar a Constituição (com a PEC 215) e ter o poder de demarcação das terras indígenas, ao invés do governo. Com a bancada ruralista bem articulada, essa mudança é uma porta aberta à devastação não só das reservas, como do nosso patrimônio ambiental. Essa ameaça não é apenas para medidas futuras, nem é pequena, pois segundo a PEC 215 o Congresso tem de ratificar as demarcações já aprovadas – quer dizer, deixa sem garantias até mesmo as demarcações já consolidadas.

Bom seria que a dança da vitória da Copa pudesse aumentar nosso interesse pelo papel dos indígenas para o país, ainda hoje. Ah sim, depois que chegaram em sua terra os alemães praticaram uma outra dança, menos feliz, debochando dos argentinos, pelo que tiveram de se desculpar no dia seguinte. Ninguém é perfeito, o que não tira o mérito do grande gesto com que eles nos presentearam, coroando a Copa do Mundo no Brasil de um modo simbólico que é um legado a ser valorizado, para o nosso próprio bem.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate

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