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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Um prefeito de esquerda em Nova York?

Políticas públicas para pobres, casamento interracial e homoafetividade convertem Bill de Blasio em favorito à prefeitura da cidade – e surpresa no cenário norte-americano

Por Vinicius Gomes Melo 

Quando, nos anos 1980, os Estados Unidos estimularam uma guerra civil na pequena Nicarágua, dezenas de milhares de jovens voluntários norte-americanos voaram ao país da América Central para tentar reduzir os efeitos do embargo econômico imposto pelos EUA. Um jovem alto, desajeitado e barbudo, de 26 anos, estava entre eles, ajudando a distribuir alimentos e remédios à população nicaraguense. Era Bill de Blasio, hoje candidato democrata à prefeitura de Nova York, e líder nas pesquisas, para as eleições de 5 de novembro contra o republicano Joseph Lhota.

Formado em política Latino-Americana na Universidade de Columbia, de Blasio tornou-se um apoiador entusiasta dos revolucionários sandinistas – que recebiam armas da União Soviética e suprimentos de Cuba –, num momento em que a disputa entre eles e os “contra”, sustentados pelos EUA, ocupava o centro da Guerra Fria e polarizava os EUA.

Filho de mãe de origem italiana e pai descendente de alemães, ambos intelectuais e ativistas, no início dos anos 1990 de Blasio começou a trabalhar na prefeitura com o democrata David Dinkins – o primeiro, e até agora único prefeito afro-americano de Nova York –, ao mesmo tempo em que ajudava a levantar fundos na Rede de Solidariedade à Nicarágua. Foi lá que ele, hoje com 52 anos, conheceu sua mulher, a ativista e poeta negra Chirlane McCray, de 58.

A família que constituiu com Chirlane parece dar à sua candidatura um forte apelo, na cidade de maior diversidade étnica e racial dos Estados Unidos. Militante dos direitos da mulher negra, Chirlane escreveu nos anos 1970 um artigo, hoje muito lembrado pela imprensa, em que se declarava lésbica. Seus poemas eram “raivosos”, define ela. Casaram-se em 1994 em cerimônia oficiada por pastores gays e passaram a lua-de-mel em Cuba, quando o turismo entre os dois países ainda era proibido. Têm dois filhos adolescentes, Chiara e Dante, estudantes de escolas públicas.

Tudo indica que o mix social, sexual e racial é mesmo atraente para a população nova-iorquina. Na primária democrata pela candidatura, de Blasio venceu Christine Quinn, declaradamente lésbica e casada com uma mulher. E teve o mesmo número de votos do candidato negro, Bill Thompson, junto ao eleitorado afro-americano. Para além desses fatos está o reconhecimento do seu trabalho como defensor público da Prefeitura, desde 2009, quando seus esforços foram voltados para melhorar as escolas públicas e a qualidade da alimentação, saúde infantil e habitação da população de baixa renda da cidade.

Desigualdade e discriminação

A candidatura de Bill de Blasio vem sendo apoiada por vários atores, entre eles Alec Baldwin, vegetariano e ativista dos direitos dos animais. À revista New Yorker, Baldwin declarou: “O que Chirlane e Bill trazem é uma imagem… como diria? É a imagem de uma Nova York moderna. E não estou apenas falando da questão interracial.”

De fato, o temas eleitos por de Blasio para a campanha não poderiam ser mais atuais: desigualdade e discriminação racial. Com base no relatório sobre a pobreza em Nova York realizado pela prefeitura, a partir de estatísticas de 2005 a 2011, ele alerta para o aumento dos níveis de pobreza na cidade. Os contrastes são crescentes: 46% da população está abaixo ou próxima da linha de pobreza, enquanto há pelo menos 400 bilionários na cidade. A pobreza na “Big Apple“ segue o mesmo padrão de sempre: asiáticos (26,5%) e hispânicos (25,1%) lideram os grupos raciais com maiores níveis de pobreza, à frente de afro-americanos (21,4%) e brancos (15,4%).

O projeto de Bill de Blasio é aumentar os impostos do 1% dos nova-iorquinos mais ricos, que juntos representam 1/3 da renda do município, para pagar as melhorias na educação pública e expandir projetos de pré-escola e atividades extracurriculares. O contraste de sua candidatura com a cena política atual fica mais claro quando se sabe que o atual prefeito, o republicano Michael Bloomberg, foi considerado em 2013 o 13o homem mais rico do mundo pela revista Forbes. Em seu ataque às desigualdades, de Blasio argumenta que a elevação de impostos seria praticada durante 5 anos apenas. A partir de então, a prefeitura buscaria novas maneiras de financiar o programa.

Outro tema de grande repercussão da campanha é o fim da política de “parar e revistar”, criada pelo prefeito atual e julgada discriminatória por ser praticada principalmente com negros e hispânicos.

No entanto, não é apenas na disputa com Joe Lhota que de Blasio encontrará obstáculos para fazer valer sua proposta de aumentar o imposto dos mais ricos. Se eleito, de Blasio terá que conseguir a aprovação do projeto na Câmara Estadual, controlada por republicanos, na capital Albany. A tarefa fica mais complicada quando se sabe que em 2014 haverá eleições para deputados e governador. O governador atual, o democrata Andrew Cuomo, vai concorrer novamente. E não existe nada mais perigoso para um político tentando se reeleger do que falar em aumento de impostos.

Fonte: Outras palavras

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