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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Qual o problema da imprensa com o clima?

Por que a imprensa e mesmo os meios de comunicação especializados em meio ambiente não dão destaque ao tema?


Por Beatriz Diniz e Marcia Pimenta*

É uma tristeza a ratificação do Acordo de Paris pelo Brasil não estar na capa dos principais jornais do país nem ter destaque em suas edições digitais e nos telejornais da TV aberta. A cerimônia na segunda 12/9 até foi noticiada pelos meios de comunicação, só que timidamente. O também chamado acordo do clima, tão importante para o mundo todo, parece ter pouco prestígio na imprensa brasileira. A cobertura foi desproporcional à relevância e gravidade do assunto.

No dia seguinte, a natureza se encarregou de mostrar como se sente na pele a importância do aquecimento global: a terça 13/9 foi o dia mais quente desse Inverno com jeitão de Verão na cidade do Rio de Janeiro. Gancho perfeito para esquentar a pauta da ratificação do acordo e noticiar mais sobre clima, apresentando seu efeito no cotidiano, que não é o “vai dar praia”.

Dá mais tristeza ainda se a gente levar em consideração que não falta espaço editorial para notícias do futebol e para as boçalidades sobre as celebridades [o que sequer é notícia, jornalisticamente falando]. Comparando com o fluxo de fatos desimportantes tornados notícia pela imprensa, a cobertura da ratificação do acordo do clima por aqui foi bem mixuruca.

E isso faz diferença? Ô, e como! Informação é imprescindível para a sociedade alavancar atitudes e compromisso dos governantes! Sem a sociedade pressionando ninguém sai do lugar. Sem informação a sociedade fica na ignorância sobre o que está em jogo: um planeta saudável que tenha capacidade de dar suporte à vida da gente.

Jornalismo é um serviço, cuja função é informar a sociedade sobre o que ocorre nos bairros, nas cidades, nos estados, no país e no mundo. Como o serviço jornalístico é também um negócio, tem que dar lucro. Com mais fatos desimportantes que jornalistas e editores tornam notícia, maior lucro para o negócio, menor qualidade do serviço para a sociedade, menos informação relevante.

A gente checou ocorrências de divulgação no dia da ratificação e no dia seguinte à cerimônia. Bora conferir.

Repercussão no dia

A cerimônia foi transmitida ao vivo pela TV NBR e pelo facebook do Palácio do Planalto, ou seja, fácil para a imprensa cobrir sem estar presente. Teve repercussão on line do Observatório do Clima [a fonte mais especializada em clima no país] e do Instituto Socioambiental pelas redes sociais, tornando acessíveis informações de fontes especializadas em tempo real. A participação do Observatório do Clima, aliás, deu o conteúdo explicativo do assunto com a devida relevância dos fatos, como fonte para consulta direta durante a cerimônia, sem que a produção precisasse dar um telefonema ou mandar um zap sequer para ilustrar suas matérias com informações técnicas. Detalhe que devia ter sido explorado na divulgação por facilitar a cobertura e o entendimento da pauta para jornalistas e editores leigos.

No Uol Notícias foi publicada matéria na editoria Ciência às 11h23, produzida de São Paulo. Vale destacar que a fonte consultada e citada no texto é o Observatório do Clima. Fica a dica para os jornalistas, consultem o pessoal do OC na próxima pauta sobre clima. Também vale botar reparo no detalhe da foto na matéria, que renderia uns memes… Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara de Deputados, ajeitando a calça, após levantar para acompanhar a assinatura junto com o ministro do meio ambiente, Zequinha Sarney.

A edição Brasil da Deutsche Welle noticiou às 11h55 e já no título deu um ótimo apelo de atração para o conteúdo: entenda o que está em jogo.

O Globo on line soltou às 11h55 matéria de Eduardo Barretto e Catarina Alencastro, publicada na editoria Sociedade/Sustentabilidade, e aproveitou a pauta da ratificação no mesmo dia às 12h02 [com atualização às 14h59] para gerar conteúdo com o apelo de explicar o acordo [acessa aqui], tendo SOS Mata Atlântica e Greenpeace como fontes especializadas.

Outra ocorrência de notícia sobre a ratificação é do G1, publicada na editoria política às 11h31 [atualizada às 13h27 às 13h27] e também distribuída pela editoria Globo Natureza, relatando a cerimônia, sem mencionar a participação do Observatório do Clima e sem consultar fontes especializadas.

Repercussão no dia seguinte

Nada na edição digital do Estadão, que aliás não tem mais a editoria Sustentabilidade. Nada na capa do UOl, nem em ciência e saúde. Na capa do Uol Notícias estava publicado um artigo do NYT sobre os perigos do aquecimento global, no entanto, sem uma chamadinha mais para ratificação. Nada no site do El País edição Brasil.

