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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Crise civilizatória e sociologia ambiental, parte 2/6, artigo de Roberto Naime

BORINELLI (2007) indica que embora tenham em comum o fato de privilegiarem uma avaliação materialista das inclinações das instituições para a degradação ambiental nas sociedades modernas.


Contrapondo-se às abordagens da sociologia clássica que relegaram a um segundo plano os fatores ambientais na explicação da vida social, se diverge quanto às concepções de processos institucionais que geram a degradação ambiental.

A crítica cultural encontrada em DUNLAP (1997) se dirige ao modo geral de comportamento da sociedade ocidental, indo da produção do conhecimento ao modo de produção e consumo.

Segundo esta, a visão de mundo dominante no ocidente, ou paradigma, que permeia a totalidade das instituições sociais, leva à difusão de normas institucionais fundadas no crescimento, expansão e confiança no progresso material infinito.

Contudo, o chamado Paradigma do Excepcionalismo Humano (Human Exceptionalist Paradigm – HEP), é insustentável ambientalmente.

Os padrões energéticos exigidos e o crescimento populacional extrapolam a capacidade de renovação dos serviços ambientais. Desta forma, todas as sociedades estariam sujeitas a vulnerabilidade ambiental, particularmente com a exacerbação dos problemas ambientais globais.

Por outro lado, este paradigma está fortemente estabelecido na produção científica e se constitui numa tarefa particular fixar e consolidar o campo de estudo da sociologia ambiental contra a relutância da sociologia clássica, em particular na tradição Durkeimiana, de apenas explicar o fenômeno social através de outros “fatos sociais”. (DUNLAP, 1997).

Assim, uma das preocupações presentes nos trabalhos de DUNLAP (1997), era reorientar a teoria sociológica no sentido de comprovar a relevância dos fatores biofísicos na explicação das instituições e comportamentos humanos.

Nesta vertente da sociologia ambiental, o reconhecimento das dimensões da crise ambiental contribuiria para uma mudança de paradigma na direção de um Novo Paradigma Ecológico (New Ecological Paradigm – NEP), na sociedade e nas ciências para a rejeição da visão antropocentrista do mundo ocidental (BUTTEL, 1997, p.45).

Não se observa alteração conceitual importante entre esta abordagem e uma nova autopoiese sistêmica no sentido livre da concepção encontrada em Niklas Luhmann, Ulrich Beck e em outros autores.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos chamados círculos virtuosos da sociedade.

O aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda.

No entanto, o consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

Por isso se sabe que leis e normas e regimes políticos, não vão resolver os problemas, embora sejam relevantes.

O socialismo que ocorreu no planeta também incrementava crescimento contínuo, incompatível com o caráter finito dos recursos naturais e ambientais.

A abordagem sociológica e antropológica alicerça movimentos da sociedade que propugnam alterações ideológicas como apanágios para a solução de problemas ambientais.

Mas acaba não ocorrendo encaminhamento de soluções, pois tanto vertentes socialistas como da livre iniciativa rezam pela cartilha de crescimento permanente como forma de incrementar círculos econômicos virtuosos.

Uma poderosa e ampliada pressão institucional conduziria a uma expansão da degradação ambiental do nível local para o nível global, contando com o apoio estatal e o consentimento social. Uma decorrência disto é que a intensificação da globalização reforça os moinhos nacionais da produção.

A coincidência de interesses sociais em torno da “máquina do crescimento” é retratada na ideia de coalizões do crescimento.

Estas coalizões estão focadas sobre a expectativa de que cada um, estado, empresariado e cidadãos, desejam direta ou indiretamente beneficiar-se do crescimento dos subsídios públicos para investimentos privados em infraestrutura (LOGAN e MOLOTCH, 1987 apud BUTTEL, 2000).

Também se observa nos movimentos sociais o principal mecanismo para a reversão social da degradação ambiental.

O enfrentamento da crise ambiental dependeria dos efeitos da mobilização dos movimentos ambientais sobre a ação estatal, o que só aconteceu até agora em baixo grau, conforme BORINELLI (2007).

As possibilidades de reversão da crise ambiental nas coordenadas institucionais assinaladas, com maior ou menor possibilidade de ocorrer injetam ânimo. Pois se acredita na civilização humana.

Referências:

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BORINELLI, Benilson, Instituições e Crise Ambiental: Contribuições da Sociologia Ambiental, Serviço Social em Revista, Volume 9 – Número 2, Jan/Jun 2007



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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