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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

As faces da morte

"Em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. (...) E levarei você embora gentilmente."

Mesmo quem não leu o best-seller A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, consegue identificar, por essa frase, quem é a narradora da história — afinal, como diz a sabedoria popular, a morte é uma das únicas certezas da vida. E embora a finitude humana nem sempre seja vista sob a mesma ótica pelas diferentes épocas, culturas e religiões, o cuidado com os mortos ultrapassa o tempo e a geografia.


— Lembrar os mortos está na própria origem das religiões, desde as mais primitivas. É um ato de respeito, de dignidade e mesmo de valorização da vida — ressalta o padre Oscar Chemello, pároco da Catedral Santa Teresa.

— Para os cristãos, os mortos não deixam de existir, a morte não é a destruição da pessoa.

Essa concepção de que há uma vida após a morte também permeia várias culturas. No antigo Egito, 2 mil anos antes de Cristo, a crença numa nova vida pautava a mumificação dos faraós, que eram sepultados nas pirâmides com seus tesouros. Mais recentemente, na Roma dos primórdios do cristianismo, as lápides nas catacumbas já guardavam inscrições citando a esperança da ressurreição.

A institucionalização do 2 de novembro como Dia dos Finados ocorreu ainda no Século 13. Segundo o padre Chemello, a Igreja já celebrava o 1º de novembro como Dia de Todos os Santos, lembrando aqueles que foram martirizados, e sentiu-se a necessidade de uma data que abrangesse também os outros falecidos. Ele destaca, porém, que não é só nesse dia que os entes queridos que partiram são lembrados:

— Toda missa é um momento especial de comunhão entre os vivos e os mortos. Nela, celebramos a Páscoa de Jesus, sua morte e ressurreição, e a comunhão dos santos, os que estão junto de Deus.

O ato de ir ao cemitério no dia 2, seria uma forma de "rever a família" e reviver a esperança de que a morte não é o fim. Mas, mais do que flores ou velas, a melhor oferta por quem faleceu é a oração, ressalta o sacerdote.


Sem flores

A visita aos cemitérios, tradicional entre católicos e várias outras denominações cristãs, não é unanimidade entre as religiões. Clementina Berno, vice-presidente da União Municipal Espírita, explica que, embora muitos adeptos dessa doutrina conservem a tradição de levar flores, por causa de uma certa mistura de crenças, para o espiritismo não há necessidade de visitar túmulos, pois o espírito, a essência da pessoa, não está lá.

— A homenagem que fazemos é oração, carinho, vibrações. Se eu colocar lindas flores, elas vão durar horas, dias. Então prefiro comprar, com esse dinheiro, gêneros alimentícios e oferecer para alguém que precisa em memória dessa pessoa — diz.

Clementina ressalta que isso não significa que não se vá cuidar dos túmulos, apenas que abdica de ir lá em datas determinadas. Da mesma forma, ela lembra que espíritas também sofrem quando alguém parte, mas sem desesperos.

— A gente sabe que aquela pessoa cumpriu sua tarefa, e agradece a Deus o tempo que ela esteve aqui, suas experiências e os aprendizados que deixou.

Galinhada e batuque

A umbanda, por sua vez, tem um ritual totalmente próprio para lembrar os mortos, e isso acaba fazendo com que seus praticantes se mantenham afastados dos chamados campos santos no Dia dos Finados.

— Nossa forma de reverenciar os ancestrais seria ir num cemitério e bater tambores, mas não podemos fazer isso. Então, fazemos nossa homenagem nas matas — relata Ademir Antônio dos Santos Neves, o Pai Ademir de Oxum, presidente do núcleo gaúcho do Superior Órgão Internacional de Umbanda e Cultos Afros.

Nesse dia, os umbandistas também fazem oferenda de comida para Egum (os mortos). Os pratos variam, mas o mais comum, explica Pai Ademir, é a galinhada, iguaria que os praticantes dessa religião só podem comer em velórios. Mais uma vez, o local da homenagem é a mata, próximo à água corrente (que simboliza a vida e a purificação). Velas complementam a homenagem.