Nadica de nada na capa de O Globo sobre a ratificação do Acordo de Paris pelo Brasil. Nada na capa da Folha de São Paulo também [na edição São Paulo e na nacional coube publicidade para vender um ícone de poluição e não espaço para uma notícia relevante].

Uma passada na banca para checar outros jornais do Rio e….nada! Nada em O Dia, nada no Extra, apesar de serem jornais de uma cidade litorânea [mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas].

As notícias publicadas pela imprensa são também divulgadas nas redes sociais dos meios, nas quais são impulsionadas na medida da repetição e não só da força do conteúdo. A matéria do UOl Notícias publicada no Twitter só teve um retwite e taí uma indicação do porquê da imprensa convencional não investir na cobertura especializada em Meio Ambiente nem na distribuição do conteúdo produzido além do básico [como a assinatura de um acordo, que é uma pauta sem muito apelo popular] e das tragédias [que rendem muitos cliques].

Ô pauta ingrata…

O aviso de pauta do Ministério do Meio ambiente, informando quando o Brasil ratificaria o acordo do clima, foi publicado uma vez em 9/9 no Twitter e teve só dois retuítes. A publicação tem um link que leva atualmente a uma página vazia, não tem como a gente checar quando foi disparado por lá.

O tweet com o aviso do MMA deveria ter sido repetido até 11 de setembro, diversas vezes a cada dia, com variações de chamada, para obter maior alcance conforme a relevância da pauta. Também devia ter sido enviado nessa rede por mensagem direta para meios especializados, imprensa convencional e influenciadores, e até postado em comentários de tweets sobre o assunto, repetindo: conforme a relevância da pauta.

Mesmo o aviso de pauta sendo distribuído por e-mail para o mailing de imprensa, como de praxe, é nas redes sociais que se impulsiona a divulgação. Uma distribuição tímida vai ter uma cobertura tímida, ainda mais a pauta que já não é tratada pela imprensa com a devida importância, tanto por não ser atrativa quanto por não contar com uma predominância de profissionais nas redações com interesse e conhecimento atualizado em meio ambiente e sustentabilidade.

A importância que a mudança do clima tem para a imprensa brasileira é também reflexo de como a pauta meio ambiente é oferecida. A análise da cobertura da ratificação demonstra que o Ministério do Meio Ambiente pode diminuir a distância entre a pauta e a imprensa com outros esforços de relacionamento para gerar e distribuir influência qualificada e qualificadora junto com suas notícias, informações relevantes, dados, avisos de pauta. A temática é ampla, os assuntos são complexos, estão relacionados com a economia, causam impactos na vida da gente, e estão sujeitos a decisões econômicas, políticas e empresariais, inclusive para divulgaão.

Por exemplo, um empreendimento com suas vagas de empregos e benefícios para o crescimento do país tem maior impulso para divulgação. E é mais fácil de ser bem recebido pela imprensa do que os fatos ambientais e sociais decorrentes da decisão econômica, como a quantidade de árvores que vão ser derrubadas, de carbono que capturaram e liberam quando são cortadas, seus efeitos no clima no entorno, a diminuição de pássaros e de alimento e abrigo para outros animais, o licenciamento, os estudos, diagnósticos, medidas de correção e compensação, audiências públicas e tudo mais que vai afetar a vida das pessoas por causa das interferências no meio ambiente, no lugar em que vivem ou trabalham.

Aí rola a tragédia, como a lama da barragem que rompeu em Mariana, da Samarco/Vale/BHP, ou da queda do trecho da ciclovia à beira de um penhasco, ambiente e gente viram pauta, rendem cliques barbaridade. E a imprensa pira até “descobrir” que não foi um desastre natural, que não teve licenciamento ou não foram cumpridas condicionantes ou não foram feitos estudos de impacto ambiental ou que os vizinhos não foram treinados para situações de emergência e etc. e tal. Conclusão? Quando a imprensa convencional pauta meio ambiente antes, acima do fato econômico, e com o impulso de divulgação concernente à relevância e gravidade dos efeitos, pode até ajudar a evitar tragédias previsíveis. Sem brincadeira, um jornalista ambiental identifica os riscos já no anúncio da intenção de realizar o empreendimento e quando sai a primeira notícia sobre uma tragédia é capaz de em minutos elencar os problemas que a imprensa vai “revelar” nas semanas seguintes.

