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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os animados cemitérios medievais

As necrópoles já foram um bom lugar para morar, namorar, jogar bola, dançar, comer, beber e fazer compras. A vida social entre túmulos chegou a tal nível de efervescência que a Igreja passou a legislar sobre o uso do espaço


Os cemitérios da Idade Média nada tinham de tenebroso. De dia ou de noite, era neles que a população das maiores cidades européias buscava se divertir, quando não fixar residência provisória ou definitiva. Além disso, as necrópoles eram também um espaço de cidadania, pois lá sempre estavam juízes a comunicar sentenças, e o equivalente aos prefeitos de hoje a dar publicidade a suas ações. Esses locais funcionavam ainda como cartórios a céu aberto. Não que as condições ajudassem, pois já havia acúmulo de corpos e problemas de higiene e limpeza. Mas, de fato, os cemitérios atraíam. Eram um componente da urbanidade de então, construída através dos séculos e com origens bastante remotas.

Na Antigüidade romana, os mortos eram enterrados fora da cidade, na beira de estradas ou em vastos espaços subterrâneos, as catacumbas. Com a cristianização da sociedade, surgiu a tendência a aglomerar os defuntos nas proximidades dos lugares sagrados, como tumbas de santos e igrejas, na expectativa do Juízo Final e da ressurreição dos corpos.

Assim se definiu um espaço sagrado, quadrangular e fechado: o átrio ou adro no terreno das igrejas. Com isso, a morada dos mortos passou a ser o centro das cidades e aldeias, num estreito convívio com os vivos.

Nas pequenas cidades medievais, cercadas de muralhas, os cemitérios tinham o poder de atrair as pessoas e, por isso, não surpreende que tenham assumido uma função principalmente religiosa. Era no espaço cercado em que se enterravam os defuntos que os vivos ouviam as palavras dos padres e recebiam sacramentos. A igreja era muito pequena para acolher a massa de fiéis e, além disso, a pregação entre os mortos impressionava mais os espíritos.

Os pregadores itinerantes também gostavam de se instalar nos átrios a fim de lembrar aos vivos a sua aterrorizante natureza mortal e exortá-los ao arrependimento. Além disso, certas cerimônias tinham naturalmente por cenário a morada dos mortos: a de Finados e a missa de Ramos, que dá início à celebração da paixão e morte de Jesus. Daí para o local se tornar ponto de partida ou de chegada de outras grandes celebrações, procissões e peregrinações não custou muito.

O cemitério foi se tornando, assim, o lugar ideal para toda reunião pública, religiosa ou laica. Na Idade Média, tornou-se o local de escolha para que o prefeito informasse seus aldeões de suas medidas. As chamadas “barras do tribunal”, grade ou cerca que separa o juiz do público e do acusado, também eram instaladas nesses pátios das igrejas.

Foi no cemitério de Rouen, na França, que o tribunal eclesiástico julgou Joana d’Arc, por exemplo. Os inquisidores, embora interrogassem secretamente as suas vítimas, pronunciavam a sentença publicamente num estrado erguido no cemitério. Mesmo os atos de direito privado, como doações, vendas e trocas, eram tornados públicos no cemitério. Alguns atos jurídicos chegavam a associar os mortos aos vivos: um costume disseminado na Bélgica previa que uma viúva podia se livrar de dívidas mediante uma cerimônia em que depositava no túmulo do marido “a sua cinta, as suas chaves e a sua bolsa”.

Também era na necrópole que se pronunciava a pavorosa sentença de “morte civil” dos leprosos, cerimônia que copiava fielmente os ritos fúnebres. Expulsavam-se os leprosos da comunidade dos viventes, entregando-lhes os instrumentos de sua nova condição: as luvas, a gamela e a barulhenta matraca, com que anunciavam sua passagem para que as pessoas sãs se afastassem.

Muitos desses costumes perduraram até o século XVIII. Só no século XIX, as reuniões e os anúncios públicos migraram para as prefeituras. Mas nem sempre a Igreja viu essas reuniões com bons olhos. Chegou a tentar proibi-las a partir do século XII, sem sucesso. Convém lembrar, contudo, que se tratava mais de conflitos entre a autoridade religiosa e a laica do que propriamente de preocupação com o respeito aos mortos.

