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sábado, 26 de novembro de 2016

Donas da morte: conheça as mulheres que dão novo tom ao "rito final" em SP

Projeto de humanização foi criado pela equipe da primeira gestora mulher do Serviço Funerário


Transformar morte em vida. Esse é o desafio do projeto Memória e Vida, do Serviço Funerário Municipal de São Paulo, que em nada se assemelha aos relatos de milagres. Uma pitada de cidadania e humanização foi o necessário para revolucionar a forma como a capital paulista tem lidado com o luto e, principalmente, com os cemitérios. E foi na gestão de uma mulher que essa transformação começou.

O projeto foi idealizado pela equipe da primeira superintendente mulher do Serviço Funerário Municipal, a gestora pública, agrônoma e advogada Lucia Salles França Pinto, de 55 anos, que, em dois anos e dez meses, levou iluminação, cultura, arte e cuidados com as famílias para esses espaços públicos reduzidos, antes, a depósitos de corpos e morada da tristeza, que, no máximo, promoviam visitas guiadas a túmulos de mortos famosos.

Mas Lucia não está só. Faz parte da sua equipe pelo menos oito administradoras mulheres, que têm humanizado o processo funerário e lidam diariamente com funcionários, famílias arrasadas, burocracias e o tabu da morte, que carregam para onde vão: rodas de amigos, família e relacionamentos amorosos. 

Lucia tem sorriso fácil. Articulada e tom de conversa confiante, a superintendente contou ao R7, com ar de orgulho, as mudanças que trouxe para a secretaria. Entre seus projetos está a Arte Tumular (que valoriza peças de artistas como do escultor Victor Brecheret no Cemitério Consolação), corrida em homenagem à memória, Cinetério (exibições de filmes), plantio de árvores, troca de muros por grades, iluminação. A ideia, segundo Lucia, é ocupar um espaço público, que deve ser visto como qualquer outro.

— Quando chegamos o serviço estava desmantelado. A Controladoria Geral do Município assumiu o combate à corrupção, que era muito presente no Serviço Funerário, e ficamos com a gestão. Isso deixou o caminho livre para os cuidados.

A possibilidade de ter que lidar com áreas apontadas como "problemáticas" quase fez Lucia desistir do convite feito pelo prefeito Fernando Haddad (PT), que, segundo ela, procurava por uma mulher para ocupar o cargo.

— Eu neguei primeiro. Falei que tinha vida simples. Tinha filhos jovens. Estava próxima de me aposentar. E disse que não poderia enfrentar a situação, além de que acontecia muita coisa por fora. Mas quando soube que a Controladoria iria pincelar as áreas com problema, eu aceitei. O serviço funerário estava precisando de uma mulher, que tem um olhar em leque. É um serviço transversal que precisa de olhar de cuidado. Sabemos se o vizinho está doente, sabemos da professora do filho, se a irmã precisa de algo, se é aniversário da sogra. A gente cuida para urdir os tecidos sociais.

Apesar de não estar restrito ao gênero feminino a capacidade de prover cuidados, no Serviço Funerário, o perfil maternal e sensível é bastante presente nas três administradoras com quem o R7 conversou. Sorriso fácil, voz suave, tom zeloso e paixão compõem essas características que apenas complementam a capacidade de gestão e de resolução de problemas, que não são poucos e vão de "truque" de funcionários, passando pelas ações de desespero de familiares até o acompanhamento da troca de gás dos fornos do crematório.

Cidinha do Cemitério

Maria Aparecida Geraldo Ribeiro está há 11 meses à frente da administração do Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, zona leste de SP. É nesse cemitério que estão enterradas algumas das vítimas do incêndio do Edifício Joelma, no Centro de SP, que deixou 191 pessoas mortas. Treze delas jazem no Túmulo das 13 almas, um ponto turístico do espaço.

O apelido Cidinha do Cemitério foi dado pelos amigos que passam longe de entender o trabalho de Maria. Durante a entrevista, as risadas destoavam do semblante sério da administradora. Ironica, Maria contou como certa vez teve o mesmo problema que muito munícipe tem: chegar para visitar um parente e o corpo ter sido exumado.

— As pessoas esquecem que, depois de um período, tem que pedir a exumação do corpo, senão a prefeitura tem o direito de fazer isso, para dar lugar a um novo corpo. Visitei meu avô do cemitério e pouco tempo depois meu irmão foi fazer o mesmo e ele não estava mais lá. A maioria das pessoas tem o costume de fazer essas visitas só quando morre outra pessoa e vai ao velório. Muita gente quer brigar por causa disso, mas não temos como avisar.

Brigas como essa rendem problemas que Maria associa ao machismo. A administradora afirma que a mulher é mais sensível, mas até certo ponto, porque ao mesmo tempo é rígida.

