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terça-feira, 23 de julho de 2013

A marcha de um novo Brasil


Um dos gurus da cultura digital no brasil diz que as manifestações nas ruas marcam o início de uma revolução maior – que vai impor uma nova agenda de cidadania a gestores públicos, partidos políticos e empresas

Por Eugênio Esber
O professor Gil Giardelli é uma espécie de antropólogo da cultura digital. Antes de se tornar CEO da Gaia Creative, uma empresa especializada em inteligência de mídias sociais e inovação, ele foi office-boy, dono de bar, estudante de Desenho Industrial e monitor da Bienal Internacional de São Paulo. Ainda passou por agências de comunicação antes de se lançar em um mochilão que o levaria a 23 países diferentes. E foi com esse background de vida que Gil acabou o que é hoje: um “web ativista difusor de conceitos ligados à sociedade em rede, colaboração humana, economia criativa e inovação digital”, como ele próprio se define. Há 14 anos trabalhando com empreendimentos digitais, hoje ele é requisitado por empresas como BMW Brasil, TAM, Sebrae e outras que buscam um meio de entender o potencial e os significados das redes sociais. Competência que se tornou ainda mais valiosa no início de junho, quando o Brasil viu eclodir uma das mais surpreendentes e enigmáticas mobilizações sociais de sua história – cujos significados Gil ajuda a desvendar nesta entrevista a AMANHÃ.


As manifestações pelo Brasil têm algo em comum com a Primavera Árabe – além do fato de serem construídas a partir das redes sociais?giardelli-350

Na verdade, antes da Primavera Árabe tivemos o movimento na Moldóvia, em 2009 – primeiro país onde se usou o Twitter em manifestações. Ali houve uma frase muito marcante: se nada acontecer depois das eleições, calam-se as urnas e vamos à luta. Aí as pessoas foram à rua e derrubaram aquele regime. Nós tivemos várias ações isoladas em países periféricos. E então surgiu a Primavera Árabe como resultado de  um amadurecimento de coisas que estavam acontecendo ora em um país, ora em outro. E então a Primavera Árabe influencia, sim, todo o mundo. As pessoas veem que elas podem fazer a diferença, que é possível. Mas essa revolução que a gente tá vendo agora no Brasil é um pouco diferente. Lá na Primavera Árabe, o desejo era de democracia. E aqui no Brasil  o desejo é de cidadania, de honestidade, de fim da corrupção. Em resumo, são ações diferentes. Mas, no final, tudo isso é a sociedade em rede se desenvolvendo. É uma sociedade hiperconectada. Tudo é fotografado, tudo é compartilhado. E o fato é que a gente vive realmente a verdadeira aldeia global.

Há espaço para instituições e, mesmo, empresas se conectarem a um movimento difuso e fragmentado como o que se estabeleceu no Brasil?

Acho difícil o engajamento de uma empresa ou instituição. Acho que o engajamento vai ser individual. Você pode até ser um superexecutivo, mas estará indo à manifestação como um indivíduo. Por outro lado, essa conexão do movimento com pessoas de diferentes perfis já está acontecendo. Se você sai nas ruas, como eu tenho feito nas manifestações, vê que a predominância é de jovens, mas não somente. Vi um cartaz de uma senhora de 86 anos. Na verdade, ser jovem, hoje, não tem a ver com idade, e sim com a forma como você encara as mudanças. Esse efeito dominó que está acontecendo mexe com a política, mas depois vai mexer com os negócios, com as empresas que não são transparentes Na verdade, trata-se de uma grande marcha do Brasil do futuro.

Que mensagem os protestos levam a executivos e empresários?

A mensagem de que as empresas vão ter de, realmente, ser transparentes... Qual é o grande problema, hoje, das corporações? Elas falam uma coisa e fazem outra. Há uma série de empresas falando sobre sustentabilidade e cometendo grandes erros. Só que, agora, a gente está entrando no que podemos chamar de era da generosidade coletiva e da transparência radical. As empresas vão ter de evoluir nessa perspectiva, assim como os governos também terão de repensar cidadania, ética, comunicação... Nós, mesmos, cidadãos digitais, precisamos evoluir na direção de um mundo mais transparente e aberto.

As instituições, neste momento, devem colocar suas barbas de molho?

