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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Arte fúnebre. As casas dos mortos são museus

No Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados. A procura é cada vez maior, admite a câmara


Os cemitérios não são só lugares de dor. Encerram memórias, arte, cultura e história e atraem cada vez mais turistas. Portugal está a despertar para o necroturismo e já há vários cemitérios nacionais no Tripadvisor

Os cemitérios portugueses estão a ser invadidos por turistas. Alguns, como o dos Prazeres, em Lisboa,
o de Agramonte, no Porto, ou o da Conchada, em Coimbra, até já têm entrada no site de viagens Tripadvisor – com direito a comentários e classificações. Com o aumento do turismo cemiterial – uma espécie de cruzamento entre o turismo cultural e o turismo negro –, as câmaras começam a investir na preservação dos cemitérios. Este fim-de-semana, o cemitério de Braga recebe a primeira visita guiada e em Lisboa e no Porto os roteiros já estão instituídos: nos Prazeres acontecem pelo menos duas visitas guiadas por mês e em Agramonte há concertos de música clássica.

A receita parece estar a dar resultado: nos meses de Inverno, o Cemitério dos Prazeres recebe cerca de uma centena de visitantes por dia, número que aumenta no Verão para 300 visitas. Mesmo assim, e apesar de só agora estar a chegar a Portugal, o fenómeno do necroturismo não é propriamente recente. Desde que existe arte fúnebre há turismo nos cemitérios. O historiador Francisco Queiroz recorda que logo no início do século xix, em pleno período romântico e quando se começaram a construir os primeiros túmulos ornamentados, surgiram em Paris os primeiros guias explicativos da arte fúnebre.

Na altura, como agora, o pressuposto é o mesmo: os cemitérios não são meros depósitos de corpos sem vida; são museus ao ar livre e lugares de arte, arquitectura, escultura e genealogia. São espaços que contam histórias sobre a história e sobre quem os habita. São testemunhos do ambiente político, artístico e social das épocas em que foram construídos. E também são cidades que obedecem, em quase tudo, à organização das metrópoles dos vivos.

Como em qualquer cidade, num cemitério há ruas e números de portas. E há bairros nobres e caros: as zonas mais valorizadas ficam sempre junto ao portão de entrada, à capela e nos espaços planos. É nestas áreas que costumam estar enterradas as personalidades influentes das cidades, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Nos últimos anos, e devido ao aumento do interesse pela arte destes espaços, foi criada uma Rota Europeia dos Cemitérios – que reúne os mais relevantes do ponto de vista artístico e histórico.

Em Portugal, só o de Agramonte, no Porto, integra a lista, mas o dos Prazeres, em Lisboa, candidatou-se recentemente e poderá vir a fazer parte do prestigiado roteiro. No entanto, por cá existem vários outros pontos de interesse (ver roteiro pelos cemitérios portugueses nas páginas seguintes). “Somos porventura o povo que melhor preservou os seus mortos”, diz o historiador Licínio Fidalgo, que trabalha com o Cemitério dos Prazeres há quase 15 anos e faz algumas das visitas guiadas organizadas pela câmara. Uma das características da arte fúnebre portuguesa é a predominância dos jazigos.

Se noutros países da Europa as casas de família são raras nos cemitérios, em Portugal até os espaços cemiteriais das cidades mais pequenas têm jazigos imponentes. De tal forma que o terceiro maior da Europa fica nos Prazeres e tem capacidade para 200 corpos. Em Portugal ou no estrangeiro, praticamente toda a arte fúnebre de interesse recua ao período romântico – a altura da história em que mais atenção se deu à ornamentação dos cemitérios. A partir do século xx, a preocupação de criar cidades da arte erigidas pela morte entrou em decadência e só na década de 1980 se recomeçou a olhar para os espaços cemiteriais como lugares de cultura.

Este novo olhar mede-se pelo boom do necroturismo, mas o interesse tem assumido outros contornos. Licínio Figaldo conta, por exemplo, que os jazigos abandonados de Lisboa estão a ter cada vez mais procura nas vendas em hasta pública. De tal forma que a câmara já chegou a vender alguns, a precisar de obras, por 80 mil e 100 mil euros. O preço de uma casa. E porque, como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas para os vivos desfrutarem dela”, criámos um roteiro dos cemitérios de Portugal.

