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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Arte na necrópole





Desprezada pela população e pelo meio acadêmico, esculturas suntuosas enfeitam cemitérios do mundo inteiro


Apesar de possuírem inúmeras obras de arte e servirem de morada eterna para corpos de diversas personalidades que construíram a história, os cemitérios não são lugares muito agradáveis para a maioria dos brasileiros. Afinal, a morte, principalmente de entes queridos, traz lembranças tristes. Por isso, frequentar esse espaço como forma de lazer e cultura é algo impensável para grande parte da população.

Essa visão não é compartilhada com outros países do mundo. Enquanto verdadeiras romarias visitam a necrópole francesa Père Lachaise, interessadas em conhecer os túmulos de personalidades ilustres como Victor Hugo, Voltaire e Chopin; outros tantos vão ao Ricoleta (considerado solo sagrado pelos argentinos) visitar os túmulos de Evita e Juan Domingo Perón, aqui no Brasil os cemitérios praticamente só são lembrados no Dia de Finados, exceto em junho, quando turistas matam a sua curiosidade ou em esporádicas excursões escolares.

São Paulo possui 40 cemitérios: 22 municipais e 19 particulares. Eles estão instalados em todas as regiões da cidade. O maior é o da Vila Formosa, com 763 mil metros quadrados, abriga 200 mil túmulos, com uma média de 10 sepultamentos por dia. Ele ainda possui 200 covas preparadas caso ocorra alguma tragédia, como o massacre do Carandiru, em 1992.

O Cemitério da Consolação é a mais antiga necrópole paulista. Em julho, ele completa 150 anos. É uma referência em quantidade de obras de escultores famosos expostas a céu aberto. Um visitante desatento, que almeja fazer um passeio no cemitério, pode não contemplar toda a arte esculpida em túmulos ricamente ornamentados, verdadeiros monumentos de granito, mármore (da cidade italiana de Carrara) e bronze.



Caso observe só a suntuosidade das obras, muitas personalidades importantes passarão despercebidas, como por exemplo, a Marquesa de Santos ou mesmo a nobreza, que enterrara seus parentes familiares em túmulos simples, somente com brasões famíliares. Enquanto isso, industriais eram enterrados com verdadeiros monumentos de arquitetura, como o Mausoléu da família Matarazzo, o mais visitado da Consolação, abriga 28 corpos em mais de 150 metros quadrados, a mais alta obra feita em necrópole na América do Sul, um espaço estimado em um valor de 500 mil reais.

O que fica na lembrança

Conheça alguns epitáfios curiosos lembrados pelo geógrafo e especialista em cemitérios Eduardo Resende:

O do pai do Leonardo Boff, em Santa Catarina, diz: ´´Quem não vive para servir não serve para viver´´ (poeta Manuel Maria Antônio).

Escrito pelo poeta Bocage para ser posto em seu epitáfio, o que não ocorreu: ´´Quando a enxada cavar no outeiro, nela estará escrito, ´Aqui dorme Bocage, um putanheiro. Levou uma vida folgada e gloriosa, bebeu e fodeu mesmo sem ter dinheiro´´.

Cemitério de Pirassununga: "Bípede, meu irmão, estou enterrado aqui, esse é um fim prosaico de um espermatozóide, que há 80 anos fecundou um óvulo. Estou enterrado aqui, sou o Chico Assombração, xingai por mim!"

"Era um jovem que amava a vida e os carros velozes e reluzentes: 1.8, 1.6, 1.4, 1.0, um ponto final". (não se recorda do nome do sepultado)

Outros por Francivaldo Almeida Gomes, conhecido como Popó, guia turístico do Cemitério da Consolação:

"Nós que aqui estamos, por vós esperamos", túmulo desconhecido

"Estude a morte e compreenderás a vida", túmulo da família Jafet.

Lápide de Líbero Badaró, com o epitáfio da sua suposta última frase dita: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade!".

Museus a céu aberto

Nem mesmo pelo viés de um conhecedor da história da arte, as esculturas nos cemitérios são valorizadas. Segundo o especialista em cemitérios, o professor Eduardo Resende, 38 anos, grande parte dos escultores preferem esconder que fazem obras do tipo. "Muitos artistas não assinam a escultura, que não é apreciada pelo meio, até pela forma com que é feita, por encomenda".

Assim, um mundo de réplicas de Pietás (Michelangelo), Arcanjos, Nosso Senhores e vários semi-nus femininos, imitando esculturas gregas, convivem em um mesmo lugar com esfinges, túmulos japoneses, símbolos escatológicos de caveiras e maçons. A simbologia está muito presente, como a coruja representando a sabedoria; colunas interrompidas a brevidade da morte e martelo e bigorna, representando o trabalho e o industrial.

