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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Vigilância aos agrotóxicos, parte 2/3, artigo de Roberto Naime

PIGNATI et. al. (2014) detalha que o consumo de agrotóxicos por hectare de lavoura de soja tem variado de 7,5 a 16,8 litros, sendo que na lavoura de milho variou de 3,0 a 9,6 litros por hectare e para o cultivo de cana-de-açúcar varia de 3,7 a 7,6 litros por hectare e na cultura de algodão, o consumo variou de 17,5 a 44,9 litros por hectare.


Isto se deve a diversos fatores, como a infestação maior ou menor de patologias agrícolas, aumento da resistência das pragas aos agrotóxicos e também porque algumas plantas transgênicas, usam maiores quantidades de pesticidas que as tradicionais.

Os dados mostram que um hectare de soja consume em média 12,17 litros de agrotóxicos, um hectare de milho consumiu 6,14 litros, um hectare de algodão consumiu 23,86 litros e um hectare de cana-de-açúcar consumiu 4,84 litros de agrotóxicos em forma de produto formulado.

Através do calendário agrícola foram definidos os meses de aplicação de agrotóxicos de acordo com o tipo de lavoura.

O calendário agrícola é um instrumento de consulta que fornece detalhadamente a forma correta de se plantar mais de 20 culturas no Estado de Mato Grosso, e que tem por objetivo orientar a melhor época para realizar as atividades agrícolas em cada fase da cultura.

Com orientações técnicas de plantio, tratos culturais, adubação, início da colheita, secagem, informações climáticas e outras a serem seguidas em cada mês.

Verifica-se nesta tabela que, de acordo com calendário agrícola executado, o período de inter-safra foi de junho a setembro, quando não há aplicação de agrotóxicos, predominando o clima seco e sem chuvas, conformando a época onde se cultiva apenas a cana-de-açúcar.

Esse período da inter-safra da soja, milho e algodão, também é chamado de “vazio sanitário”, que de acordo com Decreto n. 1524 de 20/08/2008 do Governo do estado de Mato Grosso, fica proibido a plantação e irrigação dessas lavouras para prevenção de diversas patologias, entre elas a ferrugem asiática da soja e o bicudo do algodoeiro.

Em todas as lavouras estudadas são utilizados mais de um tipo de agrotóxicos e como em cada município são cultivadas várias lavouras ao mesmo tempo, isto implica numa exposição múltipla aos agrotóxicos. Tanto dos trabalhadores e da população do entorno, quanto de toda biota, podendo elevar os riscos de doenças humanas e ambientais relacionadas aos agrotóxicos.

Para se estimar o potencial dos impactos dos Princípios Ativos desses agrotóxicos na saúde, verificaram suas classes toxicológicas humanas e riscos ambientais.
As lavouras de soja usam maior quantitativo de herbicidas por hectare (9,0 litros), seguido de inseticidas (2,4 litros) e fungicidas (1,1 litros). As culturas de milho também usaram mais herbicidas por hectare (4,3 litros), seguido de inseticidas (1,0 litros) e fungicidas (0,2 litros).

Enquanto que as culturas de algodão usaram mais inseticidas por hectare (14,1 litros), seguido de herbicidas (8,8 litros) e fungicidas (0,15 litros). As lavouras de cana-de-açúcar usaram 4,2 litros de herbicidas por hectare, incluindo o glifosato como maturador e também se usou 0,4 litros de inseticidas e 0,2 litros de fungicidas por hectare.

Esses agrotóxicos consumidos nessas lavouras têm potencialidade de causar intoxicações agudas e quando a Dose Letal média (DL 50) de cada um deles ultrapassar o nível tolerável poderá ser fatal para a vida.

Além disso, para cada um desses agrotóxicos existem estudos demonstrando seus efeitos na saúde humana, seja de indução ou na promoção de vários tipos de cânceres, más formações fetais, desregulação endócrina, distúrbios imunológicos e perturbações mentais.

Outros estudos demonstram que esses agrotóxicos também têm a potencialidade de aderirem às plantas e serem absorvidos por elas e contaminarem suas produções, conforme dados demonstrados no PARA 2012.

Segundo PIGNATI et. al. (2014), outros estudos mostram que agrotóxicos podem se dispersar, seja por evaporação ou desvio das gotas ou lixiviação e contaminarem as águas superficiais, as águas subterrâneas, a chuva e o ar que se respira.

Portanto, é necessário discutir estes dados e suas consequências para a saúde pública em sua relação com o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, com o modo de produção do agronegócio dependente de agroquímicos, transgênicos, agrotóxicos e fertilizantes.

Com o uso inseguro dos agrotóxicos, com seus subsídios fiscais, com o aumento da concentração de terras e com a disputa com os movimentos de busca de um modelo de desenvolvimento sustentável para o campo baseado na agroecologia, conforme PIGNATI et. al. (2014).

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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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