LISBOA

Cemitério dos Prazeres

Muitos turistas vêm a Lisboa propositadamente para visitar o jazigo dos duques de Palmela. É o terceiro maior da Europa, tem capacidade para 200 corpos e assemelha-se a um cemitério dentro do cemitério. No interior da parte central, construída em forma de pirâmide, existe um relevo avaliado em mais de dois milhões de euros, além de um conjunto de anjos esculpido em bronze da autoria de Teixeira Lopes e que ganhou uma menção honrosa na Exposição Universal de 1900 em Paris. Outro ponto de interesse no Cemitério dos Prazeres é o jazigo Carvalho, concebido por Luigi Manini, o arquitecto italiano que projectou a Quinta da Regaleira, em Sintra. Ao mesmo tempo que desenhou a casa da vida, Manini desenhou o jazigo, a casa da morte. O jazigo dos condes de Burnay também merece ser destacado: foi projectado pelo suíço Ernesto Korrodi, responsável pela recuperação do castelo de Leiria. No cemitério mais conhecido de Lisboa existem mais de 7 mil jazigos e a câmara organiza visitas guiadas gratuitas.

Britânico

O Cemitério Britânico de Lisboa é o mais antigo da cidade – recua a finais do século xviii (a lápide mais antiga é de 1724). Foi construído pela comunidade anglicana que se refugiou em Portugal por altura das Invasões Francesas e os túmulos são quase todos subterrâneos – com os caixões colocados em buracos e assentes em travessas de ferro, depositados uns em cima dos outros à medida que foram chegando. O cemitério, perto do Jardim da Estrela, é pequeno, mas muito original e abrigado por árvores centenárias. Há quem o considere um dos espaços verdes mais românticos de Lisboa e é muito visitado por estrangeiros que vêm à procura do túmulo de Henry Fielding, pai do romance inglês.

Alto de São João

Enquanto no Cemitério dos Prazeres já há dez percursos temáticos assinalados no terreno, no do Alto de São João o trabalho está mais atrasado e ainda não saiu do papel. Existem diferenças notórias entre os dois maiores cemitérios de Lisboa: o primeiro servia a burguesia industrial e a nobreza da cidade e o segundo destinava-se aos nobres e burgueses rurais. E esta diferenciação é perceptível na iconografia de cada um dos espaços. O Cemitério do Alto de São João é maior, tornando-se mais disperso e amplo que o dos Prazeres. Os jazigos do visconde de Valmor, dos Beneméritos
da Santa Casa da Misericórdia (da autoria do arquitecto Adães Bermudes) e a Cripta dos Combatentes da Grande Guerra são alguns dos pontos de maior interesse artístico e histórico.

PORTO

Cemitério de Agramonte

É o único cemitério português que integra a prestigiada Rota Europeia de Cemitérios e foi inaugurado em 1855. É conhecido pela  grandiosidade das construções, a começar pela capela principal, onde existem frescos de inspiração bizantina da autoria de Silvestro Silvestri e um órgão de tubos. Existem também dezenas de mausoléus com esculturas impressionantes – dramáticas, à moda romântica – de Soares dos Reis, António Teixeira Lopes ou Alves Pinto. No cemitério de Agramonte, no Porto, estão enterradas diversas personalidades das artes portuguesas, como Emílio Biel, Tomás Soller ou, mais recentemente, Manoel de Oliveira. Embora não sejam organizadas visitas regulares, como no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa (onde há duas por mês, sempre aos sábados), em certas alturas do ano a Câmara do Porto promove visitas guiadas. Algumas acontecem à noite e incluem música clássica ao vivo.

Lapa

É o cemitério privado romântico mais antigo de Portugal e começou por ser gerido por uma irmandade. Foi sempre considerado o cemitério da elite portuense, o que mostra a importância da iniciativa privada no Norte do país. O Cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa tem o maior conjunto de capelas monumentais de todo o país, erigidas pela burguesia do Porto. E é a casa de personalidades ilustres, do escritor Camilo Castelo Branco ao industrial José Ferreira Borges. Desde 2011, a gestão do espaço passou a ser assegurada pela empresa Servilusa. Há visitas guiadas e gratuitas, desde que marcadas com antecedência e por email.

Prado do Repouso

O primeiro cemitério público do Porto foi inaugurado em 1839 e tem um estilo muito particular: a maior parte das peças e das construções são neogóticas e foram desenhadas a pensar na monumentalidade. A Capela Geral, o ossário das freiras do antigo Convento de São Bento da Avé-Maria, a cruz do cemitério (com um Cristo de ferro), a inacabada Igreja de São Vítor, o mausoléu de Francisco Almada e Mendonça e a capela de Delfim Ferreira são os pontos de maior interesse artístico. E em todo o cemitério existem trabalhos da autoria de Soares dos Reis e Teixeira Lopes. No cemitério do Prado do Repouso estão enterradas personalidades como Eugénio de Andrade ou Abel Salazar.

