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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Práticas funerárias nos Estados Unidos

Talvez a característica mais marcante das práticas funerárias nos Estados Unidos é a negação da morte. Realmente, pode-se ver facilmente que a palavra morte é cuidadosamente evitada, e termos como "passou desta vida," ou "faleceu," ou "expirou," são usados.
Geralmente a família procura distanciar-se do processo, e por isso todos os detalhes e arranjos são deixados por conta dos profissionais funerários. Na realidade, o processo de distanciamento começa bem antes da morte. Quando os membros de uma família começam a dar sinais de envelhecimento ou de doenças fatais, eles são relegados a casas de recuperação, asilos, ou hospitais para morrerem, longe da família e dos amigos – longe dos olhos, longe do coração.

Quando a morte ocorre, a casa funerária é notificada e seus agentes transportam o corpo da casa de recuperação, asilo, ou hospital diretamente à casa funerária. Lá o corpo é embalsamado e vestido, maquiagem é aplicada, e o corpo é colocado em um caixão caro, o qual é então colocado em um salão cheio de flores, decorado, e iluminado de forma apropriada. A música de fundo também é escolhida para a ocasião. Uma vez que tudo isto é organizado, um tempo determinado, em geral 2 ou 3 horas, fica estabelecido para a "visita". Este período de tempo é quando os membros da família passam pela casa funerária para prestar seus últimos respeitos e para mostrar sua responsabilidade social, já que participam com sua presença nesta situação tão desconfortável. Além do mais, a família aproveita esta ocasião para mostrar sua posição social ao exceder-se em elegância nestes rituais funerários.

Estas visitas antigamente eram feitas nas próprias residências, e eram chamadas velórios, mas tal não acontece mais, devido às limitações do espaço privado causadas pela urbanização, e a profissionalização, ao mesmo tempo, do processo funerário. Se o corpo pode ser restaurado a uma aparência quase-viva, o caixão é deixado aberto durante a visita para reforçar a negação da morte. O cumprimento mais ouvido nestas ocasiões é o clichê: "Ele (ou ela) parece vivo!" Isto é, naturalmente, mentira, porque o defunto em geral tem aparência melhor que tinha quando vivo, e certamente muito melhor que teve durante seus últimos anos em uma casa de recuperação, asilo, ou hospital, graças à mágica da maquiagem funerária, perfumes, e iluminação.

No dia seguinte o caixão é colocado num carro funerário e levado até a tumba onde, depois de umas poucas e bem escolhidas palavras por parte de algum dignitário religioso, o dito caixão é colocado a seis pés de profundidade e coberto com terra.  Por lei, um diretor funerário deve estar presente. Daquele ponto em diante, o cuidado da tumba é deixado a cargo dos profissionais funerários que são donos do cemitério, os quais ficam responsáveis pela manutenção do lugar e da campa. Deve-se lembrar que, diferentemente de outros países, a Alemanha por exemplo, em que o lugar da tumba é apenas alugado, nos Estados Unidos os lotes dos cemitérios são vendidos, geralmente muito tempo antes da morte do futuro ocupante. Freqüentemente o caixão é colocado em uma urna fechada que o preserva e ao seu ocupante dos estragos causados pelo tempo; esta é uma boa idéia, levando-se em consideração o uso de longo termo da terra em questão.  Estes cemitérios devem ser licenciados, e são os únicos lugares em que um corpo pode ser legalmente enterrado. Além disso, o médico legista local deve dar o certificado de óbito, estipulando a hora e a causa da morte, antes que qualquer um seja enterrado. Se a causa da morte for suspeitosa, as autoridades legais podem ordenar uma autópsia, com ou sem o consentimento dos sobreviventes familiares. Uma vez enterrado, um corpo não pode ser exumado sem permissão legal e documentação.

Todos estes preparativos e assistência por parte de profissionais funerários treinados e licenciados não são baratos. De acordo com Jared Jenkins, da Casa Funerária Fred Jenkins em Morgantown, West Virginia, o custo médio de um funeral nos Estados Unidos é de aproximadamente seis mil dólares, e pode facilmente ser muito mais caro. Só caixão já pode custar os seis mil dólares, o preço das urnas varia de quatrocentos a oito mil dólares, e se a pessoa quer ser enterrada em uma cripta, ele ou ela terá que pagar um mínimo de doze mil dólares pelo privilégio. O preço dos lotes nos cemitérios podem também chegar a milhares de dólares, e o mesmo acontece com os serviços prestados pelo diretor funerário e pela casa funerária.