Muitas obras são narrativas, ou seja, ela em si explica a dor dos que ficam, como a obra do escultor italiano Emendabili, onde três figuras representam uma família, um homem, abraçado ao filho e com um coração nas mãos. À frente, uma mulher com gesto de despedida com a mão no peito. Outras são abstratas e precisam de uma ajuda para compreensão, como o túmulo de Armando Sales de Oliveira, governador de São Paulo em 1930 e fundador da USP (Universidade de São Paulo). A escultura, do artista Bruno Giorgi, lembra duas mãos voltadas para o céu. Mas a interpretação é livre.

No cemitério da Consolação você pode encontrar artistas, como o italiano Amadeo Zani (1869-1944), que é autor das obras da "Fundação de São Paulo", no Pátio do Colégio e Verdi, no Anhangabau; Francisco Leopoldo e Silva (1879-1948), autor do primeiro e conturbado nu feminino (instalado no cemitério em 1922). Luigi Brizzolara (1868-1937), responsável pelo Mausoléu da Família Matarazzo e pela escultura Anhanguera que fica em frente ao parque Trianon; Victor Brecheret (1894-1955), mais famoso escultor da cidade, tem como obras o Monumento às Bandeiras, cartão postal de São Paulo, localizado em frente ao parque do Ibirapuera.


Essa é uma pequena amostra da diversidade de artistas que produziam basicamente três tipos de arte: Art Nouveau, que utilizava o ferro para reproduzir símbolos da natureza, como folhas e flores; o estilo Neoclássico, formado por esculturas greco-romanas com formas arqueadas e colunas dórias e a Art Déco, um estilo mais geométrico, com formas mais quadradas.


Descaso

"Aqui estão enterrados o governadores Ademar de Barros e Abreu Sodré, os presidentes Washington Luís e Campos Salles, os intelectuais Oswald Andrade e Mário de Andrade e os industriais Conde Francisco Matarazzo e Conde Crespi", aponta Popó, guia turístico do Cemitério da Consolação.

A pouca valorização é percebida pelo vandalismo praticado em algumas obras. Pichação, roubo de peças e depredação de escultura são notados em uma visita não muito longa. "Alguns colecionadores retiram placas com o nome do artista da obra para guardar de recordação ou mesmo vasos de mármore do túmulo, que chegam a valer até oito mil reais", enfatiza Popó.

Não só os visitantes, mas o próprio poder público não presta o devido cuidado. O único cemitério de São Paulo que possui uma monitoria de passeios guiados é o da Consolação. Popó começou na área como coveiro e se interessou pelas histórias contadas pelo idealizador do projeto de catalogação de obras tumulares, o historiador Délio Freire dos Santos. Começou a pesquisar sobre o tema e recebeu o cargo após a morte de Délio, em 2002.

Não existe um catálogo de esculturas e artistas nas necrópoles de São Paulo. Poucos estudam sobre o tema e o que sabem é transmitido de forma oral, como é o caso do autodidata Popó e do professor Eduardo Resende, que costuma levar os seus alunos da Uniban (Universidade Bandeirantes) para o cemitério. Boa parte da memória da metrópole paulista está entregue a curiosidade de poucos que queiram assimilar esse conhecimento. Assim como as obras depredadas e as personalidades enterradas, vai chegar um momento em que o passado não vai fazer parte do nosso mundo.

Doutor Cemitério
 
É assim que Eduardo Resende é chamado por sua intimidade com o assunto. Desde pequeno convive em necrópoles. Cresceu brincando e empinando pipa no cemitério da Vila Formosa. Sua tese de graduação foi sobre o recinto e de lá para cá foram dois livros publicados e um terceiro que está para sair. "O último é um guia sobre cemitério, com capítulos sobre arte tumular, epílogos e curiosidades, para quem quiser conhecer o tema".

Em seus 20 anos de estudo e mais de 500 necrópoles visitadas pelos 20 países pelo quais passou, conheceu muitas histórias inusitadas. "Aqui, no Consolação, Oswald de Andrade se casou simbolicamente com Pagu, na frente do túmulo do pai de Oswald". E sobre a amante de Dom Pedro I, revela."Há uma história que conta que toda prostituta que fica rica, vem ao túmulo de Domitila de Castro Canto e Melo (Marquesa de Santos) para lhe oferecer flores vermelhas. Ela se transformou numa espécie de padroeira das prostitutas e, diariamente, flores vermelhas estão ao pé do seu túmulo", ironiza.

O Dr. Cemitério reclama da falta de cuidado do poder público e aponta os modelos de gestão. "Há dois cemitérios museus na América Latina, um é o Presbítero em Lima e o outro é o São Pedro de Medelin, na Colômbia. Cessaram-se o sepultamento, paga-se a entrada e têm eventos, shows, noite da lua cheia, caminhadas noturnas, crianças na escola vão aprender várias coisas, têm concurso de florista". Para ele, o reforço e valorização cultural dessas áreas é fundamental para a conservação do patrimônio histórico da cidade.




Fonte: http://www.guiadasemana.com.br/turismo/noticia/arte-na-necropole

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