Ah, sim. No sentido figurado, é isso mesmo. Se você estudar as revoluções, qualquer uma delas, verá que, sempre, cabeças rolaram. Não é o caso de dizer que teremos cabeças rolando aqui, literalmente, mas entre aspas vamos ter, sim. Afinal, negócios estão em jogo, empresas que não agem corretamente serão colocadas em risco. Toda a revolução está sendo filmada, gravada. Empresas que poluem, mas dizem que são sustentáveis, ou que tratam mal seu funcionário, vão aparecer na rede. Com o poder da conexão na mão, a gente pode contar tudo pra todo mundo. E isso promove uma transparência que não existia. Antes, as coisas ficavam presas nas intranets, nos jornais, nos murais, nas greves. Esta é a primeira revolução que não tem um grande líder, são milhares de líderes.

Como você define os jovens que se engajam nesse movimento?

É interessante notar que esses jovens sempre foram acusados de ser uma geração sem uma grande luta. “São uns alienados”, é como eles sempre foram tachados. E, de repente, eles, sem nenhum tipo de planejamento, viram-se nas ruas... “Opa, agora nós temos uma bandeira.” E a bandeira é levar nossas ideias... O Brasil, infelizmente, ainda está na capitania hereditária, de uma certa maneira. Mas, agora, está  caminhando para o futuro. Vai ser um país mais conjunto.

O próprio uso das redes sociais também adquire uma função política, deixando de ser um território de amenidades, não?

Sim. Falava-se que o Facebook era um lugar onde só havia bobeira. A verdade é que a gente estava em uma grande infância digital. As pessoas recém começavam a ter contato com novas tecnologias. Quando eu entrei a primeira vez no Twitter, não entendi qual era a dinâmica daquilo. E eu acho que ninguém entendia. Na primeira vez que você entra numa rede social, o impulso é colocar a foto da família indo ver o jogo, colocar a comida predileta, colocar o cachorro...  Com o passar do tempo e com o amadurecimento das pessoas em rede, elas descobriram que é possível fazer outras coisas. Não mais aquilo de só colocar bichinho, família, tudo muito feliz – o efeito Proteus. Com a rede social, é possível fazer manifestações por aquilo em que você acredita – seja a diminuição dos impostos, seja a defesa de animais abandonados, a preservação do ambiente. Cada um tem sua agenda, mas, no final, o que se tem é uma agenda do século 21.

A falta de foco e meta específica empobrece ou, ao contrário, robustece o movimento?

Fortalece muito. Cada um traz sua agenda: fora Renan, abaixo a PEC 37... Vem outro e agrega uma outra bandeira. Não há como fazer uma lista de prioridades. A gente não tem mais tempo para resolver um problema de cada vez, a gente resolve muitos. O que pode acontecer é essa manifestação perder um pouquinho de força, no sentido de engajamento social. Mas ela fica um tempinho estacionada e, de repente, volta com mais força. Depois que as pessoas experimentam o prazer de ir às ruas e compartilhar esse sentimento de poder transformar as coisas, elas não voltam mais atrás.

Como você vê o papel do jornalismo num tempo em que as redes sociais confrontam o trabalho dos veículos de imprensa?

Acho que surge um novo jornalismo. Quando se tem um mundo onde a gente consegue ver, em tempo real, as torres gêmeas caindo na televisão, é porque tudo está mudado. Hoje, se dá um terremoto no Japão, em 15 segundos a gente sabe o que está acontecendo. Cada dia mais, a gente vai precisar de jornalistas para organizar essa bagunça de informações. Mas seu papel será a organização das informações. O jornalista para de apurar notícias e se torna um analista de tudo isso. Quando eu estou sem tempo para entender as coisas, eu leio um jornalista que é especialista naquilo. Eu preciso de conhecimento, não de informação. Porque a informação já está lá.

E a hostilização da grande imprensa nesses protestos: que mensagem deixa aos jornalistas e grupos de comunicação?