De fato, o cemitério extrapolou tanto sua finalidade original que, em dado momento, se tornou um lugar de comércio muito freqüentado. Lá se encontravam bancas de “carniceiro” – como eram chamados os açougueiros –, lojas e até mesmo tabernas.

Os comerciantes gostavam da localização, isenta de alvarás e impostos e com constantes reuniões populares, o que garantia freguesia variada. Nos dias de peregrinação, improvisavam- se mercados e feiras. O comércio de bebidas se multiplicou. Os taberneiros fincavam sua tabuleta e não vacilavam em cavar porões para conservar os tonéis de vinho e cerveja naquele solo repleto de ossadas.

Em 1402, Paris proibiu os comerciantes de expor mercadorias sobre os túmulos. Em vão. Até o século XVIII, as lojas se alinhavam no cemitério dos Inocentes, tanto que se falava no “ossário dos vendedores de roupa” e no “ossário dos escreventes”. Um viajante descreveu esse lugar incrível, no qual se via “uma fila dupla de lojas de escreventes, de vendedores de roupa, de livreiros e de mercadores de panos. (...) Em meio a essa confusão, procedia-se à exumação, abertura de um túmulo para substituir cadáveres ainda não totalmente consumidos”.
CREATIVE COMMONS

A Via Ápia, estrada onde se instalavam as necrópoles na Antigüidade romana Embora não se importasse com a proximidade dos defuntos, o público se queixava dos fétidos odores que o chão exalava e das escavações que muitas vezes revelavam corpos mais ou menos descarnados. Entretanto, os europeus e os viajantes estrangeiros aglomeravam-se nos cemitérios com interesse e curiosidade.

Só não era recomendado passar a noite no local. O escritor renascentista François Rabelais registrou que “pedintes, mendigos e miseráveis” lá vadiavam, sem contar os condenados foragidos da lei. Os campos-santos, tal como concebidos nos tempos medievais, tinham uma reputação tão detestável que o humanista concluiu que Paris era “uma boa cidade para viver, mas não para morrer”.

CULTIVO DE ALIMENTOS Os artesãos e os comerciantes não eram os únicos a assediar os cemitérios europeus. Alguns pareciam jardins, pois foram dotados de árvores e arbustos floridos, escolhidos a dedo para favorecer a prece e a contemplação. Outros, possivelmente concebidos de forma mais pragmática, se transformaram em espaços agrícolas arados e semeados, nos quais se produziam cereais e legumes.

No século XI, a cevada era abundante no cemitério Saint-Gervais, na França. Na região da Normandia, a igreja chegava a condenar a população caso os cemitérios não fossem cultivados. Em diversos casos, era necessário cavar um poço ou providenciar outra forma de abastecimento de água. Tais atividades agrícolas às vezes geravam conflitos entre os fiéis, as autoridades religiosas e as laicas, envolvendo a cobrança de taxas sobre as colheitas.
MUSEUM OF LONDON ARCHAEOLOGY

O que restou do cemitério medieval inglês The East Smithfi eld Black Death No fim da Idade Média, a Igreja romana legislou para expulsar todas as atividades que perturbassem a quietude dos lugares. Foi proibida a venda de pão, aves, A Via Ápia (à esq.), estrada onde se instalavam as necrópoles na Antigüidade romana peixes e outras mercadorias, com exceção de velas.

A Igreja também passou a condenar as atividades lúdicas, pois os jovens passeavam e namoravam nos cemitérios. Como se não bastasse, eles ainda jogavam bola, cortejavam as moças à sombra dos ossários e dançavam entre os túmulos a farândola, uma dança medieval muito popular, em que vários participantes fazem uma roda, que evolui para outras formações.

Na segunda metade do século XII, um sacerdote de Liège, na França, reclamou dos fiéis que, todos os domingos e dias santos, “freqüentam os mimos, as dançarinas, os histriões, embriagam-se e se rendem ao jogo, assistem ou se misturam à dança sedutora das mulheres, entregam-se a cantos obscenos e a posturas impudicas diante da porta das igrejas e sobre o túmulo dos pais”. Novas tentativas de proibição, porém, fracassaram.

