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sábado, 31 de dezembro de 2016

Sem otimismo na área dos cuidados com o meio ambiente e o social

Eu devia estar aqui vociferando (em texto) contra Donald Trump, o novo presidente da nação mais poderosa e rica do planeta. Como todos já sabem, ele não acredita em aquecimento global, acha que tudo isso é invenção de um grupo de cientistas comandados pela China para estancar o crescimento do mundo e sobrar espaço apenas para eles dominarem. Minha indignação se justificaria na hora de fazer, como é o caso, uma espécie de retrospectiva sobre o que aconteceu de importante em 2016 na área da sustentabilidade, que inclui os cuidados com o meio ambiente.


Sim, eu devia. Mas, de verdade, ando me questionando muito sobre essa importância tão feroz que está sendo atribuída à opinião de um único homem. Na reunião de Cúpula que aconteceu mês passado na cidade de Marrakesh, quando a notícia da eleição de Trump se tornou viral, muitos começaram a fazer as malas. Porque se o homem da nação mais poderosa já andava a publicar notícias sobre uma possível retirada dos Estados Unidos do tal Acordo histórico conseguido em Paris e, finalmente, assinado e ratificado na África quase um ano depois, não tinham mais o que fazer na Conferência.

Que seja verdade. Trump carrega consigo investidores, outros países que andamcomo satélites. Mas, poderá mesmo pôr a perder intenções de se reduzir produção e consumo para brecar o aquecimento global? Se houver comprometimento real das nações em ajudar os mais pobres a lidarem com as trágicas interferências climáticas em suas vidas, provocadas por causa do excesso de consumo e de poluição, será mesmo que um único homem teria a força de acabar com tais boas intenções?

Na dúvida, prefiro focar em outras das muitas crises que a humanidade teve que enfrentar no ano que está para se acabar, e que também tem a ver com as mudanças climáticas.  Uma notícia publicada ainda em agosto pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) dava conta de que, até então, mais de 4 mil pessoas que saíram de suas terras em busca de um canto melhor para viver haviam morrido nas águas do Mediterrâneo.  E o relatório anunal “Tendências Globais”, que registra o deslocamento forçado pelo mundo, apontou um total de 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos até o final de 2015 – um aumento de quase 10% se comparado com o total de 59,5 milhões registrado em 2014.

Muitos se deslocaram para fugir de conflitos armados. Outros tantos buscaram territórios mais seguros em função do clima.  Em 2014, calcula-se que houve 19,3 milhões de refugiados climáticos no mundo segundo o último relatório do Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (IDMC). Entre 2008 e 2015 registraram-se em média 26,4 milhões de deslocados por ano, o que representa quase uma pessoa por segundo.

Não custa lembrar o discurso que Baron Divavesi Waqa, presidente de Nauru, uma pequena nação do Pacífico, com cerca de dez mil habitantes, fez em setembro durante a Assembleia Geral da ONU. O país já tem parte de suas terras agricultáveis salgadas porque o oceano está avançando, e foi um dos primeiros a ratificar o Acordo de Paris.

Waqapediu ajuda aos líderes ali reunidos. Lembrou que Fiji, nação próxima, já está comprando terras em Nova Zelândia para abrigar os que vivem em risco. Mas ganhou da Austrália um centro de refugiados dos mais sórdidos e cruéis.

São mais de 900 pessoas que haviam desembarcado no país rico em busca de um lugar melhor para viver e foram transferidos para a pequena ilha, onde se juntaram à miséria que já existe por lá. Austrália desembolsa US$ 1,2 bilhão por ano para fazer tais centros, já classificados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, como um conjunto de ações perversas que denotam uma crise humanitária sem precedentes no mundo.

Essa mesma humanidade – se não levarmos em conta a singularidade – com sua industrialização, tem conseguido outros feitos também pouco dignos de orgulho. Tanto assim que, em 8 de janeiro desse ano, a revista “Science” publicou um estudo mostrando indícios cada vez mais claros de que  o planeta entrou numa nova era geológica, o antropoceno (derivado de atividades humanas) por volta de meados do século passado.

Ou seja: é tudo verdade. Diminuímos o número de árvores, de terras agricultáveis, e ainda contribuímos para a transferência generalizada de animais, plantas e cultura entre os hemisférios do planeta. E isso foi um dos motivos para os cientistas anunciarem a mudança de era. O Holoceno, ainda considerado até então, começara há 12 mil anos e se caracterizou, justamente, pelas inovações tecnológicas conseguidas pelo homem.

A mudança de era ainda não é reconhecida pela maioria dos cientistas, mas é uma notícia importante e leva à reflexão sobre as causas disso. Cá comigo penso que se estamos destruindo o verde é porque muito cinza está sendo erguido. E com isso chega-se a outra notícia pinçada em julho no site da ONU: um relatório publicado pela organização mostrou que hoje 54% da população mundial vivem em áreas urbanas, e que até 2050 essa porcentagem vai aumentar para 66%. As projeções mostram que a urbanização associada ao crescimento da população mundial poderá trazer mais 2,5 mil milhões de pessoas para as populações urbanizadas em 2050 e que  quase 90% desse crescimento estão centrados na Ásia e naÁfrica.

Isso não seria exatamente um problema para alguns urbanistas que acreditam que as cidades são modelos que convidam os homens a serem mais criativos. Mas não tem sido essa a resposta para muitas sequelas de metrópoles, como o Rio de Janeiro, haja visto as manifestações que aconteceram neste ano contra a falta de mobilidade urbana, por exemplo.

Foi um ano de alguns bons estudos que mostraram também outras facetas pouco positivas para quem quer apostar numa nova ordem mundial.   A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) lançou um dossiê em janeiro, intitulado "Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde" (Ed. Expressão Popular), com o auxílio da Fundação Oswaldo Cruz.

Escrito a várias mãos, o livro tem 623 páginas e revela resultados de pesquisas científicas sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde humana que faz arrepiar os cabelos.  Bem documentado, o relatório conta que em 2010 houve um aumento de 190% no mercado de agrotóxicos no Brasil; que as maiores empresas que controlam esse mercado são multinacionais instaladas aqui; que o registro de um agrotóxico é ad eternum, ou seja, não existe procedimento de atualização como acontece com os medicamentos; que o custo pago para um registro no Brasil  é de R$ 1,8 mil enquanto nos Estados Unidos, segundo maior mercado depois do nosso, é de 600 mil dólares.

Desconstruindo a tese dos que consideram importante os agrotóxicos para alimentar os 7 bilhões de habitantes do planeta, um triste relatório da FAO (Food and Agricultural Organization), organização da ONU que estuda a questão, foi divulgado em junho dando conta de que mais de 42 milhões de pessoas enfrentam o risco de fome nos 27 países da África Oriental e Austral por causa da grave seca que está se alastrando pela região, consequência do fenômeno El Niño. O país mais afetado é a Etiópia, que enfrenta a pior seca em 50 anos, segundo informações do Programa Mundial de Alimentação (PMA) para a região. Ou seja, mesmo com uma produção e consumo absurdos de agrotóxicos, em pleno século XXI ainda temos famintos entre nós.

Minha retrospectiva não está otimista. Reflete, sim, um estado de ânimo que anda perseguindo a todos os brasileiros por conta da situação política e econômica em que nos encontramos. O que me anima um pouco é saber que as crises não existem à toa. Se formos espertos, vamos aprendendo com elas.

Fonte: G1

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