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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Vulnerabilidades E Fenômenos Ambientais, Artigo De Roberto Naime

Os dados oficiais de desastres naturais trazem um problema frequentemente ignorado no âmbito da saúde coletiva nacional, que dão conta apenas no período imediato pós-desastre.


As informações não levam em conta as populações reincidentes, que sofrem com os mesmos tipos de eventos através dos anos.

A ocorrência de eventos naturais extremos, cada vez mais frequentes, conforme apontam os estudos sobre as mudanças climáticas, somados às condições de vulnerabilidade social e ambiental e às populações expostas ao risco e à insuficiência de medidas para reduzir o risco potencial e os danos à saúde, são fatores que configuram um desastre natural e que são cruciais para o planejamento na saúde pública.

Conforme aponta o artigo “Desastres Naturais e saúde: uma análise da situação do Brasil” publicado na revista Ciência & Saúde, em 2014. No entanto, essa aproximação entre os desastres e saúde pública é um tema ainda pouco compreendido, o que acaba influenciando na falta de planejamento e implementação de políticas públicas que reduziriam o grau de vulnerabilidade das diversas regiões no país.

Os desastres naturais são fenômenos sociais, resultantes da confluência de processos globais, socioeconômicos, geológicos e climáticos, e processos nacionais e locais de desenvolvimento e planejamento urbano e social.

A combinação de processos sociais que tornam populações mais vulneráveis aos desastres, resultantes da precariedade de condições de vida e proteção social, como infraestrutura das habitações, rendimentos e empregos, com processos de degradação de ambientes como desmatamentos, poluição, ocupação de áreas urbanas sem planejamento, resultam nas chamadas condições de vulnerabilidade.

“As condições de vulnerabilidades estabelecem territórios críticos em diferentes escalas e em diferentes temporalidades, o que coloca a questão dos desastres como um problema essencialmente socioambiental, desmistificando a ideia de um evento imponderável ou apenas de origem natural. Os territórios críticos são, assim, as áreas reais, onde as contradições sociais apontadas como geradoras de vulnerabilidade estão estabelecidas”, aponta o estudo.

A grande porção dos registros de feridos leves e graves, bem como das mortalidades decorrentes dos desastres naturais, são feitas entre horas e poucos dias depois do evento.

Contudo, os desastres continuam a reverberar a médio e longo prazo, demandando planos de controle e prevenção de enfermidades. No período entre dias a semanas após a incidência, existe a possibilidade de surgimento de doenças transmissíveis, como a leptospirose e doenças diarreicas, no caso de enchentes, bem como o agravamento da situação de pacientes crônicos, como os hipertensos, por conta de danos que afetam os serviços essenciais, como o abastecimento de água, energia elétrica e alimentos.

Os efeitos psicossociais serão refletidos na saúde dessas populações em espaço maior de tempo, entre meses e anos, com impactos relacionados a transtornos psicológicos e comportamentais, doenças cardiovasculares, desnutrição e a intensificação de doenças crônicas.

A maior dificuldade, é justamente estabelecer as correlações a médio e longo prazo, ou seja, como demonstrar que epidemias, ou agravamento de doenças crônicas, que podem ser observadas somente após semanas ou anos, são consequências diretas de eventos extremos e determinar políticas públicas adequadas a tais necessidades.

Uma vez estabelecidas essas correlações entre eventos extremos e epidemias crônicas, que tipos de políticas se espera.

Os antropólogos Renzo Taddei e Ana Laura Gamboggi tocam essa discussão no artigo Etnografia, meio ambiente e comunicação ambiental, de 2011, quando chamam a atenção para o fato de que a falta de uma interlocução consistente das pesquisas ambientais com as teorias sociais geram compreensões isoladas e utilitaristas do problema. Que culminam na prescrição de estratégias normativas para mudar comportamentos. Já se disse que arcabouço jurídico não vai resolver o problema.

Leis e normas não vão solucionar as questões, embora sejam relevantes.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio.

Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

“Obviamente, a maioria dos antropólogos defende a preservação do meio ambiente, defendendo, portanto, mudanças culturais e comportamentais que contribuam para tanto. O que não defendem é a adoção de mecanismos indutivos unilaterais que, em razão de estarem fundamentados em uma compreensão superficial dos fenômenos estudados, acabem por trazer efeitos colaterais desastrosos para as comunidades envolvidas”, comentam.

Em artigo mais recente, o próprio Taddei aponta para a Invisibilidade dos desastres na antropologia brasileira, e observa que, ao passo que os arquivos sobre notícias de desastres naturais decorrentes das mudanças climáticas são robustos o suficiente para evidenciar “a ocorrência cíclica de epidemias de sofrimento causadas por eventos ambientais extremos ocorridos no país”, não se aponta nenhuma tendência.

Nos estudos na área, entre 1300 artigos levantados pelo uso das palavras-chave desastre, tragédia, risco, vulnerabilidade, resiliência e clima, apenas 14, ou seja, 1% do total, abordam o conceito de risco e mudança climática, já as palavras desastre, tragédia, vulnerabilidade e resiliência não aparecem uma vez sequer.

As mudanças climáticas são a ponta de iceberg do antropoceno, e demandarão recomposições radicais da realidade sócio natural. Sob este prisma, a necessidade de redimensionamento das abordagens é imprescindível e fundamental.


 Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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