Data saudável 

A psicóloga Ana Reis, idealizadora do Luspe, instituto de psicologia especializado em questões de luto e perda, avalia que o Dia de Finados é uma data saudável do ponto de vista psicológico:

— Ela oferece uma nova oportunidade de ritualizar, de revisitar tudo o que nos fez bem, quem investiu amor em nós, além de fechar questões que ficaram em aberto.

Ana salienta ainda que é importante ter um lugar para lembrar a pessoa querida, seja ele o cemitério ou outro espaço. O importante é encontrar um modo de lidar com esse sentimento e com a ausência. Afinal, diz, o amor não morre, e o luto é aprender a amar separado de quem partiu.

Sepultamento ou cremação?

Muitas pessoas têm dúvidas sobre como a Igreja vê a questão da cremação. O padre Oscar Chemello explica que, embora tradicionalmente se indique o sepultamento, por uma associação ao sepultamento de Cristo, não há proibição religiosa em relação à cremação. 

— O sepultamento mantém a referência do local do corpo, mas é algo mais para nós mesmos. A cremação não interfere na questão da fé, nem na alma, nem na ressurreição.


VOCÊ SABIA?


- A Catedral Diocesana de Caxias do Sul guarda o corpo de três bispos: 
Dom José Baréa (foto), o primeiro bispo caxiense, foi sepultado em 1951, sob a cruz situada no lado esquerdo do templo. 
Dom Cândido Bampi (1978) e Dom Benedito Zorzi (1988) se encontram no lado direito, sob a imagem de Nossa Senhora da Glória.


- Dois padres também estão sepultados em igrejas caxienses: na Igreja São Pelegrino está o corpo do padre Eugênio Giordani, e na do Pio X, do padre Ênio Tarrasconi

- No Vaticano, a cripta da Basílica de São Pedro guarda as sepulturas de vários papas, inclusive a que seria do próprio Pedro; a mais visitada é a do agora santo João Paulo II, que desde sua beatificação foi transferido para dentro da própria basílica (e cuja imagem pode ser conferida em tempo real por meio de uma webcam ali instalada)

- Vários cemitérios são considerados pontos turísticos, como o Recoleta, em Buenos Aires (que abriga, entre outros, os corpos de Evita Perón e do escritor Adolfo Bioy Casares), e o Père Lachaise, em Paris (onde estão sepultadas várias personalidades, como o fundador do espiritismo, Allan Kardec, e os escritores Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Jean de La Fontaine e Marcel Proust)

- Outros locais ligados à morte e que costumam atrair milhões de turistas são as catacumbas de Paris e as pirâmides do Egito

- Na mitologia grega, o responsável por levar as almas dos mortos era Caronte, o barqueiro de Hades, que atravessava o rios Estige e Aqueronte, na divisa do mundo dos vivos e dos mortos

- A representação da morte como um esqueleto com uma foice ou segadeira surgiu e se firmou no imaginário popular durante a Idade Média

- A cor associada ao luto varia muito: embora no Ocidente predomine o preto, nas civilizações orientais costuma ser o branco; na África do Sul, é o vermelho; no Egito, o amarelo; no Irã, o azul

- A forma de lembrar os mortos também difere de país para país; no México, por exemplo, a celebração do Dia de Los Muertos inclui festa, caveirinhas coloridas e comidas; no Japão, arroz e algas são levados aos cemitérios; na Guatemala, as pessoas empinam pipas coloridas lembrando as almas dos entes queridos; nos EUA, o costume é lembrar os soldados que morreram pelo país, durante o Memorial Day

- Independentemente da crença, o Cemitério Municipal de Caxias do Sul deve receber muita gente neste final de semana: afinal, o espaço abriga os corpos de aproximadamente 100 mil pessoas. 

Além deste, que é o maior do município, Caxias abriga cerca de uma centena de outros cemitérios.

Fonte: O Pioneiro

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