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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quanto custa para o país não educar propriamente?

Alguém bradou numa edição de VEJA deste ano (24/7): “Dilma, não desperdice nossos recursos nesse sistema educacional”.Repercutido por mais de 1 milhão de exemplares da revista, essa reivindicação parece que caiu no vazio, pois o Palácio do Planalto fez silêncio total, de palavras e imagens. A voz desse pedido, o economista Gustavo Ioschpe, declara ter “apenas um propósito: melhorar radicalmente a qualidade do ensino no país para que possamos dar um salto de desenvolvimento”.

Neste artigo, o primeiro de uma série, o objetivo é basicamente o mesmo, mas vinculado à angustiante preocupação que resulta de constatar os reflexos desse sistema nos candidatos admitidos em empresas, não formados ou deformados por ele nos últimos 20 ou 30 anos. Se a nossa estrutura educacional já fazia água no passado, agora, então, afundou de vez. Ioschpe, analista perspicaz e severo da atual educação brasileira, afirma sem rodeios que nossa educação está irremediavelmente falida. Daí, seu alerta à presidente.

Mas, antes de tudo, é bom saber que “educar propriamente” deve hoje incluir, no mínimo:
  • formar crianças e jovens com caráter de valores éticos individuais, sociais e cívicos, sem o ranço da velha “Educação Moral e Cívica”;    proporcionar melhor formação (não só conhecimento) na área das ciências humanas, tais como filosofia, psicologia, artes, sociologia e antropologia;
  • arraigar nos estudantes o hábito e o gosto ─ se possível, a paixão ─ pela leitura, sobretudo a reflexiva;
  • desenvolver neles – em mundo globalizado como o de hoje – a capacidade para interagir com outros países, propiciando aos discentes, com maior destaque, experiências internacionais, conhecimento de outras culturas e assimilação de línguas estrangeiras.

Não educar propriamente é não ter escolas suficientes, ou as necessárias, ou tê-las e não ter nelas matriculadas todas as crianças e jovens, já que a educação – como determina a Constituição Federal – é “direito de todos e dever do Estado e da família”. É não ter estabelecimentos que primem pela desejável qualidade de primeiro mundo, haja vista os resultados dos ENEMs e as notas atribuídas às escolas. É não melhorar, nos cursos universitários de pedagogia e licenciatura, o preparo de seus futuros profissionais para uma docência concreta e eficaz, com menos teoria inútil. É aceitar como ideal o atual processo de escolha de diretores. É ter um currículo inchado com disciplinas e matérias embutidas nele ao sabor de pretensas necessidades fortuitas. É se conformar com a aceitação dos pais e dos estudantes em relação ao nível rasteiro da educação atual, pois eles se contentam com o sistema medíocre que aí está, já que não conhecem outro. É não se empenhar com firmeza no combate ao absenteísmo docente e discente, e contra o desperdício de tempo na jornada escolar. É não passar e, menos ainda, corrigir um volume razoável de tarefas de casa e não se subsidiarem as escolas com uma ajuda extra as famílias incapazes de dar, nos lares, a assistência aos alunos. A lista das mazelas do vigente sistema escolar brasileiro é sem fim, tornando-o verdadeiramente impróprio para o aprendizado necessário.

E quanto custa, para o país, esse não educar propriamente? Segundo a Education at a Glance (2013), o Brasil gasta em educação básica (educação infantil e ensino fundamental) 4,3% do PIB, ou seja, R$ 74,411 bilhões em projeção para 2013. Isso é pouco ou é muito? Para responder a essa pergunta, o economista antes citado faz uma comparação com o que investem outros países: em média (1970-2012), apenas 3,9% de seu PIB (países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) 5,1%; Finlândia 5,7%; Espanha 3,6%; Inglaterra 5,2%, entre outros). Com tanto recurso, o Brasil poderia fazer muito mais se tivesse a estrutura, a gestão e a seriedade daqueles países. Por essa simples verificação, conclui-se que o sistema educacional brasileiro não está falido por falta de recursos. E o Governo Federal deve ampliar esse gasto a 10% do PIB com a parte dos royalties que lhe cabe na exploração do petróleo do pré-sal, até 2022.

O que nos falta fazer é o educar propriamente, isto é, implantar a educação de qualidade que o país quer ter para as novas gerações, a fim de torná-las competentes nas habilidades exigidas no século 21, visto que o sistema atual já está completamente reprovado pelos seus resultados. Além disso, é preciso repensar, replanejar uma nova lei de diretrizes e bases da educação, ou algo que apague de vez a lembrança de uma legislação de resultados tão desastrosos na formação de cidadãos e mão de obra. É claro que esse replanejamento deve passar por outro mais abrangente: o do país. Restaria descobrir e assumir a vocação específica de país, no contexto global, aquela que é mais conveniente e economicamente rentável e viável para ser realizada pelo Brasil, atendidas suas potencialidades naturais, humanas e aproveitando as atuais e futuras oportunidades mundiais.

* Marcos de Lacerda Pessoa é mestre e doutor em engenharia, tem especialização em antropologia e é superintendente da Universidade Copel – UniCOPEL.

Fonte: Mercado Ético

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