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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Trilema Do Século XXI, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

Karl Marx dizia que “Cada sociedade só se coloca os problemas que pode resolver”. Na concepção do materialismo histórico, o desenvolvimento das forças produtivas avançava até um ponto em que entrava em contradição com as relações de produção e, nesse momento, abria-se um período revolucionário, que, se resolvido adequadamente, viabilizava a continuidade do progresso civilizacional.
Na sociedade capitalista, o grande problema a ser solucionado seria o conflito capital versus trabalho. Esta é a ideia básica apresentada no Manifesto Comunista, de 1848. O espectro do comunismo assustava a Europa e o mundo no século XIX e constituía o problema máximo a ser resolvido nos primórdios da modernidade.

Porém, na “modernidade tardia” (termo de Ulrich Beck) do século XXI, não existe só um problema a ser resolvido. A sociedade atual está diante de três problemas simultâneos: 1) estagnação do crescimento econômico; 2) aumento das desigualdades sociais; e 3) grande crise ambiental.

A solução simultânea dessas três dimensões do crescimento é praticamente impossível na lógica que norteia o sistema de acumulação de capital e no padrão hegemônico de produção e consumo. Dado o fluxo metabólico entrópico, nenhum sistema produtivo é capaz de ampliar as atividades antrópicas (via dominação da natureza), muito menos ir além da capacidade de carga e ser ecologicamente neutro e amigo do meio ambiente. Esta constatação é ainda mais válida para o capitalismo da “hipermodernidade” (termo de Gilles Lipovetsky). Portanto, em vez de estar diante de um tripé da sustentabilidade o mundo atual está diante de um trilema (Martine, Alves, 2015).

Trilema é uma situação criada por um triplo desafio originado de uma proposição formada por três lemas contraditórios ou que reúnem uma solução improvável (ou muito difícil) entre três metas conflitantes. O trilema do século XXI decorre das crises econômica, social e ecológica que se aprofundam de maneira sincrônica. Assim, o desenvolvimento contemporâneo teria que fazer mágica para ser, ao mesmo tempo, economicamente inclusivo (garantir um padrão de vida decente para os 7,5 bilhões de habitantes do globo), socialmente justo (reduzir as desigualdades regionais, de renda, gênero, raça, etc.) e ambientalmente sustentável (evitando a degradação dos ecossistemas, a perda de biodiversidade, a dissipação de energia, o aquecimento global, etc.).

A dificuldade em se alcançar um desenvolvimento economicamente inclusivo decorre do fato de que o avanço do progresso técnico ser cada vez mais poupador de mão de obra e a acumulação de capital ter um forte componente financeiro que não depende da extração direta da mais-valia. É cada vez mais difundida a imagem de um mundo de robôs substituindo a força física do trabalhador e um mundo de inteligência artificial substituindo a massa cinzenta do cérebro humano. Este cenário é agravado pela propriedade privada dos meios de produção e pela dificuldade de os indivíduos conseguirem um emprego numa estrutura produtiva flexível e em constante mutação. Mas a baixa produtividade dos fatores de produção e o alto endividamento das famílias e dos governos torna árdua a implantação de propostas de inclusão social, quer seja o pleno emprego com trabalho decente ou a Renda Básica de Cidadania (como veremos em outro artigo).

A dificuldade em se alcançar um desenvolvimento socialmente justo decorre do fato de que a concentração da riqueza estar se aprofundando nas últimas décadas. O relatório sobre a riqueza global, em 2015, do banco Credit Suisse (Global Wealth Report 2015) atualiza um quadro bastante amplo e esclarecedor da má distribuição da riqueza (patrimônio) das pessoas adultas do mundo. A riqueza global foi estimada em USD$ 223 trilhões em 2012 (meados do ano), passando para USD$ 250 trilhões em 2015.

Na base da pirâmide da desigualdade, em 2015, estavam 3,4 bilhões de pessoas com a riqueza abaixo de 10 mil dólares (são 71% do total). O montante da “riqueza” deste enorme contingente foi de USD$ 7,4 trilhões, o que representava somente 3% da riqueza global. No grupo de riqueza entre USD$ 10.000,00 e USD$ 100.000,00 havia 1 bilhão de adultos, o que representava 21% do total de pessoas na maioridade no mundo. No grupo de riqueza entre USD$ 100.000,00 (cem mil dólares) e USD$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares) havia 349 milhões de adultos, o que representava 7,4% do total. Acima de USD$ 1 milhão estavam 34 milhões de adultos, o que representava 0,7% do total.