Nem o fato de ser uma pauta positiva para o governo, cujo presidente não teve sequer seu nome citado no último encontro do G20, despertou no Ministério do Meio Ambiente a iniciativa de impulsionar a circulação de mais notícias. Por ser um dos maiores emissores de gases do efeito estufa, o Brasil ter ratificado do acordo de Paris teve repercussão em jornais estrangeiros e na mídia especializada internacional, inclusive influenciadores. Depois de Estados Unidos e China é nóis na história [e podia até ter sido antes dos grandões poluidores, só que a ratificação brasileira foi adiada]. Não tratar como um baita destaque é desperdiçar oportunidade de pautar o clima, de ajudar a imprensa a ampliar a cobertura e de fazer circular informações que podem influenciar a sociedade para saber mais, entender a gravidade e se engajar em agir.

O Yahoo News, em inglês, noticiou com comentário do diretor da International Climate Initiative/World Resources Institute. O Emirates Times retuítou essa notícia do Yahoo News às 11h42. Está na capa do site da ONU Brasil, faz um título [ONU divulga a ratificação do acordo de Paris pelo Brasil], dá o link e programa no Twitter para disparar uma vez ao dia, o mês todo, em horários diferentes. Deu no The York Times! Compartilha, curte, favorita, repercute a validação que ajuda a influenciar a imprensa brasileira. The Guardian deu também. Faz um resuminho comentando, com os links para as matérias na gringa, põe um título com força de impulso e põe para circular que a imprensa internacional destacou. Agora, se o Ministério do Meio ambiente não bota valor nisso, quem vai botar? E aí é só mais do mesmo, processo padrão, reprodução do tratamento de diminuição que a imprensa está acostumada a dar para a pauta clima [e meio ambiente e sustentabilidade].

É hora de investir pesado no apoio para a imprensa especializada, que está num perrengue danado, e tem profissionais com conhecimentos atualizados, dedicados a informar a sociedade diariamente sobre meio ambiente e sustentabilidade. E também é o momento preciso de investir no relacionamento com profissionais das redações da imprensa convencional e estudantes, só que qualificado pela capacitação para a cobertura especializada e para ampliação da capacidade de geração espontânea de publicação de pautas nos meios. A conscientização agora sobre as questões ambientais é fundamental para o desenvolvimento sustentável no médio e longo prazos.

Esforço de divulgação para a relevância e gravidade do assunto

Na busca no Google por “Brasil ratifica acordo de Paris” há somente onze ocorrências de notícias na primeira página [as demais são relacionadas, de data anterior]. Entre elas, uma é da ONU, uma do Portal Brasil e duas do Blog do Planalto.

A cobertura do Observatório do Clima e do Instituto Socioambiental não apareceu nessa busca, assim como as notícias dos principais meios especializados, como Envolverde e Portal EcoDebate. Da mídia especializada, uma ocorrência é do Blog do Planeta na revista Época [olha aqui] e outra é do site Meio Ambiente Rio [acessa aqui].

O resultado indica que o assunto não bombou, ou melhor, foi noticiado sem ser bombado na internet pela imprensa, mesmo com sua enorme importância para a vida da gente. O fato do Brasil ratificar o acordo do clima teve cobertura, foi produzido conteúdo noticioso sobre o assunto, só que as notícias tiveram pouco esforço de distribuição para obter alto alcance e intensa circulação. Esse esforço vai da força criativa no título à quantidade de vezes que se publica nas redes sociais e ao período de validade conferida ao conteúdo pela importância e/ou potencial de render interação e/ou gerar cliques em links [e, claro, fazer o leitor/internauta acessar a publicidade que financia os serviços de jornalismo].

O alcance seria maior se cada um dos meios que caíram no resultado dessa busca tivesse publicado suas notícias sobre a ratificação do Acordo de Paris 10 vezes ao longo do dia da cerimônia em suas redes sociais, como é feito com notícias sobre futebol e boçalidades de celebridades. E se tivesse publicado mais 10 ou 20 vezes, com certeza um número muito maior de brasileiros teria a chance de saber um pouco mais sobre o maior desafio que a humanidade tem que enfrentar [aquecimento global, mudanças climáticas]. E enfrentar hoje, não é conversa para amanhã, é para gente chegar num amanhã melhorzinho.

Tocando a real, repetir dois dias, 20 vezes, é pouco. Até porque nem é lá tão custoso o esforço operacional para isso: crtl c/crtl v, hashtags e programa os horários para publicar automaticamente. O assunto nada atrativo para oferecer a leitores, telespectadores e internautas, no entanto, tem que chegar em mais e mais pessoas, e a função do jornalismo nessa empreita vital é estratégica.