RESTO DO PAÍS

Monte d’Arcos – Braga

A cidade dos arcebispos foi das últimas em Portugal a ter um cemitério. E em meados do século xix a imprensa mostrava-se chocada: a modernidade ainda não tinha chegado à “terceira maior” cidade do reino. O governo e a câmara trocaram correspondência inflamada durante anos e, perante a teimosia dos bracarenses, chegou a ser emitido um decreto especial para a cidade, obrigando à construção do espaço num prazo máximo de três meses. O cemitério era uma questão política. Braga, o epicentro das lutas do cabralismo, queria marcar uma posição. Mas a 1 de Julho de 1870 o arcebispo benzia o novíssimo cemitério, erigido no Monte de Arcos. Este fim-de-semana a câmara promove a primeira visita guiada ao espaço. A capela funerária dos arcebispos – cujos corpos foram levados, na década de 1980, para o panteão da Sé – é um dos pontos de maior interesse arquitectónico. Há ainda um conjunto de esculturas de mármore e de memoriais importantes e o imponente jazigo do comendador Nogueira da Silva, já do século XX.

Cemitério Central – Aveiro

Visitar o cemitério mais antigo de Aveiro é fazer um passeio pela história. No centro existe um monumento aos seis liberais aveirenses executados em 1829 por ordem dos absolutistas partidários de D. Miguel – quatro deles foram enforcados e decapitados na Praça Nova, no Porto. O monumento foi mandado construir pela câmara em 1865. Algumas estruturas do Cemitério Central de Aveiro foram derrubadas nos últimos anos. Incluindo a cabeceira original de um túmulo, com um cão de pedra e em torno do qual se criou uma lenda. Os aveirenses até lhe deram um nome: “Fiel”. Apesar de o túmulo estar preservado, a câmara derrubou-o e substituiu-o por uma campa rasa.

Conchada – Coimbra

É o maior cemitério da cidade e considerado um dos mais bonitos de Portugal. Tem um estilo arquitectónico e escultórico muito próprio: boa parte da construção é baseada no calcário, um
tipo de pedra muito fácil de trabalhar. Por isso o Cemitério da Conchada, em Coimbra, apresenta um conjunto de edifícios e peças muito trabalhadas, muitas delas neomanuelinas. O espaço está desde Março deste ano em vias de classificação e a câmara anunciou que quer criar no centro do cemitério um espaço destinado a personalidades e figuras públicas. O primeiro jazigo VIP já foi escolhido: é o número 33 e já lá está o corpo de Luiz Goes, cantor e médico de Coimbra que faleceu no ano passado.

Santo António do Carrascal  – Leiria

A capela da família Leitão, no Cemitério do Carrascal, em Leiria, era considerada uma das mais originais da arte fúnebre portuguesa. Foi desenhada por Francisco Maria Teixeira – um dos poucos artistas nacionais que se especializaram em arquitectura sepulcral e que adoptava uma estética neoclássica à misturada com elementos exóticos. Apesar da importância em termos artísticos, acabou por ser demolida há mais de uma década, depois de ter sido dada como abandonada e apesar de ainda existirem membros da família vivos – que não foram a tempo de evitar a demolição. Ainda assim, continua a haver muito de relevante para visitar no espaço. É o caso de uma capela projectada por Ernesto Korrodi, considerada uma das melhores obras do arquitecto suíço. Ou do mausoléu de António Feliciano de Munhoz Barba e Vasconcelos. Ou ainda dos imponentes jazigos de José Dias e do neto Albertino Teles Dias Sampaio. Apesar da importância artística, têm vindo a ser feitos restauros e alterações no cemitério que resultaram na perda de elementos de grande interesse.

S. Joaquim – Ponta Delgada

O cemitério recebe muitas visitas de estrangeiros por encerrar uma singularidade, típica das ilhas portuguesas: a construção assenta sobretudo na pedra vulcânica, o que confere ao espaço um ambiente mais sombrio. Mas o mais importante do Cemitério de São Joaquim, em Ponta Delgada, nos Açores, é mesmo a azulejaria. Há capelas, jazigos e túmulos completamente revestidos de azulejos – uma característica difícil de encontrar noutros cemitérios portugueses e praticamente inexistente em espaços estrangeiros do mesmo tipo. Por isso Ponta Delgada é muito procurada por estudantes de Arte e turistas que se interessam por turismo cemiterial. Dentro do cemitério existe uma ermida imponente, datada de 1875 e restaurada há pouco tempo pela câmara.

Funchal

Há três cemitérios no Funchal que merecem ser visitados. O Britânico é um dos mais antigos do país, recua ao final do século xviii. Foi construído por anglicanos que se instalaram na Madeira para se restabelecerem de longos períodos de doença. Já o cemitério municipal, de Nossa Senhora das Angústias – São Martinho, impressiona quem chega do Continente pela pedra usada nas construções, de tipo vulcânico. Existe ainda um pequeníssimo cemitério judaico, no topo de uma falésia, abandonado há 30 anos e em ruínas. Em Janeiro de 2008, o então secretário da embaixada israelita em Portugal, Amir Sagie, prometia um “processo de trasladação do espólio”, mas admitia que não havia dinheiro. O espaço está classificado desde 1993 como Património Cultural da Madeira.

Fonte: I online

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