O grau de concentração da riqueza fica claro quando somamos os dois grupos superiores da pirâmide, aqueles com riqueza acima de 100 mil dólares, pois havia um total de 483 milhões de adutos (8,1%), com patrimônio total de USD$ 211,4 trilhões, representando 84,5% da riqueza global em 2015. Na parte de baixo da pirâmide, havia 4,4 bilhões de pessoas, representando 92% do total, detinham somente 15,5% da riqueza mundial em 2014.

Já a dificuldade em se alcançar um desenvolvimento ambientalmente sustentável decorre do fato de que, nos últimos 250 anos, o progresso humano ter ocorrido em função do regresso ambiental. A Pegada Ecológica da humanidade já supera em 64% a biocapacidade da Terra. O crescimento demoeconômico já provocou muitos danos no ambiente, como o desmatamento, o represamento dos rios, a poluição, a escravidão animal e a perda de biodiversidade. Quatro das nove Fronteiras Planetárias já foram ultrapassadas na metodologia do Stockholm Resilience Centre. O rompimento de uma das nove fronteiras planetárias pode comprometer todo o equilíbrio do sistema Terra, pois uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco. O maior dano vem do combustível do progresso. A energia fóssil aumentou o bem-estar humano, mas elevou a concentração de CO2 na atmosfera, provocou a acidificação da terra e da água e acelerou o aquecimento global, que eleva o nível dos oceanos e é a maior ameaça à civilização e à vida na Terra.

Karl Marx imaginou que “o fim da dominação e da exploração do homem pelo homem” abriria um novo período da história em que a utopia do comunismo (sem classes sociais) viabilizaria uma sociedade em que prevalecesse o lema: “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. Para o pensador alemão, o grande problema da sociedade moderna seria resolver o conflito entre capital e trabalho, para se alcançar uma época de abundância e de liberdade.

Porém, Marx subestimou a expectativas individuais de riqueza (o anseio ilimitado de afirmação do egoísmo humano) e não levou devidamente em consideração os problemas decorrentes da dominação e da exploração da civilização sobre a natureza e sobre as espécies não-humanas. As experiências concretas do “socialismo real” mostraram que o controle estatal dos meios de produção não atendeu aos anseios de consumo e liberdade dos indivíduos, além de ter sido um desastre para o meio ambiente.

Como mostrou Ulrich Beck: “Com a generalização dos riscos da modernização, é desencadeada uma dinâmica social que não mais pode ser abarcada e concebida em termos de classe” (p. 47). Ainda: “A natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade, a sociedade não mais sem a natureza” (p. 98).

Portanto, o mundo vive um trilema e nem as forças de direita ou de esquerda têm respostas para a solução deste quebra-cabeça. Cada sociedade só se coloca os problemas que pode resolver, porém, nenhuma sociedade até agora conseguiu resolver um trilema que a dinâmica da complexidade das contradições internas gerou ao longo dos últimos 250 anos.

Esta situação já foi estuda por Joseph Tainter que mostrou no livro “O colapso das sociedades complexas” que uma comunidade entra em declínio quando os retornos da complexidade são decrescentes e quando as externalidades são crescentes. Ele mostra que o mundo moderno globalizado está sujeito às mesmas tensões que levaram sociedades mais antigas à ruína. Ou seja, quando o triângulo vira trilema (ou multilema), a capacidade social de atender os interesses conflitantes diminui.

Na falta de uma clara opção para redirecionar o caminho que leva rumo ao precipício e na resistência coletiva em reduzir o tamanho da dimensão do estrago humano sobre o meio ambiente, a continuidade do desenvolvimento insustentável pode levar as conquistas civilizatórias ao colapso.

Referências:

Credit Suisse Global Wealth Report 2015. Zurich, Switzerland. 2015

BECK, Ulrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

Jonathan M. Harris. Ecological Macroeconomics: Consumption, Investment, and Climate Change, WORKING PAPER NO. 08-02, July 2008

MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (português e inglês)
http://www.scielo.br/pdf/rbepop/v32n3/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate

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