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sexta-feira, 10 de março de 2017

“Nós não somos uma empresa de transporte de falecidos”

No dia em que se lembram os entes queridos que partiram, o SAPO 24 foi falar com aqueles que se encarregam de fazer a última homenagem e acompanhar as famílias no momento mais difícil. São agentes funerários e reconhecem que a sociedade tem dificuldade em olhar para eles como “pessoas normais”. A profissão está a mudar e a percepção social também, mas estas coisas levam tempo.


A frase que dá título a esta peça é de Paulo Carreira, diretor de negócio da Servilusa. Ainda há estigmas associados à profissão de agente funerário, mas as coisas estão a mudar com a crescente profissionalização do setor, cujo serviço não se esgota na execução da cerimónia fúnebre, reforça Carlos Almeida, presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL). Da preparação do corpo, ao acompanhamento no luto, passando pela burocracia. No fim do dia, diz, é a “riqueza humana” da profissão que o apaixona. E também, no fim, prevalece a vontade do falecido ou da família, com ou sem Carta do Vaticano, com ou sem cremação. Só não se faz o que é ilegal ou que ofenda a dignidade.

“A actividade funerária continua a ser entendida como algo muito redutor. Nós não somos uma empresa de transporte de falecidos. Isso fazem os carros do INEM. E a própria regulamentação tem de alargar o espetro, e entender a funerária como um parceiro estratégico na área do entender a perda”, defende Paulo Carreira, lembrando que a sua empresa trabalha com um psicólogo especialista nesta área, através da Associação Portuguesa dos Profissionais Funerários (APPF), fundada pela Servilusa, que também já editou três livros sobre a temática do luto. Além disso, destaca, “em três anos, até ao final de 2015, 12 mil pessoas assistiram a formações sobre a perda, são mais de 600 ações”, promovidas pela associação e pela empresa.

A aposta na formação não é exclusiva da Servilusa, a ANEL, presidida por Carlos Almeida, diz-se responsável pela formação de 60% dos responsáveis técnicos funerários que existem em Portugal. As funerárias não podem operar sem estarem sob alçada de um destes profissionais. Estamos a falar de 425 horas de formação nas áreas de higiene e segurança, legislação, protocolo, psicologia do luto, técnicas de venda, entre outras.

Além disso, desde 2005, começou a ser lecionado em Portugal o curso de Tanatopraxia, onde se inclui o embalsamamento do cadáver - assegurando condições de higiene e segurança para a apresentação do corpo do falecido à família; a tanatoestética - que se prende com a aparência (estética) do falecido e que tem como objetivo apresentar o corpo com uma aparência natural; e uma última vertente, relacionada com a reconstrução facial, que começa agora a dar os primeiros passos em Portugal. A ANEL dá estas formações - recorrendo ao apoio de fundos europeus - em ambiente hospitalar, nomeadamente no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e no Hospital de São João, no Porto.

A perceção da sociedade sobre a atividade funerária? “Vai mudar, mas será muito lentamente”, considera Paulo Carreira, que coloca o ónus da mudança também nas próprias empresas. “Nós também temos de mostrar à sociedade que somos diferentes e cada agência funerária tem de fazer o seu papel”, advoga. “Há dez anos atrás havia vergonha em dizer-se que se trabalhava aqui e hoje, em avaliação anónima, tenho zero pessoas a dizer que têm vergonha de trabalhar na Servilusa”, refere. Atualmente, a empresa conta com 300 funcionários e faz anualmente cerca de 6 mil funerais, o que lhe confere um peso de mercado a rondar os 6%.

Muitas vezes “as pessoas só conseguem associar à profissão o medo de não conseguir lidar com mortos. Nós fazemos isso com técnica e profissionalismo, mas não se fica com o coração empedernido, e quando nos toca [lidar com a morte de um ente querido] sentimos da mesma forma, comportamo-nos é de forma diferente daqueles que não vivem a profissão”, explica Carlos Almeida.

Os 52 anos de vida, e 30 de profissão, tornaram-no um observador atento. “Num funeral encontra sempre os verdadeiramente enlutados, aqueles que fazem apoio aos enlutados e os que cumprem um dever social”. “O cerimonial varia consoante o ‘bicho’ social que somos”, acrescenta e, nesse campo, prevalece a vontade do falecido - se expressa antes - ou da família. “Deste lado só não podemos fazer coisas ilegais ou que ofendam a dignidade”, diz.

Uma carta polémica

Cremação (redução de cadáver ou ossadas a cinzas) ou inumação (colocação de cadáver em sepultura ou jazigo)? A pergunta surge um pouco ao desafio, já que as entrevistas sucedem a Carta do Vaticano, publicada a 25 de outubro, com novas diretrizes para a conservação das cinzas e onde a igreja católica manifesta a sua preferência pela sepultura dos defuntos.

Na nota do Vaticano pode ler-se que “a Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos”.“A cremação não é proibida”, mas a “conservação das cinzas em casa não é consentida” e “para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar”. Assim, estas devem ser depositadas em “num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”.

Paulo Carreira acha “perfeitamente natural” a carta da igreja. “O que é importante, é que não é uma lei”, diz, acrescentando que “a pessoa continua a ter a mesma liberdade que tinha antes” e que ninguém está cá para questionar se alguém faz bem ou mal ao cumprir o que é considerado correto dentro da sua doutrina. Para si tudo se resume à “liberdade de escolha” que hoje temos, e que é “um bem inquestionável”. “Na Servilusa temos seis crematórios e todos eles têm um jardim da memória, um local exclusivo para a colocação de cinzas em espaço cemiterial. Portanto, estamos muito tranquilos quanto às diretrizes da igreja católica”, conclui.

