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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Enem dos presidiários, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

Pela segunda vez, a convite da professora Josefina que dá aulas no ensino médio no presídio de Juazeiro, Bahia, vou lá conversar sobre o meio ambiente com os presidiários que se preparam para o Enem. Isso mesmo, eles tem uma prova própria.

O presídio de Juazeiro tem a ala masculina e feminina dos já sentenciados. Tem também uma ala que funciona como cadeia, onde os presos aguardam seus julgamentos. Normalmente essas conversas são feitas com o grupo dos sentenciados e outra com o grupo dos que aguardam seu julgamento. A administração do presídio de Juazeiro está privatizada.

Chama a atenção a quantidade de gente jovem, particularmente entre os já sentenciados. Mas, quando começamos a conversa, impressiona a excelente informação que os presos têm da realidade, inclusive dos problemas ambientais graves que afligem a humanidade. Eles discorrem sobre o ambiente do presídio – são eles que cuidam da manutenção e ali, ao menos no que é possível ver, o ambiente é bem cuidado -, alguns estão iniciando um trabalho de horta e jardinagem – dois agrônomos sentenciados – mas, também falam dos problemas mais amplos como a questão da água, do desmatamento, do aquecimento global com muita propriedade. Eles podem ver televisão.

Segundo Josefina, a professora que sempre me convida para ir conversar com os vestibulandos, quando um deles é aprovado, embora o Estado esteja obrigado a respeitar o direito de ele estudar, na prática é muito difícil. O estudante precisa ir acompanhado de policiais todos os dias para a sala de aula. Poucas vezes, segundo ela, esse fato deu certo aqui na região.

Josefina ainda diz que, em contato permanente com os presos, ela entende que a ressocialização é praticamente um mito. A maioria fica ociosa, o dia inteiro, e resulta no conhecido ditado que “cabeça ociosa é a oficina do diabo”. Aliás, ela como professora, originária das comunidades eclesiais de base, quando teve a oportunidade de combinar a profissão com o serviço, não teve dúvida: optou por dar aulas no presídio.

Desde a outra vez me pergunto: não seria possível instalar os cursos à distância para os presidiários? Claro que não sei como seria possível em termos de segurança. Os poucos que conversei cometeram efetivamente seus crimes, até reconhecem, portanto, não se trata de construir a impunidade, mas o futuro pelo estudo.

Na saída ganhei uma “casa” feita por um rapaz artesão. Impressionante sua habilidade em fazer aquele artesanato, com raro senso de beleza e estética, a partir de pazinhas de sorvete e algum jogo de cores. Outro me mostrou algumas de suas composições de forró, aliás, também muito bem elaboradas.

Que interesse tem realmente a sociedade brasileira na ressocialização de seus presidiários? O estudo poderia ser uma porta de saída não só do presídio, mas da condenação por toda vida ao mundo do crime.

Em todo caso, de coração, desejo boa sorte a todos os presidiários que vão fazer o Enem aos dias 3 e 4 de dezembro.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

Fonte: EcoDebate

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