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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Darwin, transgênicos e imunodeficiência, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime

Antônio Inácio Andrioli embora a maioria dos cientistas financiados pela indústria química continue ignorando os dados disponíveis, determina que a experiência com o cultivo de transgênicos demonstra que essas plantas apresentam uma menor produtividade e carecem de um maior uso de agrotóxicos em relação às plantas convencionais.


É sempre bom lembrar que a realidade dos transgênicos, não passou nem perto de solucionar o problema da fome, que depende da distribuição de riqueza.

Ainda se está longe de entender adequadamente os transgenes em toda sua cadeia produtiva.

Os transgênicos podem contaminar o meio ambiente, interferir na biodiversidade e alterar os ecossistemas, ou não.

Mas se houver interferência, as contaminações podem ser responsáveis pela padronização e empobrecimento da biodiversidade ou por efeitos deletérios e inimagináveis a longo prazo. Ou podem não produzir efeito algum. Não se sabe. É incrível esta capacidade que a civilização humana exibe de produzir avanços rumo à surpresa, imprevisão e ao desconhecido.

Lembra ocorrência de ser mordido por cão de trajetória não domesticada, que não se sabe ser raivoso ou não. Se não forem adotadas normas e protocolos de precaução, depois de identificada contaminação, só resta alternativa mórbida.

Assim se reconhece que os malefícios da transgenia podem não ocorrer. Mas se ocorrerem, pode não haver nada a fazer depois de sua instalação. Como a filmografia ficcional de “Hollywood” vive mostrando.

Não faz sentido exercer qualquer condenação prévia e apriorística da biotecnologia ou de qualquer substância química, com apropriação dogmática. Qualquer inovação tecnológica teve como estimulação, os benefícios que podem ser gerados, embora possam ter trajetória tão diferenciada quanto são as intenções e predisposições de toda humanidade.

Assim, todos os procedimentos merecem isenção e avaliações em cada caso, e não condenações gerais de qualquer natureza, que respondam a anseios dogmáticos ou políticos.

Conforme já se referiu, mesmo que não se apregoe qualquer restrição às evoluções científicas que inegavelmente são representadas por incrementos na transgenia, não custa nada admoestar a todas as partes interessadas que é preciso ter um pouco de humildade.

Os mecanismos de proteção que podem até interferir na seleção natural, e produzem complexas reações bioquímicas, são temerários, sem compreender todas as relações implícitas ou explícitas, e não lineares ou cartesianas da homeostase e do equilíbrio dos ecossistemas.

É pretensioso na atual fase de conhecimentos da civilização humana, implementar estes incrementos, sem considerar a precaução e sem mobilizar tentativas mais sistêmicas e holísticas de se apropriar dos cenários.

A ideia de que um gene teria apenas uma determinada função foi superada em 2001, quando se constatou que o ser humano não possui 100 mil genes, como se estimava até então, mas apenas em torno de 30 mil, os quais são responsáveis pela produção de cerca de 1 milhão de proteínas.

A partir dessa constatação, se parte do pressuposto de que 40% dos genes humanos sejam responsáveis por muitas e mais complexas funções do que se supunha até então.

As consequências da interferência do contexto em que um organismo vive em relação ao seu desenvolvimento aumentam as dificuldades da ciência, pois não bastam os resultados de pesquisas em laboratório, se a possibilidade de sua generalização para além desse ambiente é muito reduzida.

Mas, já se sabe que um gene não atua de forma isolada e que a sua ação é condicionada pela base genética e pelo ambiente onde ele se situa.

A indústria da transgenia tenta suprimir os riscos apresentados pelos produtos transgênicos, tendo como fundamento razões econômicas. Na avaliação dos riscos, parte-se de uma chamada “equivalência substancial” entre organismos transgênicos e convencionais, sendo que são estudados, de forma exclusiva, os genes, sem abordar os efeitos destes a partir do contexto em que estão inseridos.

Os genes de seres humanos e de macacos, por exemplo, coincidem em 99%, o que deixa claro que a mera análise genética pouco esclarece sobre a composição de um organismo. No que se refere à soja, entre seus 100 a 200 mil genes, apenas 20 foram estudados, algo em torno de 0,01% a 0,02% do genoma dessa planta.