— O munícipe se depara com uma administradora e acaba tentando nos obrigar a burlar a legislação para ter o que quer. Eles querem se sobrepor. Eu sinto que isso acontece porque sou mulher.

"Queima tudo junto?"

Administrar um cemitério gera curiosidade em algumas pessoas, mas essa curiosidade aumenta quando Filomena Falconi, de 49 anos, se apresenta como administradora do único crematório da cidade, o Crematório da Vila Alpina, na zona leste de SP, vizinho ao Cemitério São Pedro.

Com a voz doce e sorriso meigo, quem não a conhece não espera ouvir sua profissão quando puxa conversa.


— Todo mundo fica em silêncio, mas depois começam a fazer perguntas, como, por exemplo, se queimamos todos os corpos juntos. Na escola, os amigos dos meus filhos perguntavam quantos corpos eu tinha queimado naquele dia. É tudo brincadeira, mas acontece.

Os cemitérios sempre estiveram presentes na sua vida. Filha de um dos ex-administradores do Cemitério São Pedro, Filomena começou sua carreira no Serviço Funerário em 1987, mas com a garantia de que só ficaria por três meses.

— Comecei como escriturária e era por um período curto, mas acabei gostando e nunca mais sai. A família está acostumada. Nós éramos bem tranquilos com cemitérios, por meu pai trabalhar em um. Mas quem é de fora e ouve o que eu faço sempre fica em choque.

Além de ficar de olho no serviço prestado pelos servidores, olhar forno, controlar a média de 28 corpos incinerados diariamente e controlar o gás, Filomena, assim como suas colegas, coloca a mão na massa e vai acalantar as famílias sempre que necessário.

— Tem que ter sensibilidade, mas ela tem que ser trabalhada. Não adianta você chegar e começar a chorar junto com a família. Pode ficar sensível, mas tentando ajudar.

Entre as curiosidades do trabalho apontadas por Filomena está o fato de ter que lidar com a playlist que toca durante a cerimônia de cremação. As famílias tem a opção de escolher as músicas mais queridas dos mortos, porém, tem a lista de hits.

— Ave Maria, Pai Nosso, Nossa Senhora, do Roberto Carlos, e o hino do Corinthians são as músicas mais tocadas no crematório.

Atualmente, o espaço conta com quatro fornos. A mudança do tipo de gás é um dos trunfos da gestão da superintendente. O GNP foi trocado por um gás mais leve e mais seguro. Filomena acompanhou a troca.

Já as cinzas, muitas vezes, são despejadas no próprio jardim do crematório.

Mãe do Dom Bosco

Irisdalva Reis Souza, 59 anos, é, há quatro anos, administradora do cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte de SP. Dalva é o segundo apelido e o terceiro é "mãe". O que impulsionou Dalva a entrar no Serviço Funerário foi a curiosidade, porque, na verdade, sua área de trabalho sempre foi educação. Os empecilhos não foram poucos e quase a fizeram desistir, principalmente quando viu que teria que gerir pessoas experientes do setor.

— Quando eu cheguei lá no primeiro dia e me apresentei como administradora eu fiquei um pouco assustada. Eu achei que não ia dar conta de conduzir o cemitério. Em relação a tudo: a burocracia, a lidar com os funcionários, que já são todos antigos, com mais de 20 anos de casa. Eu fiquei assustada. Cheguei em casa e falei para minha filha: não volto mais lá. Falei que toda minha curiosidade tinha acabado de acabar.

Mas não precisou de muito tempo para conquistar os funcionários e começar a ser chamada de "mãe" e ela também os trata como a alcunha pede.

— As pessoas gostam de mim e eu me dei muito bem com meus funcionários. São maravilhosos, são meus bebês. Consegui aprender, fui perguntando. Cuido de tudo. Dos funcionários a folhinha que cai no chão.

Dalva conta que os funcionários dizem que ela tem o dom de acalantar as pessoas e ela usa essa característica para humanizar o serviço.

— Meu desafio é tentar deixar as famílias mais calmas, mais tranquilas e mais confortáveis. É muito difícil. Eu gosto de conversar quando eu vejo que a família está muito agitada, magoada, brava. Eu chego, me apresento, pergunto o que aconteceu e dou palavras de conforto.  Não sei se isso me deixa fortalecida, contente. Quando eu vejo que meus funcionários não estão atendendo o munícipe do jeito que eu acho que tem que ser atendido, eu levanto e tomo conta da situação. A gente é mulher, a gente é mãe, a gente é esposa, filha. Temos um contexto desse na vida para poder passar para alguém. E se colocar no lugar do outro, no momento de desespero.

O Cemitério Dom Bosco é conhecido por ser onde foram encontrados mais de mil corpos de pessoas mortas no período da ditadura, que foram enterrados sem registro. No espaço há um mural em homenagem às vítimas e a vala onde os restos mortais foram colocados também é um ponto de visitação.

Fonte: Portal R7

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