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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Gás de Xisto: a festa de despedida dos combustíveis fósseis? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O gás de xisto é a última esperança para se evitar o pico dos combustíveis fósseis. Existe uma euforia nos mercados capitalistas dos Estados Unidos com a possibilidade da independência energética propiciada pelas enormes reservas de “shale gas”. Boa parte das empresas americanas acreditam que os EUA vão se tornar uma potência energética, sendo que o país poderia deixar de ser dependente das importações de petróleo e se transformar em exportador líquido de energia. Assim, a principal economia do mundo poderia ficar livre dos problemas políticos e religiosos do Oriente Médio. O gás de xisto tem sido visto como a alternativa para evitar o declínio do Império Americano.


Todavia, a produção de gás de xisto não está com esta bola toda, além de ser altamente poluidora e destruidora do meio ambiente. Artigo de Asjylyn Loder, na Bloomberg (traduzido pelo jornal Valor Econômico), mostra que os poços de xisto começam a pleno vapor, mas declinam rapidamente, obrigando os produtores a abrir novos poços a um ritmo alucinante para manter a produção estável. Nos campos de produção, a necessidade incessante de perfurar é referida como Rainha Vermelha, nome do personagem em “Alice no País dos Espelhos” que diz a Alice: “Você precisa correr o máximo que for capaz, para ficar no mesmo lugar”.

Por exemplo, o poço Serenity 1-3H, da Chesapeake Energy, perto de Oklahoma City, jorrou petróleo em 2009, produzindo mais de 1,2 mil barris por dia e dando início a uma corrida de perfuração de poços que se estendeu até o Kansas. Atualmente, o poço fornece menos de 100 barris por dia, segundo registros do Estado. O rápido declínio do Serenity lança luz sobre um segredo muito bem ocultado sobre o boom do petróleo: ele pode não durar.

Em diversos casos, o balanço energético da exploração do gás de xisto (Energy Return on Energy Invested – EROEI), indica que que por cada unidade de input de energia o output era de apenas duas unidades, no máximo 3 unidades. Ainda segundo o mesmo artigo, os EUA precisam perfurar 6.000 novos poços por ano, a um custo de US$ 35 bilhões, para manter a produção atual. Os poços mais novos não são tão produtivos como os abertos nos primeiros anos do crescimento explosivo, um sinal de que as companhias de petróleo já esgotaram os melhores sítios, tornando muito mais difícil continuar quebrando recordes. Há previsões de que a produção atingirá o pico em 2017 e então cairá para níveis de 2012. O entusiamo exagerado quanto à independência energética dos EUA e ao uso do termo ‘América Saudita’ é ensurdecedor, mas pode não passar de um “canto do cisne”.

O geólogo americano, Art Berman, especialista em combustíveis fósseis, disse: “Eu vejo o xisto mais como uma festa de despedida do que uma revolução”. “É o último suspiro” (dos combustíveis fósseis). Steve Andrews diz que o gás e o petróleo de xisto podem ser o ouro dos tolos no mundo da energia.

A produção de gás de xisto é altamente danosa para o meio ambiente e tende a aumentar o stress hídrico. O processo de fraqueamento (fracking), exige a utilização de grande quantidade de água e, em geral, provoca a degradação dos lençóis freáticos. Como mostrou Marcelo Garcia, o processo de extração do gás de xisto não é totalmente conhecido, uma vez que as empresas tratam seus detalhes como segredo industrial. Por exemplo, junto com a água pressurizada, também é bombeada uma série de substâncias químicas cuja composição exata não é divulgada – ela incluiria, por exemplo, ácidos como os usados em lavagem de piscinas, anticorrosivos, redutores de atrito e agentes químicos que facilitam a saída dos fluidos. Além disso, outros pontos ainda pouco dimensionados podem causar grandes danos ambientais, além da enorme quantidade de água necessária para a exploração do gás.

Segundo o biólogo Jean Guimarães: “As principais críticas de moradores, cientistas e ambientalistas a essa atividade é a contaminação da água subterrânea, traduzida na presença de lama, metais pesados e hidrocarbonetos na água dos poços e córregos locais e, portanto, nas torneiras. Em algumas casas próximas a áreas de perfuração nos EUA, a água da torneira contém tanto metano que é inflamável, como documentado no imperdível filme Gasland, de Josh Fox”.

Também cresce a preocupação com a “água tóxica”. Artigo de Suzanne Goldenberg trata da crescente preocupação com a eliminação segura bilhões de litros de águas residuais que são devolvidos à superfície, juntamente com o petróleo e o gás, quando as rochas de xisto são fraturadas. A água retornada da exploração do gás de xisto contém brometos de rádio, conforme mostram os estudos que apontam evidências de riscos da radiação de perfuração de águas residuais. Além disto, a autora mostra que “as águas residuais descarregadas em estações de tratamento podem contaminar a água potável, especialmente quando o brometo no esgoto se mistura com cloro (muitas vezes usado em estações de tratamento de água potável), produzindo trihalometanos, substâncias químicas que causam câncer e aumentar o risco de reprodução ou problemas de saúde”.

Por tudo isto, cresce o movimento “Global Frackdown” para banir a exploração do gás de xisto e a prática do fracking. Seria aconselhável que o Brasil (que está entrando no atoleiro do pré-sal) avaliasse bem os riscos da produção de gás de xisto, pois não vale a pena gastar as reservas de água em troca de um combustível poluidor e que tem um ciclo de vida relativamente curto. É bom lembrar o princípio da precaução e evitar entrar em uma canoa furada. O melhor para o Brasil e o mundo é sair o mais rápido possível da era dos combustíveis fósseis e investir em energias renováveis e na transição para uma economia de baixo carbono.

Referências:

Asjylyn Loder. U.S. Shale-Oil Boom May Not Last as Fracking Wells Lack Staying Power, Bloomberg, 10/10/2013 http://www.businessweek.com/articles/2013-10-10/u-dot-s-dot-shale-oil-boom-may-not-last-as-fracking-wells-lack-staying-power

Asjylyn Loder. Boom do xisto pode ter vida curta. Valor Econômico, 14/10/2013

http://www.valor.com.br/internacional/3303302/boom-do-xisto-pode-ter-vida-curta#ixzz2hiszQsbE

Suzanne Goldenberg. Fracking produces annual toxic waste water enough to flood Washington DC, The Guardian, 4 October 2013

http://www.theguardian.com/environment/2013/oct/04/fracking-us-toxic-waste-water-washington

Joe Romm. More Bad News For Fracking: IPCC Warns Methane Traps Much More Heat Than We Thought. Think Progress, October 2, 2013

http://thinkprogress.org/climate/2013/10/02/2708911/fracking-ipcc-methane/

Marcelo Garcia. Expresso para o futuro ou caminho equivocado? Ciência Hoje, 31/07/2013

http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/reuniao-anual-da-sbpc-2013/expresso-para-o-futuro-ou-caminho-equivocado

Jean Remy Davée Guimarães. Gás de xisto: revolução ou insanidade? Ciência Hoje, 21/06/2013

http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/gas-de-xisto-revolucao-ou-insanidade

Steve Andrews. As falsas esperanças no shale oil. Resistir, 30/09/2103

http://resistir.info/peak_oil/shale_oil_30set13.html

Mark Ruffalo and Wenonah Hauter. Five Reasons to Join Us for the Global Frackdown, Huffington Post, October 19, 2013 http://www.commondreams.org/view/2013/10/19-0

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate

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