A Beyonce parar um show para dar uma força para um pedido de casamento é “notícia” repetida há dias seguidos, inúmeras vezes no mesmo dia. Aí a gente vê essa repetição tão facilitada com a internet e pensa: beleza, as redes sociais dela tão bombando, geral clicando e gerando visualização para os anúncios nos meios, só que já passou, e mudou o que na sua vida, colega? Nada. E você ainda sai comentando que ela é super legal, sem noção de que é só mais uma ação de marketing engordando faturamentos. É como se faz com assuntos lucrativamente desimportantes. Por que não com o que importa de verdade?

Ratificar foi bonito, mas, tem um abismo entre o assinado e a realidade, que o jornalismo ajuda a diminuir. A cada ano o aumento da temperatura do planeta bate o recorde do anterior. A cada mês é registrado aumento recorde na temperatura. A gente precisa falar sobre isso repetidamente, porque é relevante, é grave e requer sociedades esclarecidas. As próximas gerações vão colher o que a gente semear no presente.

O desafio de divulgar o que importa de verdade

Afinal, a imprensa tem algum problema com o clima? Jornalistas e editores ainda não são capazes de alcançar a dimensão do que ocorre, de incorporar o poder que têm para ajudar a sociedade a entender e agir, será que precisam saber mais, se interessar mais? Talvez não seja uma implicância apenas com as mudanças climáticas, ainda que o aquecimento global seja uma verdade inconveniente, e a dificuldade seja abrangente ao tratamento da pauta meio ambiente [do gerar ao publicar e distribuir para impulsionar a circulação].

O modo de viver tem sido cada vez mais sem enxergar o ambiente e a gente no meio. A imprensa reproduz essa lógica sem sentido combinando ignorância com lucro. E o que a gente está apontando aqui é que a pauta meio ambiente não é atraente para os profissionais do jornalismo o suficiente para que tentem emplacar mais notícias sobre fatos importantes e levem para dentro das redações que nem tem editoria específica o olhar que enxerga o ambiente e a gente no meio. Meio ambiente não é uma pauta exclusivamente negativa, sendo tratada sob aspectos de sustentabilidade cria oportunidade de positivar o conteúdo com boas práticas, apresentar visões propositivas, esclarecer e mobilizar a sociedade. Isso amplia o leque de escolhas do cidadão, que tem poder de escolha como eleitor e consumidor, e faz toda a diferença na construção de um país sustentável.

A imprensa especializada em meio ambiente e sustentabilidade produz conteúdo que pode ser aproveitado por jornalistas como fonte de consulta. O crédito e um link para o meio valida a dedicação e apoia a produção com visibilidade e credibilização, o que não depende só de quem está nas redações. Lembra que jornalismo é um serviço que é um negócio sustentado pela publicidade? Pois é, a gente não vai aprofundar, mas, não dá para passar batido pelos filtros ideológicos dos donos de jornais, emissoras de rádios e TVs. Se a imprensa convencional não vai investir na pauta meio ambiente e sustentabilidade, que pelo menos colabore para dar visibilidade ao conteúdo produzido pela especializada. Porque, no final das contas, todo mundo precisa das informações que só os profissionais especializados se prestam a produzir, mesmo sem grande audiência ou com limitações para impulsionar a circulação.

Não tem cobrança de pênalti nem rebolada que valha mais que a colaboração que governos, empresas, empresas de jornalismo e mídias especializadas precisam pactuar para que a sociedade brasileira seja informada o bastante para dar atenção ao que importa e inspirada a se engajar no presente pelo futuro com condições menos adversas que as previstas cientificamente. Perspectiva distante, só que nada é impossível e só é possível quando a gente começa a imaginar, como diz Muhammad Yunnus. Por um lado, essa dinâmica já funciona, pois a mídia especializada [meios e blogs] não se nega a compartilhar em suas redes sociais matérias da mídia convencional com informações relevantes.

Enquanto isso, a gente vai tentando conquistar corações e mentes no jornalismo para a paixão de pautar meio ambiente e sustentabilidade. Tictactictactictactictac…

Beatriz Diniz é Criativa do Eco Lógico [conteúdo sem fins lucrativos, feito com amor desde 2009] e da Eii, Amoreco [assessoria de comunicação de propósito]. Jornalista com Especialização em Gestão Ambiental, formação em Desenvolvimento Sustentável e Liderança em sustentabilidade nas cidades.

Marcia Pimenta é Fundadora do blog Pimenta no Meio. Produtora de conteúdo especializado. Craque em relacionar o cotidiano com meio ambiente e sustentabilidade.  Jornalista com Especialização em Gestão Ambiental.

Fonte: Envolverde

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