Carlos Almeida, porém, conta que gostaria de ver as suas cinzas colocadas num vaso que tem no alpendre de casa, apesar de ser dono daquilo a que chama “um T16 com vista para o rio”. O presidente da ANEL mostra-se, a título pessoal, “desiludido” com o representante máximo da igreja católica, que julgava ser “uma pessoa com uma visão de abertura e espírito evoluído”. Institucionalmente, diz que “se as orientações são essas, façamos então”.

O facto é que a cremação é cada vez mais procurada pelas pessoas. Se em 2000 se registavam cerca de 1.700 cremações, em 2010 o número sobe para 8.700, e em 2015 são quase 15.000 a nível nacional, avança Paulo Carreira, cujos números não fogem aos fornecidos pela ANEL. O crescimento é “exponencial”, conclui Carlos Almeida, salientando que na região da grande Lisboa a cremação é adotada em mais de metade dos casos (53%). Considerando que em 2015 faleceram em Portugal 108.504 pessoas, a percentagem de cremações no ano passado andará à volta dos 13% - 14%. É importante referir que a cremação é mais comum no litoral, uma vez que o país dispõe de pouco mais de 20 fornos crematórios, a maioria deles no litoral.

E o que justifica o sucesso da cremação?

Uma das razões apontadas de imediato por ambos os entrevistados é o desenraizamento. As pessoas procuram condições de vida melhores nos grandes centros urbanos ou no exterior, pelo que nestes a deslocação ao cemitério e a manutenção das sepulturas ou jazigos é mais difícil. “Já não estou na minha terra, saí, fui para uma cidade, o tempo de concessão da sepultura terminou e não sou informado disso, o cemitério vai considerar a minha sepultura abandonada”, exemplifica Paulo Carreira.

O diretor de negócio da Servilusa aponta também para a maior disponibilidade de fornos crematórios. “Antigamente para se ser cremado tinha de se aguardar vários dias”, explica. Além disso, aponta, esta não é uma tendência exclusivamente portuguesa mas também europeia.

Carlos Almeida junta à lista algum “complexo de morbidez associado à putrefação”, e “ideias higienistas ou mais amigas do meio ambiente”.

Há ainda que considerar a questão financeira: “Uma das vantagens da cremação é que ela é mais barata a prazo”, diz Paulo Carreira.

“Se optar por uma cremação terá os mesmos custos de um funeral, mas agora junte-lhe [em caso de sepultura] a ornamentação, a manutenção ao longo dos anos e, caso seja uma sepultura temporária, a exumação e o destino a dar às ossadas”, explica Carlos Almeida, presidente da ANEL.

“Não há nenhuma diminuição da consideração, do amor ou do carinho que se tem pelo ente querido [na cremação]. É uma solução que facilita o processo de luto e da homenagem futura”, conclui Paulo Carreira.

Até porque, acrescenta Carlos Almeida, no caso da cremação “o funeral é realizado com igual rigor, o mesmo protocolo, igual cerimonial, não prejudicando nenhuma homenagem. “Continuam a ser necessários quatro homens para pegar na urna, o carro funerário para fazer o transporte e toda a documentação”, acrescenta. O que pode mudar, ressalva, é hábito de as pessoas se deslocarem ao cemitério no Dia de Finados, substituindo essa tradição por outra forma de homenagem.

É claro que a alteração dos hábitos obriga as funerárias a ter outras soluções. “Se uma pessoa quiser plantar uma árvore há uma urna de cinzas especial, biodegradável, não andamos aqui a poluir o ambiente”, exemplifica Paulo Carreira.

As pessoas estão cada vez mais informadas, mas por vezes ainda surgem algumas dúvidas em relação à cremação. ‘Então e a urna também é cremada?’, perguntam a Carlos Almeida. O presidente da ANEL confirma que “sim”. ‘O que fica são só as cinzas das ossadas?’, mais uma pergunta. “São de facto”, diz. A admissão da urna é feita com o forno crematório a 350º / 400º graus e o equipamento é capaz de chegar aos 1.800 graus. “A essa temperatura já nem as cinzas da madeira lá estão, só o osso”, conta. ‘E as cinzas são mesmo do meu ente querido?’, questionam. Só entra uma urna de cada vez, “não há outra forma de o fazer”, conta o presidente da ANEL, acrescentando que “existem mecanismos de controlo incontornáveis que impedem trocas”.

Mas se pensa que a cremação é uma realidade nova em Portugal, engana-se. Na 1.ª República, em 1912, começou o processo de estabelecimento de um Crematório em Lisboa, no Cemitério do Alto de S. João (na foto em cima). Só em 1925 se concretiza a compra e instalação do forno. A primeira cremação acontece em novembro desse mesmo ano. Este foi depois encerrado em 1936 e reativado em 1985.

Ontem (aproveitando o feriado) e hoje, milhares de pessoas se deslocam aos locais de culto e cemitérios para lembrar os seus entes queridos. “Nós nunca deixamos de sentir falta e de chorar, e a questão é tentar recordar sem sentir aquela dor. A partir desse momento vivemos muito mais em paz”, diz Paulo Carreira, cuja empresa organiza durante este mês missas para todas as pessoas que recorreram à Servilusa. “São momentos arrepiantes, em que podemos parar e recordar. Durante todo ano temos momentos especiais, e este é o mês próprio para lembrar os nossos, com uma celebração social”, acrescenta.

“É a riqueza humana [da profissão] que me apaixona”, confessa Carlos Almeida, que foi oficial do Exército e voltou à empresa fundada pelos pais, a Alto Pina, que para o ano celebra meio século, porque gosta daquilo que faz. “Eu nasci aqui, cresci, estudei e voltei porque quis”, assegura. Hoje, associação a que preside representa um universo de quase 600 empresas, 60% da actividade funerária em Portugal.

Fonte: Portal 24 sapo

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