Diante disso, fica claro que o princípio de uma “equivalência substancial” entre a soja transgênica e a convencional é avaliado mais por um desejo econômico do que pela seriedade científica, conforme Antônio Andrioli.

A argumentação dos defensores dos transgênicos geralmente ignora a principal tese de Darwin, de que a evolução se desenvolveu de acordo com determinadas condições ambientais, que conduziram a uma adaptação e seleção dos seres vivos.

Com base nesse referencial teórico, Andrioli diz que é possível argumentar que a estrutura de genes de um ser vivo é resultado da sua capacidade de adaptação às condições ambientais. Através do melhoramento genético se busca interferir artificialmente nesse processo de adaptação, de forma que, através de cruzamentos, as características desejáveis à agricultura possam ser obtidas de forma planejada.

Como a atividade de um gene depende de sua posição exata, do ambiente celular e do meio ambiente, é muito improvável que a integração de um novo gene tenha apenas uma função, sendo difícil excluir efeitos colaterais indesejados, como, por exemplo, a produção de novas substâncias tóxicas.

Ou seja, confirma-se a proposição de que a ordem dos fatores altera o produto e as complexidades sistêmicas sofreram processo grave de reducionismo científico.

Ainda que se desenvolvam novos métodos para garantir o controle de genes inseridos, os efeitos colaterais não serão menores. Pelo contrário: a probabilidade só pode crescer na medida em que o metabolismo da planta aumentar em complexidade.

Nós estamos diante de um fenômeno de alta complexidade, segundo Andrioli. É possível que a interferência transgênica no DNA de uma planta possa interferir de tal forma na sua capacidade de adaptação ao ambiente, que o seu sistema imunológico seja prejudicado. Seguindo a concepção de natureza de Darwin, essa possibilidade existe.

Se a sequência genética não surgiu por acaso, sendo o resultado de milhares ou até milhões de anos de adaptação e seleção natural, podemos pressupor que uma alteração artificial do DNA de um ser vivo tenha consequências sobre a sua capacidade de adaptação.

Já se sabe que, na natureza, as plantas mais fracas tendem a ser mais atacadas por pragas do que as outras. Isso pode ser explicado pelo mecanismo de seleção natural.

O que aconteceria com plantas que foram modificadas artificialmente pela transgenia, de tal forma que foram submetidas a um processo de evolução acelerada ou retardada? Na melhor das hipóteses, essas plantas não estariam adaptadas às atuais condições ambientais. Que efeitos poderiam ser esperados nesse caso? Se essa hipótese for confirmada, podemos pressupor que as plantas transgênicas não conseguirão se afirmar, porque, em relação às outras plantas, elas não estariam em condições de se adaptarem ao meio ambiente.

Seria necessário adaptar a natureza às plantas, pois, do contrário, elas não sobreviveriam. Essa era a concepção da maioria dos cientistas protagonistas da fracassada “Revolução Verde” na agricultura, quando entendiam que a modernização da agricultura se daria da mesma forma que a industrialização.

Os argumentos dos defensores dos transgênicos são os mesmos da época da “Revolução Verde”, como maior produtividade, menos custos de produção e combate à fome. Os resultados desse processo, no entanto, hoje são evidentes, mesmo que, nos primeiros momentos, a produtividade tenha aumentado, ela foi diminuindo gradativamente, os problemas técnicos, as aplicações de agrotóxicos e os custos de produção aumentaram.

Embora através da técnica se tenha tentando diminuir a influência de processos biológicos sobre a agricultura, os limites desse processo continuam existindo, mesmo em variedades de plantas altamente desenvolvidas, conforme Andrioli.

A natureza influencia e determina consideravelmente os processos produtivos na agricultura Alterações nesses fatores apresentam limites econômicos e técnicos. Estas tecnologias são viáveis somente no caso de determinados produtos e grupos de produtos, mas os custos se elevam em áreas de cultivo intensivo e, a partir de um determinado momento, se tornam economicamente inviáveis.

A tecnologia agrícola carece da adaptação ao meio ambiente, e não inversamente, como no caso da indústria, onde o ambiente pode ser adaptado à produção e há condições de separar o processo produtivo da natureza.

A transgenia não funciona na agricultura, porque a sua lógica não considera os mecanismos da natureza e seu método está invertido: se procura desenvolver soluções antes de tentar entender as causas dos problemas. Por exemplo, há pouca pesquisa para entender porque uma lagarta se torna praga no milho ou porque mais plantas se tornam inços. As soluções desenvolvidas propõem matar, envenenar, exterminar, como se a natureza não reagisse.