Acho que há um desajuste de velocidade. A informação corre mais rápido do que capacidade dos veículos de tomar decisões a respeito. Refiro-me à mídia mais tradicional. Quando começam as manifestações, por exemplo, essa grande mídia se coloca contra, porque na sua ótica se trata de uns baderneiros. A gente tem o caso do Jabor. Ele foi lá e falou um monte de bobagem, na minha opinião. Aí o pessoal da rede foi extremamente cruel contra ele no sentido de dizer :“Você não entendeu nada”. Quatro dias depois, ele teve a humildade de falar que estava errado. Talvez o erro seja que se está tentando fazer o jornalismo do século passado. E a gente precisa de um outro jornalismo, mais colaborativo, mais participativo. Não dá pra usar velhos mapas para descobrir novas terras.

As empresas já evoluíram na relação com as redes sociais?

Algumas entendem as redes um pouco mais, percebem que se trata de uma conversa. Mas muitas ainda acham que podem utilizar aquela dinâmica de comunicação de antes, que era de apenas uma via. Há aquelas que se utilizam da rede apenas para enviar informações para vender algo. O quadro é diversificado. A gente está no meio de uma evolução. É importante ter em mente que as redes sociais são uma praça pública onde as pessoas querem conversar. E quando a gente conversa – com amigos, com colegas –, a gente pode ser criticado. Vejo que as empresas não estão prontas para sofrer críticas.

Muitos executivos se perguntam sobre o melhor uso das redes sociais pelas empresas e temem uma exposição a essa praça pública.

Esse é o grande desafio. Não existe o “eu corporativo” e o “eu pessoal”. Tudo que você colocar na rede é você, seja você no trabalho, seja você na vida real. Quando surgiram casos de executivos demitidos na segunda-feira por opiniões que postaram no domingo, muita gente nas empresas ficou com medo de usar as redes sociais. “Deixa isso pra lá, é para meus filhos.” Quem pensa assim está perdendo uma janela para o novo mundo. Uma força que muda os negócios, muda o empreendedorismo.

E os partidos, como emergem dessa onda de protestos que deixou muitos líderes políticos atônitos?

Para se entender um partido, a gente tem de pegar, lá, o livro de Alexis de Tocqueville, de 1843. Os partidos fazem parte de um século atrás, quando você tinha a hierarquia, quando você tinha de respeitar o político mais velho. Agora, olhando para a sociedade em rede, você vê que será  respeitado pelo que você representa para a sociedade. A moeda do século 21 é a reputação. Os partidos não acordaram. Já se pode votar usando a internet, há o voto distrital, é possível mudar nosso bairro, nossa cidade. E o que vemos? Nas próximas eleições, a gente pode ter um neto de um ex-governador de Pernambuco, um neto de um ex-governador de Minas Gerais. Ao olhar para o número de pessoas que domina a política tradicional brasileira, parece que nós somos do tamanho do Taiti. Não tem nada novo acontecendo? As pessoas estão querendo coisas novas, dizendo para todos os partidos – e eles vão ouvir muito isso na rua: “Vocês não nos representam”.

O que é preocupante para o conceito de democracia representativa.

Quando você tem uma petição na qual 2 milhões de pessoas assinam para dizer que não querem o Renan Calheiros na presidência do Senado e nenhum partido vem a público para dizer alguma coisa, é inaceitável. É por isso que as pessoas estão descrentes de todos os partidos. Principalmente quando se vê o Brasil reduzido a uma dualidade muito grande entre PT e PSDB. Ficam xingando uns aos outros, ora dizendo que a culpa é do Lula, ora afirmando que é do Fernando Henrique Cardoso. As pessoas cansam e pensam: esses caras não nos representam. Elas não querem saber quem está certo, quem está errado. Querem saber qual é o próximo passo. A política vai ter de ser realmente repensada. E o que é que a gente está vivendo agora, nas ruas do Brasil?  São ecos da Marselhesa. Do triunfo do indivíduo sobre a sociedade. O século 21 vai ficar conhecido como um lugar onde as pessoas estão voluntariamente juntas. Ninguém é obrigado a nada. Você está na rua porque você é um voluntário.

Qual é o grande enigma sobre o rumo dos acontecimentos após todas essas manifestações?

Acho que o enigma é este: com uma descentralização de lideranças e a inexistência de um grande líder, será que a gente vai amadurecer como sociedade para dar alguns passos à frente ou ficar apenas em uma tentativa de mudança? O fato de não haver liderança no momento é, eu acho, algo novo, fantástico. Mas o aspecto negativo é que a gente pode se perder em alguns processos. 

Fonte: Revista Amanhã

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