Os cemitérios se tornaram também lugar de refúgio. Em tempo de guerra, os aldeões lá se abrigavam, às vezes com todos os seus bens. Quando os conflitos perduravam, eles organizavam pequenos quartos por cima dos ossários ou construíam casas ao longo da cerca. O gado pastava, já que o capim grassava ao redor dos túmulos, e acumulava em toda parte montes de estrume. Em tempos de insegurança, os túmulos também serviram como esconderijo de bens dos habitantes de algumas localidades.
MUSEU JULES-EUGÈNE LENEPVEU, PARIS

Joana d´Arc foi julgada num cemitério, em sessão pública/ Joana D’arc na fogueira, pintura, E. Lenepveu, 1889, Panteão de Paris, França Por vezes, a função de refúgio chegava a anular a principal vocação do campo-santo: no século XII, um bispo, por solicitação dos habitantes da cidade francesa de Redon, fundou um cemitério em que não se admitiam cadáveres. Tratava-se de um espaço abençoado “para refúgio dos vivos, não para sepultura dos mortos”. Mas essa decisão exasperou os monges locais que lá queriam ser enterrados e acabaram obtendo ganho de causa.

Na verdade, a segurança dos cemitérios os transformou em lugares habitados. O Concílio de Troyes, do ano 878, já determinava que os que ousassem arrombar igrejas ou roubar as casas situadas no recinto dos cemitérios cometiam um grave sacrilégio. O problema é que os refugiados por vezes se sentiam tão bem em espaço protegido que tendiam a se fixar, e os clérigos não conseguiam expulsá-los.

Não raro, os padres também ocupavam essas vivendas ou tratavam de lucrar alugando pequenos lotes. Nesses períodos, os vivos chegavam a desalojar os mortos, pois as casas invadiam todo o espaço e já não era possível enterrar ninguém. De tempos em tempos, a Igreja cuidava de colocar ordem na ocupação, mas sem reduzir o interesse dos inquilinos.Curiosamente, o cemitério chegou a ser um lugar cobiçado: lugar sagrado, aluguel barato e imunidade contra abusos da polícia eram condições atraentes.

Existia ainda uma categoria particular de habitantes permanentes: as reclusas. Mulheres que, por espírito de devoção, se deixavam confinar vivas em casinhas apoiadas na igreja do cemitério. Bem acomodadas, algumas chegavam a uma longevidade excepcional. Foi assim que, em 1470, o rei Luís XI decidiu homenagear uma tal Alix la Bourgotte, que falecera depois de ter passado 46 anos reclusa no cemitério dos Inocentes. Na mesma época, outras mulheres lá foram confinadas, se bem que a contragosto, como certa Renée de Vendômois, condenada à prisão perpétua pelo assassinato do marido.
REPRODUÇÃO

A área de sepultamentos em Paris, bem no meio da cidade Cemitério dos Inocentes, gravura, autor desconhecido, século XVIII Nem sempre, porém, o cemitério medieval foi seguro. Alguns combates entre inimigos locais chegaram a ocorrer, como violentas brigas de vizinhos e duelos. Ademais, quando faltava vigilância, o cemitério tendia a se transformar rapidamente em depósito de lixo, outro desafio que a Igreja tentou enfrentar com proibições e pragas – dizia que os que urinavam ou defecavam nos túmulos seriam acometidos por doenças.

Mais difícil, porém, era lutar contra os animais, os porcos soltos que tendiam a fuçar a terra, desenterrando os cadáveres, e os cães que urinavam e cavavam por toda parte. No cemitério dos Inocentes, em Paris, um dos raros monumentos de pedra tinha a imagem de Nossa Senhora e a inscrição de um homem que “em vida se gabava de que os cães não urinariam em seu sepulcro”.

Seria preciso aguardar o século XIX e o uso generalizado das lajes sepulcrais para que os cemitérios se tornassem um espaço silencioso e cercado de altos muros, rigorosamente reservado aos defuntos, uma verdadeira necrópole ou cidade dos mortos, que só se anima no Dia de Finados.

Fonte: História Viva

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