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terça-feira, 27 de junho de 2017

Moradores da região com mais água doce do planeta encontram solução coletiva para ter abastecimento em casas e escolas

Eles colocam a mão na massa para fazer a captação e distribuição de água encanada para 2500 famílias através de microssistemas de gestão comunitária 


Já são 140km de encanamento hidráulico subterrâneo cavado em mutirões pelos moradores da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, levando água potável para casas, escolas e centros comunitários. Sem poder mais esperar que o Estado resolva o déficit de acesso à água em comunidades rurais da Amazônia, os moradores da Resex estão, de forma participativa, empenhados na busca de soluções coletivas de abastecimento que são de baixo custo, atendam com eficiência a demanda local e possam ser facilmente replicadas nos vilarejos da região.

Ao longo dos últimos 20 anos, com apoio técnico do Projeto Saúde e Alegria (PSA), metade das vilas dessa reserva nacional mapearam as casas de quase 2500 famílias. Como as comunidades são em áreas de difícil acesso e distantes umas das outras, no lugar de partirem para um sistema centralizado de abastecimento, a visão foi descentralizar para tornar a gestão e sustenção comunitária possível. Já são 38 microssistemas independentes e com autogestão, feitos com a participação e controle dos moradores, com total transparência na administração de recursos e na prestação do serviço.

Em 38 das 74 comunidades, grupos perfuraram poços e construíram o elevado para sustentar a grande caixa d’água. Enquanto os poços eram feitos com ajuda técnica, outros moradores, também acompanhados por especialistas, cavaram redes de distribuição para levar água tratada de porta em porta, além das escolas e postos de saúde. Ao fim da etapa, todos conheciam em detalhes o funcionamento da rede local. Durante esse processo de construção e aprendizado coletivo, criaram regulamentos de uso próprios, elegeram comitês gestores e definiram metas de qualidade do serviço.

A partir de planejamento e planilhas transparentes discutidas em reuniões, usuários pagam em média 10 reais mensais pela água. No custo está o salário dos comunitários responsáveis pela bomba, pela manutenção da rede, pela administração, pelo motorista e pela compra dos materiais necessários para a operação do sistema. Sabem exatamente para onde vai o dinheiro e conseguem até guardar uma reserva para imprevistos. É o caso da aldeia de Solimões, que no ano passado foi a primeira a construir um sistema de bombeamento com uma tecnologia flexível, conseguido nos meses de verão usar exclusivamente energia solar, dispensando a compra de combustível.

No primeiro semestre de 2017, é a vez de três outras comunidades terem seus microssistemas: Cabeceira do Amorim, Pajurá e Anumã. Com patrocínio da Fundación Avina e Xyleen, o programa oferece os materiais para a construção e cada comunidade entra com a realização, a operação, a manutenção e a gestão coletiva.

O engajamento e participação dos moradores reduz drasticamente o custo da obra. Além disso, o controle social e a transparência da gestão fazem com que as coisas sejam feitas como planejadas, sem os “custos adicionais” tão frequentes em obras infraestruturais pelo país. Para se ter ideia do que isso significa na prática, com aproxidamente R$ 330 mil de materiais, será possível construir outros dois microssistemas com 17 mil metros de encanamento hidráulico na reserva e distribuir água para cerca de 200 famílias, mudando a vida de 900 pessoas.

Porque o primeiro passo para proteger uma floresta é garantir direitos básicos de seus guardiões

Sem serviços públicos de saneamento básico, a maior parte da população tradicional e ribeirinha da floresta ainda hoje não tem água na torneira para lavar as mãos, beber ou cozinhar, não tem água no banheiro para dar descarga, nem chuveiro para tomar banho. Crianças bebem água do rio, famílias cozinham com água trazida em baldes. Só que hoje os rios da Amazônia estão poluídos não só com esgoto doméstico, mas principalmente com resíduos da indústria mineral e da agropecuária em acelerada expansão na região.

A taxa de mortalidade infantil causada por doenças de veiculação hídrica como viroses e diarreias agudas ainda é um desafio da saúde pública em toda região Norte. Se em 2017, crianças ainda sofrem com doenças primárias que poderiam ser facilmente evitadas com acesso à água potável, nos anos 80, a situação era muito pior. Foi nesse contexto que o Projeto Saúde e Alegria começou a atuar com água e saneamento nas comunidades do Tapajós.

Inicialmente, como medida emergencial, foram realizadas campanhas educativas com a equipe de saúde e do Circo Mocorongo para apresentar métodos caseiros de tratamento de água. Naquele momento, além de incentivar a população a ferver a água antes de usar, o programa disseminou o tratamento com cloro como forma rápida para diminuir a contaminação das pessoas.

Nos anos 90, começaram a apoiar a construção dos primeiros microssistemas de abastecimento com gestão comunitária, em parcerias com universidades públicas e com apoio financeiro de patrocinadores, que garantem materiais como bomba, painéis solares, canos e recursos para oficinais durante o processo de construção da rede de água.

Na primeira década dos anos 2000, para complementar o tratamento da água, foram entregues filtros de barro para uso residencial em todas as casas e escolas. No mesmo período, foram instaladas mais de 4 mil pedras sanitárias em 129 comunidades, em mutirões, para vedar emergencialmente o contato com as fezes e impedir a entrada e saída de animais que podem transmitir doenças.

*Patrícia Kalil é jornalista, trabalhou em grandes veículos de comunicação no Brasil e no exterior e decidiu se dedicar à cobertura dos temas relevantes da preservação da floresta e das tradições das populações ribeirinhas. Atualmente seu trabalho pode ser acompanhado na página “Árvore, ser tecnológico”, no Facebook: https://www.facebook.com/arvoresertecnologico/

Fonte: Envolverde

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