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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Meio antrópico e tecnógeno, artigo de Roberto Naime

O ser humano faz parte do reino animal, e poderia ser incluído no meio biológico. Mas devido à sua enorme capacidade de produzir modificações relevantes no meio natural, merece do domínio específico, chamado de meio socioeconômico ou antrópico.


A revolução neolítica há cerca de 10.000 anos transformava a espécie humana de coletora em produtora de alimentos. O ser humano deixava de garantir sua subsistência apenas pela caça e pela coleta de alimentos silvestres, como fazem os outros animais.

A espécie humana passa então a interagir com os meios físico e biológico, a partir da adoção e do desenvolvimento da agricultura e da criação. E mais tarde esta interação se revoluciona com o desenvolvimento da metalurgia do cobre, do bronze e do ferro.

A ocupação agrícola das bacias hidrográficas dos Rios Tigre e Eufrates, na antiga Babilônia, pela civilização suméria, representa um marco antropológico distintivo desta nova etapa da história da humanidade, diferenciada pela sua disposição e capacidade de alterar as regras naturais do meio ambiente.

Ao final do século XVIII, a Revolução Industrial traz, como seu conteúdo mais espetacular, uma energia desenvolvimentista nunca vista antes, estabelecendo definitivamente as bases de uma relação utilitarista com a natureza, que perdura até hoje e cujos efeitos na área energética, por exemplo, são espetaculares e discutidos em capítulo próprio.

A dimensão geológica, que se diferencia das demais ocorrências pelo fator tempo, afinal o planeta Terra tem 4,5 bilhões de anos e qualquer processo geológico leva milhares ou milhões de anos para produzir seus efeitos notáveis.

Pois a ação humana consegue se igualar aos efeitos dos processos geológicos na magnitude e importância das modificações e de seus efeitos, mesmo em períodos de tempo muito mais curtos e reduz com isto, a capacidade de autorregeneração dos sistemas.

Vários cientistas, como o famoso geólogo russo Ter Stepamian (1970), propõem que o período de tempo denominado Holoceno, do Quaternário superior, e que corresponde ao tempo medido desde a última glaciação, há cerca de 15.000 anos, seja considerado como a transição para um proposto período Quinário ou Tecnógeno, tendo como característica diferenciadora a presença cada mais marcante e predominante da ação do homem (“processos tectogênicos”), sobre os demais processos naturais e inclusive geológicos.

Esta modificação é ressaltada inclusive pelo fato de que não existem mais áreas genuinamente Quaternárias intocadas pelo homem.

As modificações extensas produzidas pelo homem decorrem dos empreendimentos que modificam a natureza, desde os períodos nômades, quando os bandos viviam de caça, pesca e extrativismo, até as complexas sociedades urbanas, organizadas em metrópoles ou megalópoles altamente informatizadas, da forma que conhecemos hoje.

Por isso, a sociedade humana merece uma abordagem específica, pela complexidade que apresenta, pelas características que tem, pela profundidade das transformações que gera.

Muitos autores como Ter Stepaniam 1970 e outros enfatizam que devido ao fato de que nos períodos atuais a capacidade de modificação dos meios pelo homem é imensa e desmedida, denominam o período atual que vivemos como Tecnógeno, cuja principal característica e não mais permitir que a natureza seja capaz de se recuperar por si própria, mesmo em longos períodos de tempo.

Outro fato é o diagnóstico de que hoje não existem mais áreas sem interferência humana, de uma forma ou de outra, ainda que sejam áreas de preservação natural. Esta propriedade também caracteriza o Tecnógeno.

TER STEPAMIAN, G. Beginning of the Technogene. Bulletin IAG, nº 1, ago. 1970.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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