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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Darwin, transgênicos e imunodeficiência, Parte 1/2, artigo de Roberto Naime

No curso da evolução, entendida não como um processo teleológico ou rigidamente determinado, mas como um processo que contém a cada etapa colossais níveis de contingência, as espécies, inclusive os seres humanos, tornaram se adaptadas aos seus ambientes por meio de um processo de seleção natural de variações inatas, operando numa escala cronológica de milhões de anos. Então, segundo esta perspectiva, nós deveríamos ter muita cautela ao fazer mudanças ecológicas fundamentais, reconhecendo que, se introduzirmos no meio ambiente substâncias novas, que não sejam produto de uma longa evolução, estaremos brincando com fogo”.

John Bellamy Foster


[EcoDebate] Antônio Inácio Andrioli refaz trajetória de Charles Darwin, que criou a teoria da evolução e superou a até então dominante, teoria da teologia natural.

Ao contrário da explicação criacionista para o surgimento da vida, a teoria da evolução afirma a mutabilidade das espécies, baseando-se na adaptação dos seres vivos ao ambiente, através da variação e da seleção natural.

Darwin considerava a seleção natural o mais importante mecanismo da evolução e, com isso, esclareceu o desenvolvimento de todos os organismos vivos e sua divisão em diversas espécies. De acordo com essa concepção, do excesso de indivíduos sobreviveriam apenas aqueles que melhor se adaptam às condições ambientais.

Somente bem mais tarde, nos anos 1930, a teoria da seleção natural desenvolvida por Darwin foi combinada com as regras da hereditariedade de Mendel, originando a teoria sintética da evolução.

A enorme força dessa teoria se tornou um princípio organizativo central da Biologia moderna e constitui a explicação mais atual para a diversidade da vida no planeta. O que isso teria a ver com transgênicos?

Por isso se propugna que mecanismos de proteção de espécies vegetais, que podem até interferir na seleção natural, ainda que involuntariamente, são temerários, sem compreender todas as relações implícitas ou explícitas, e não lineares ou cartesianas da homeostase dos ecossistemas.

Assim, parece um pouco pretensioso na atual fase de conhecimentos da civilização humana, implementar estes incrementos sem considerar os princípios de precaução e sem mobilizar tentativas mais sistêmicas e holísticas de se apropriar da realidade.

A transgenia surgiu do desenvolvimento de diversos conhecimentos nas Ciências Naturais. Após as teorias de Darwin e Mendel, foi fundamental para a transgenia a descoberta do DNA (ácido desoxirribonucléico) e a constatação de que neles estavam os genes, dispostos numa determinada sequência, sendo responsáveis pelas características hereditárias.

Até esse ponto há um consenso de que o desenvolvimento científico constitui um enorme progresso, que desperta grandes esperanças para a criação de plantas e animais. Mais tarde, se descobriu que o DNA é recombinante e que, com o auxílio de enzimas, que assumem uma função similar a uma tesoura, é possível isolar e recortar suas partes.

Já essa intervenção em seres vivos está associada a muitos riscos. O desenvolvimento da ciência, entretanto, foi muito mais longe, de forma que se tornou possível introduzir em um ser vivo, as partes recortadas do DNA de outro.

Isso é possível através da “pistola de DNA”, com a qual células com partículas de metal são pressionadas, para que determinado gene penetre o genoma de uma planta e do uso de agrobactérias, que causam um tumor na planta, permitindo uma transferência de genes que supera barreiras reprodutivas existentes entre espécies.

Muitas vezes se procura confundir melhoramento genético com transgenia, utilizando conhecimentos da Biologia e da Genética. Embora os conceitos não sejam idênticos, o principal argumento comparativo é que no decorrer da história, o DNA de plantas teria sido modificado mesmo sem o uso da transgenia.

Com base na concepção darwiniana da natureza é possível explicar que, no decorrer da evolução, ocorreram mutações, responsáveis pela transferência de genes entre as espécies.

Diferente do melhoramento genético tradicional, entretanto, a transgenia é uma técnica de transferência de genes entre espécies.

Em uma planta, por exemplo, o milho, são introduzidos genes da bactéria “Bacillus Thuringiensis”, que produz uma toxina nociva a determinados insetos. Trata-se de um cruzamento entre espécies que na natureza não se cruzam.

Se parte do pressuposto de que a sequência genética tenha sido constituída por acaso e que a modificação transgênica resultaria apenas em vantagens.

As multinacionais da indústria química e seus defensores trabalham com o argumento de que a transgenia seria objetiva, isto é, que os genes seriam isoláveis e objetivamente transferíveis entre os seres vivos e que, no caso dos novos genes inseridos, seria verificável apenas o efeito intencionado. Essas afirmações não são comprovadas cientificamente.

Através dos métodos atuais de transgenia os genes são inseridos espontaneamente, de forma que permanece desconhecido o local exato da inserção no genoma do organismo receptor, assim como a frequência da integração.

Por isso, é falso afirmar que a vantagem da transgenia em relação ao melhoramento genético tradicional seria o fato de poder incidir de forma mais objetiva sobre a reprodução das plantas.

A genética molecular está sendo simplificada pelo conceito da transgenia como metodologia de cultivo de plantas, reduzindo-a a unidades aproveitáveis.

Com isso, se subestima o fato de que uma planta não consiste, simplesmente, na soma de genes, que a regulagem genética funciona em rede e que há uma diversidade de interações de um organismo com o meio ambiente, como consequência de sua capacidade histórica de adaptação.

Está se afirmando que a ordem dos fatores pode alterar o produto, não se sabe. Não se pode reduzir simploriamente a questões de funcionalidades orgânicas ou ecossistêmicas. Podem não haver influências. Ou podem haver e se descobrir muito tarde para fins de remediação, não só alimentando as fantasias hollywoodianas.

A ficção se inspira e precede a realidade.

Referência

FOSTER, John B. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 2005, p. 30

ANDRIOLI, Antônio I. Biosoja versus Gensoja: Eine Studie über Technik und Familienlandwirtschaft im nordwestlichen Grenzgebiet des Bundeslands Rio Grande do Sul (Brasilien). Frankfurt am Main: Peter Lang, 2007, p.166.

ANDRIOLI, Antônio I. & FUCHS, Richard (Org.) Transgênicos: As sementes do mal. A silenciosa contaminação de solos e alimentos. São Paulo: Expressão Popular, 200, p. 239.

ANDRIOLI, Antônio I. Biosoja versus Gensoja: Eine Studie über Technik und Familienlandwirtschaft im nordwestlichen Grenzgebiet des Bundeslands Rio Grande do Sul (Brasilien). Frankfurt am Main: Peter Lang, 2007, S.81.

http://www.espacoacademico.com.br/095/95esp_andrioli.htm



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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