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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cemitérios para os vivos

São Paulo vive uma revolução silenciosa de suas necrópoles, que ganharam de wi-fi a obras de arte e eventos culturais


Dizem que a vida é bela, mas da morte poucos ousariam dizer a mesma coisa. Segundo a atriz brasileira Odete Lara, só um assunto a supera na escala de tabu do ser humano: o sexo. Mas já existe no Brasil, de algum tempo para cá, quem ouse rodear os mortos de beleza pensando sobretudo nos vivos. Os cemitérios de São Paulo, por exemplo, andam passando por uma revolução silenciosa, e é possível dizer que em poucos anos eles serão um espaço completamente diferente do que são hoje, renovados pelo trio arte, cultura e meio-ambiente.

Os mais atentos já devem ter notado indícios da transformação. No centro, o cemitério da Consolação, onde estão enterradas personalidades ilustres como o sambista Paulo Vanzolini e o escritor Mario de Andrade, entre outras, cem túmulos agora bem iluminados possuem QR code – aquele código que, ao ser lido por um smartphone, é convertido em conteúdo informativo. Na periferia, o cemitério Parque das Cerejeiras virou um centro de arte ao ar livre que anda deslocando muita gente ao distante Jardim Ângela, periferia da zona sul de São Paulo, curiosa para ver de perto as 22 esculturas do designer Hugo França e outras da artista plástica Alê Bufe, espalhadas em um agradável espaço paisagístico e de floresta virgem.

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Mas… o que terá mudado no pensamento coletivo para permitir que cemitérios, lugares comumente ligados à ideia do tétrico e do fúnebre, passem a ser mais atraentes do que um passeio no museu e uma corrida no parque – ou, simplesmente, se tornem mais agradáveis no momento de despedida de alguém que se vai deste mundo? A simples porém luxuosa ideia de que estética e bem-estar melhoram a relação das pessoas com outras pessoas e o ambiente ao seu redor, seja ele qual for.

Mexer com a mística da morte não é tarefa fácil, mas Lúcia Salles, uma engenheira agrônoma e advogada que há um ano e meio se tornou superintendente do Serviço Funerário Paulistano, tomou a tarefa para si. Ela atende 22 cemitérios públicos, como o Consolação, e fiscaliza outros 19 privados, como o Cerejeiras, e é a primeira mulher a ocupar o cargo desde que ele existe. “Acho muito importante que nós, mulheres, estejamos envolvidas nisso, porque temos um olhar cuidadoso e em leque: tratamos de muitas coisas ao mesmo tempo, sempre com a preocupação de cuidar e amparar”, diz. Seu objetivo é que o brasileiro se torne um curioso em relação a cemitérios, como são os estrangeiros que lotam necrópoles ilustres como Père-Lachaise, casa de Oscar Wilde e Jim Morrinson em Paris, e Recoleta, onde estão Evita Perón e Domingo Faustino Sarmiento em Buenos Aires.

 Sem nunca ter trabalhado na área antes, Lúcia começou um processo de modernização de cemitérios históricos, indo do QR code e do wifi livre a uma agenda de atividades culturais que inclui obras de teatro, shows de música e corais. Algumas delas, como a peça Para gelar a alma, que esteve em cartaz na capela do Consolação, exploram o suspense que despertam os ambientes habitados pelos mortos; outras se apoiam na riqueza das histórias que eles representam, como a roda de samba com sambistas vivos – e os enterrados no cemitério, como Vanzolini – que fez parte da última Virada Cultural. "O paradigma da morte é muito forte, e nós estamos lutando para mostrar que cemitério não tem nada de tétrico, nem de fúnebre. É um parque de memórias. E memória é o que a gente tem de mais vivo”, defende Lúcia, que conseguiu um convênio com a PUC-SP para "continuar modernizando".

Outros planos que ela tem é buscar respaldo da Lei Rouanet para investir mais em memória e cultura nos cemitérios, que graças ao seu esforço já constam no novo Plano Diretor de São Paulo como “parques de áreas verdes”. Também quer derrubar os muros e arames farpados que supostamente protegem os mausoléus, mas que só impedem que eles sejam vistos: "Um muro não tem sentido e só contribui para essa mística da morte. É muito mais legal ter grades ou vidros, porque daí as pessoas enxergam lá dentro, e isso inclusive pode diminuir o número de furtos”.

Mesmo afastado de referências históricas, Daniel Arantes, diretor do Parque das Cerejeiras, também acredita no poder da beleza para criar uma boa relação com a morte. Há quatro anos, ele começou um processo lento e organizado de transformar parte dos 300.000 metros quadrados do cemitério em uma galeria a céu aberto.

Fonte: El Pais

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