Atualmente, se sabe que sementes de plantas mais robustas e resistentes não estão mais disponíveis no mercado, porque isso não interessa às multinacionais da indústria química. Com a expansão de monoculturas e a monopolização do mercado de sementes, é perdido ao mesmo tempo, conhecimento e diversidade biológica.

Como se pode resolver problemas técnicos da produção agrícola no futuro, se a base para a pesquisa está sendo exterminada? Com a transgenia essa situação somente piora, pois foram realizadas modificações artificiais na estrutura de reprodução das plantas, de forma que as menos adaptadas competem contra as forças da natureza.

Essa é a atual experiência com transgênicos. Em função das condições naturais, a coexistência entre cultivos transgênicos e convencionais não é possível. Especialmente no caso do milho, a contaminação genética pode ser constatada em todas as regiões do mundo em que as plantas transgênicas começara a ser cultivadas.

Querer evitar a contaminação pode ser um desejo político em muitos países, mas é uma proposta distante da realidade. Se a contaminação não fosse uma realidade, em função do pólen ser muito pesado, o cruzamento depender do mesmo período de floração e não haver a possibilidade de transferência genética, então tanto a teoria da evolução como a concepção de natureza de Darwin estariam superadas.

A coexistência não é possível e, se essa é a realidade, então não adianta ter leis que estabelecem como ela deveria ser garantida. Consequentemente, em função dos cultivos transgênicos, a liberdade de escolha de agricultores e consumidores deixa de ser assegurada, pois ambos passam a ser forçados a utilizar as plantas transgênicas.

A experiência mundial com plantas transgênicas demonstra que a transgenia é ineficiente a longo prazo em função das crescentes resistências de pragas e inços, e onerosa em decorrência do aumento do uso de agrotóxicos, sendo não desejada pelos consumidores e associada a muitos riscos.

O fato de muitas lideranças políticas estarem ignorando essa realidade, deveria fazer refletir, pois a maioria da população deseja e cientistas independentes aconselham que se evite o uso dessa técnica.

Toda esta abordagem muito técnica objetiva demonstrar que as ações impactantes nos ecossistemas locais podem ser muito relevantes e irreversíveis.

Com base bibliográfica se tenta não sofrer desqualificação por ausência de técnica pois se usa tecnologicismo como apanágio de bandalheira, infelizmente está é a atual autopoiese de equilíbrio sistêmico da sociedade criada pela civilização humana.

Numa interpretação em acepção livre da semântica empregada por Niklas Luhmann.

Darwin oferece a base para o entendimento de muitos dos problemas da transgenia, que já estão em curso. É claro que carecemos de muito mais pesquisa nessa área. Mas, não qualquer tipo de pesquisa.

E, exatamente contra essa tendência na ciência Darwin também lutou. Não se trata de uma questão de crença, é necessário entender como a natureza funciona, conforme enfatiza Andrioli.

A teoria da evolução continua sendo a melhor explicação para os fenômenos biológicos. Essa perspectiva os cientistas naturais deveriam considerar, antes de transformarem a técnica em religião e, em função da sua crença nas assim chamadas tecnologias do futuro, ignorarem a realidade, como cita Andrioli.

Referência

FOSTER, John B. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 2005, p. 30

ANDRIOLI, Antônio I. Biosoja versus Gensoja: Eine Studie über Technik und Familienlandwirtschaft im nordwestlichen Grenzgebiet des Bundeslands Rio Grande do Sul (Brasilien). Frankfurt am Main: Peter Lang, 2007, p.166.

ANDRIOLI, Antônio I. & FUCHS, Richard (Org.) Transgênicos: As sementes do mal. A silenciosa contaminação de solos e alimentos. São Paulo: Expressão Popular, 200, p. 239.

ANDRIOLI, Antônio I. Biosoja versus Gensoja: Eine Studie über Technik und Familienlandwirtschaft im nordwestlichen Grenzgebiet des Bundeslands Rio Grande do Sul (Brasilien). Frankfurt am Main: Peter Lang, 2007, S.81.

http://www.espacoacademico.com.br/095/95esp_andrioli.htm



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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