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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ilha desabitada em ruínas abriga cemitério de indigentes de Nova York

Mais ou menos duas vezes por semana um camião da morgue de Nova Iorque carregado de corpos em caixões de pinho passa por um portão gradeado alto e entra numa balsa.


O seu destino é Hart Island, um pedaço de terra inabitado ao largo da costa do Bronx, no estreito de Long Island, onde ruínas de construções do século XIX, hoje invadidas por mato, dão lugar a valas comuns abertas por escavadeiras mecânicas, enquanto os únicos carregadores de caixões são presidiários que recebem 0,50 dólares à hora pelo trabalho.

Ali, histórias de vida diferentes chegam ao mesmo fim anónimo. Não há lápides para identificar os mortos nos 40 hectares do cemitério de indigentes onde está Leola Dickerson, que foi empregada de uma mesma família por 50 anos, querida pela sua bondade e o frango frito que preparava. Leola enterrou o seu marido como ele queria, num túmulo de família no Alabama. Mas em 2008, quando ela própria morreu, aos 88 anos, num hospital de Nova Iorque, estava sob a guarda de um curador indicado pela Justiça. O curador deixou a casa dela ser embargada e o seu corpo ficar abandonado na morgue.

Como prevê a lei, o seu corpo tornou-se propriedade da Cãmara, para ser disponibilizado como cadáver para dissecação ou para uso em aulas de embalsamamento, se uma escola de medicina ou escola de necrotério o quisesse.
E então, como já aconteceu com os corpos de mais de 1 milhão de homens, mulheres e crianças desde 1869, ela foi sepultada numa vala em Hart Island.

Várias trincheiras atrás da dela está o corpo de Zarramen Gooden, que tinha apenas 17 anos quando teve um acidente de bicicleta e feriu a garganta, cortando uma artéria.

Zarramen estava a fazer acrobacias com a bicicleta perto de um abrigo no Bronx onde vivia com os seus quatro irmãos menores e a mãe deles, viciada em heroína.

Sem ajuda das autoridades para o seu funeral, a sua irmã mais velha juntou 8 dólares para comprar o fato de segunda mão em que ele foi vestido para o velório. Mas, quando ela não conseguiu pagar os 6.000 dólares que o enterro custaria, a funerária enviou o seu corpo de volta à morgue.

Milton Weinstein era casado, pai de família e tinha medo de morrer sozinho. Para ele, não houve enterro nenhum por dois anos após a sua morte, aos 67 anos.

Nova Iorque distingue-se de outras grandes cidades americanas no fim que dá aos mortos cujos corpos considera que não foram reivindicados: enterra-os numa ilha solitária, de acesso proibido ao público, num processo realizado por uma equipa de presidiários.

Enterrados às dezenas em fossas largas e fundas, os mortos de Hart Island parecem desaparecer — assim como desaparece qualquer explicação de como foram parar nesse local.

Recuperar as histórias dessas pessoas, evitando que sejam apagadas, é tomar nota do sofrimento humano inerente a uma grande metrópole, das provações e das oportunidades perdidas de tantas vidas que já passaram.

Mas, se Hart Island oculta tragédias individuais, também obscurece falhas sistémicas cujas vítimas são pessoas demasiado pobres, demasiado idosas ou demasiado isoladas para se defenderem.

Diante de uma verdadeira indústria do fim da vida que é capaz de sugar os recursos mesmo dos mais prudentes, essas pessoas são especialmente vulneráveis.

O New York Times trouxe esses casos à tona numa investigação que se baseou num banco de dados de pessoas enterradas na ilha desde 1980.

Graças a esses registos, é possível, pela primeira vez, rastrear a vida dos mortos, lançando luz sobre os diversos caminhos que levaram moradores de Nova Iorque a uma sepultura comum.

Fonte: Diario Digital

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