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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Transdisciplinaridade, interdisciplinaridade e multidisciplinaridade na abordagem das questões ambientais, artigo de Roberto Naime

As apropriações destes conceitos, atualmente existentes em amplas categorias consideradas, demonstram que não existem consensos sobre as conceituações ou semânticas atribuídas a estes termos. E há grande necessidade de clareza destes fundamentos em uma sociedade cada vez mais complexa e dinâmica. Particularmente na área ambiental são necessárias definições inteligíveis, lógicas e se for possível, que guardem um mínimo de entendimento e aceitação consensual.


Iniciando pelo termo “transdisciplinaridade”, os textos pesquisados afirmam que o termo descreve uma atitude de alguma forma necessária para a humanidade desde sua origem. Produto de natureza biofísica e cósmica, sua própria origem determina ao ser humano, sua inserção em modelagem múltipla em todas as dimensões. Todo o modo de ser do homem inserido na civilização humana foi influenciado pela forma “cartesiana” (derivada de René Descartes, pensador francês de 1596 a 1650) de buscar formas de perceber, tratar, e se inserir na realidade. Assim princípios cartesianos como a fragmentação, descontextualização, simplificação, reducionismo, objetivismo e dualismo são amplamente hegemônicos e dominantes em todas as esferas educacionais e científicas até hoje.

Estas influências não são recentes. Derivam até de mecanismos hermenêuticos clássicos como o silogismo, herdado dos gregos. Até hoje a forma de estruturação dos trabalhos acadêmicos em geral guarda a idéia de concepção de uma hipótese que posteriormente será validada ou não. Toda “frieza’ ou “objetividade” científica que se expressa como característica da racionalidade, exclui as dimensões mais típicas do caráter humano. E sensações que são também cotidianas, envolvendo a emoção, o sentimento, a intuição, a sensibilidade e até mesmo a corporeidade. E os inegáveis avanços científicos atestam que a objetividade exige mesmo despojamento de sentimentos humanos, para resguardar a veracidade do fato hipotético concebido, que pode determinar avanços científicos ou tecnológicos.

Esta manifestação corresponde a um amplo enaltecimento da conduta. Em orientação a aluna de graduação em tempos pretéritos, a mesma apresentava relação histórica de caráter lúdico e emocional com o objeto pesquisado. Previamente condenava um tipo de atividade pela contaminação da água de um curso estudado. Quando as análises apontaram outra realidade, a aluna que já havia “adiantado” o texto, independentemente dos resultados, arguiu o que deveria fazer. A isenção e o distanciamento cartesianos exigiram uma nova redação e isto foi desenvolvido.

Jean Piaget aparece como patrono da criação do termo “interdisciplinariedade” quando da realização do I Seminário Internacional sobre pluri e interdisciplinariedade na Universidade de Nice, na França, em 1970. Mas ele propõe uma profunda reflexão sobre o tema e não induz a conceituações dogmáticas ou obsoletas.

A prática “multidisciplinar” está em construção permanente, e guarda significação envolvendo a ideia de simultaneidade de apropriações, determinada por inter-relações sistêmicas de conhecimentos, objetivando alcançar determinado alvo, numa cooperação sinérgica entre campos do conhecimento relacionados, mas que se fragmentam a partir da crescente necessidade de especialização.

Parece que o termo “transdisciplinaridade” deriva do uso do prefixo “trans” e lembra que em determinado tema, como meio ambiente, todas as áreas transitam. Um advogado, pode ser de várias especializações, como cível, trabalhista, criminal, tributário ou ambiental. Um engenheiro pode se especializar em estruturas, técnicas construtivas ou meio ambiente. Até biólogos geralmente associados com meio ambiente, podem trabalhar com genética ou áreas bem distintas, assim como meio ambiente. E assim se pode discorrer sobre várias dimensões do conhecimento humano, espalhadas por várias áreas.

Interdisciplinar é quando envolveria o conhecimento em mais de uma área de formação, mas não necessariamente em todas as dimensões. Por exemplo uma criança com dificuldade na escola, tende a necessitar de pedagogos, professores, sociólogos e até antropólogos. Mas se não estiver doente não exige o concurso de fisioterapeutas, farmacêuticos, odontólogos, médicos ou linguistas e filólogos ou, para ser mais exagerado, geógrafos.

Multidisciplinaridade parece ser o vetor principal para a integração das áreas do conhecimento. Meio ambiente, por exemplo, “transita” por vários campos do conhecimento, e por ser área multifacetada por natureza, e de característica civilizatória quase caleidoscópica, exige a sinergia obtida a partir da colaboração e integração gerada pela participação de todas as dimensões de conhecimento humano determinadas.

Ou seja, alguns problemas exigem participação de vários profissionais, mas não de todas as áreas. Estes são os casos de interdisciplinares. E vão exigir características de trânsito dos componentes do grupo na subárea de interesse.

Outras áreas vão exigir a participação de todas os campos do conhecimento humano, mas com perfis de profissionais que também “transitam” na subárea de interesse. É o caso do meio ambiente que vai exigir profissionais especializados na sua subdivisão deste nicho das ciências, tanto em informações, quanto em percepção ambiental ou determinações conexas.

Tudo isto é uma tentativa de reintegrar e possibilitar a reconexão de fragmentos científicos que haviam sofrido influências deletérias de fragmentações através de especializações, que determinaram a perda de visões mais caracteristicamente holísticas ou completas e integradoras.

Todo este conjunto de reflexões não objetiva criticar fragmentos da história evolutiva da civilização humana, mas determinam observar que o mundo é redondo e dá voltas e as vezes é preciso descrever uma circunferência completa para a evolução ser retomada por complementariedades que se acrescentem a picos evolutivos determinados por tirocínios relevantes de personalidades marcantes.

Descartes está, felizmente cada vez mais vivo, e se saúda esta realidade com todos os avanços que a adoção do cartesianismo na educação e na academia ou nas ciências em geral permitiram. Mas está sendo cada vez mais complementado em suas geniais concepções, pela visão holística que determina a revisão de paradigmas neste cenário civilizatório cada vez mais complexo. Por isto esta acomodação das realidades permite atribuições novas a molduras já há tempos inalteradas. E isto inegavelmente é outro avanço civilizatório que determina um novo modelo de derivação.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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