Devido aos gastos, a cremação está se tornando cada vez mais a alternativa mais popular ao enterro. De acordo com Jenkins, a cremação é preferida em 25% dos ritos funerários urbanos nos Estados Unidos, mas tal prática é quase totalmente desconhecida na população rural do país, a qual tende a ser muito mais tradicional e conservadora em suas práticas rituais.  Enquanto que as práticas e atitudes mencionadas são típicas dos Estados Unidos, há alguma variação no país devido às práticas dos muitos grupos minoritários que vivem aqui. Estas diferenças culturais tendem a diminuir com o tempo, quando os filhos se casam com pessoas da maioria cultural. Mas ainda assim, algumas diferenças persistem.

Como exemplo, podemos apontar o caso dos americanos de cultura judia, africana, e mexicana como típicos dos que derivam grande conforto da manutenção de certos rituais da sua herança cultural. A religião judia enfatiza tanto a obrigação de honrar o morto, kavod hamet, e a necessidade de confortar os que estão de luto, nichum avelim. Mas a assimilação cultural também profissionalizou os rituais judeus: as preparações funerárias, antigamente feitos por um grupo de pessoas amigas da família, cheura kadisha, agora são feitas por profissionais. Estas preparações incluem a tahara, ou preparação do corpo, e depois o envolver do corpo em um tecido de linho, o tachrikin. Geralmente a cerimônia é feita na casa funerária ou sinagoga, e inclui um “enlutado oficial,” um punhado de terra de Israel para ser jogado no caixão, e depois do enterro há um período de luto de sete dias, chamado shivah. A cremação é uma ocorrência rara, porque evoca lembranças do Holocausto. Mas mesmo entre os judeus, há variações dependendo da denominação.

Os rituais funerários africano-americanos têm suas raízes na África, especialmente na música de igreja, que é uma parte integral destes rituais. Este também é o caso da participação social que vai além dos membros da família e abrange, assim como fortalece, a comunidade maior, e especialmente a comunidade da igreja. Os americanos nativos, por sua vez, têm práticas muito distintas umas das outras, e  cada grupo tribal observa tradições diferentes. Os apaches, por exemplo, acreditam que o corpo morto é um receptáculo vazio, enquanto que os dakotas o consideram sagrado, com uma alma que continua a viver na terra espiritual de Wagagi McKoce. Em contraste, os navajos simplesmente não acreditam numa vida após a morte. Os rituais funerários dos mexicano-americanos tende a seguir um padrão estabelecido pela primeira geração que imigrou aos Estados Unidos. Em geral, os membros da primeira geração seguem os rituais do luto muito mais rigidamente que as gerações seguintes, que se assimilam e passam a seguir os rituais americanos devido à maior escolaridade e melhor nível econômico. Algumas tradições permanecem, entretanto, em parte devido ao envolvimento constante da igreja católica, e aqui podemos citar as novenas que são rezadas durante os nove dias do período de luto, a participação na igreja com velas acesas, assim como as orações diante de altares tanto na igreja como nas casas durante este período de luto.

Finalmente, podemos observar que, embora os processos de luto e tristeza são variados e ao mesmo tempo fundamentalmente homogêneos em sua visão filosófica do que é a morte nos Estados Unidos, podemos concluir que estes processos servem as mesmas funções que os rituais funerários servem em todas as culturas, que é a de manter a coesão social em face da morte certa e da inevitável dissolução do corpo social e humano.



Para mais leitura sobre o assunto:

Berger, A.  Perspectives on Death and Dying.  Philadelphia: Charles Press, 1989.

Candelana, E., and A. Adkins.  “A Mexican-American Perspective on Death and the grief        Process."  The Forum Newsletter  (1994): 1-5.

Canine, John D.  The Psychological Aspects of Death and Dying.  New York: McGraw Hill, 1996.

Cook, A.S., and D. Dworkin.  Helping the Bereaved.  New York: Harper Collins, 1992.

Craggett, F.T.  A Form Critical Approach to the Oral Traditions of the Black Church as they relate

to the Celebration of Death.  Ph.D. diss.  Claremont School of    Theology, 1980

Fulton, R.  Death and Identity.  New York: John Wiley and Sons, 1965.

Irish, D., K. Lindquist, and V.J. Nelson.  Ethnic Variations in Dying, Death, and Grief. Washington D.C.: Taylor and Francis, 1993.

Rando, Therese.  Death, Dying, and Grief.  Champaign, IL: Research Press, 1984.

Worden, W.I.  Grief Counseling and Grief Therapy.  New York: Springer, 1992.

Fonte: Espaço Acadêmico

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