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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Trabalho e meio ambiente, parte 2/5, artigo de Roberto Naime

TAYRA (2002) manifesta que a população dos países em desenvolvimento é hoje quatro vezes maior que a dos países industrializados e a maioria desta população vive em condições de pobreza.


O crescimento econômico é a solução que a maioria dos economistas e políticos propõem para gerar uma maior prosperidade e igualdade nas diferentes regiões do planeta.

Mas o problema disso é que o processo de crescimento econômico mundial nas últimas décadas foi também acompanhado pela degradação do meio ambiente e pelo uso excessivo de recursos naturais, configurando uma situação de alto dispêndio de energia.

A intensificação de problemas socioambientais como os processos de urbanização acelerada, o crescimento e a desigual distribuição demográfica, a expansão descontrolada do uso de energia nuclear, com finalidades bélicas ou pacíficas e o consumo excessivo de recursos não-renováveis mobilizou os recursos da precaução.

Também os fenômenos crescentes de perda e desertificação do solo, a contaminação tóxica dos recursos naturais, o desflorestamento, a redução da biodiversidade e da diversidade cultural, a geração do efeito estufa e a redução da camada de ozônio e suas implicações sobre o equilíbrio climático.

Todos estes aspectos têm impactado a opinião pública mundial e atraído atenção para uma realidade, até a poucas décadas observada. Mais recentemente, os analistas da problemática ambiental têm reconhecido que pobreza e ecologia são realidades interdependentes, que precisam ser compreendidas e abordadas de forma integrada, na busca de um equacionamento mais adequado.

TAYRA (2002) assevera que existe vasta literatura que mostra que o homem está se transformando cada vez mais no principal causador de uma mudança ecológica, tanto em níveis globais quanto locais, mudanças que põem em perigo a sua própria existência, e em particular, a das gerações futuras.

Costuma se atribuir como principais causas deste processo, uma explosão demográfica, como foi a tese de Malthus (1983), no século XIX, retomada na década de 70 pelo Relatório Meadows (1972).

Antes disso porém, a principal causa que se atribui às mudanças ecológicas refere-se à forma de exploração econômica tanto socialista quanto capitalista, suportada pela concepção de crescimento contínuo.

A natureza parece ter funções bem específicas, como gerar e provisionar todos os materiais utilizados nos processos produtivos, e após o seu uso, absorver os resíduos, que retornam ao ecossistema em forma de contaminantes.

Segundo TAYRA (2002), esta lógica de crescimento econômico, porém, tem seus limites, na medida em que compromete o bem-estar das gerações futuras ao levar ao esgotamento de recursos relevantes como recursos energéticos fósseis, e também como exige dos ecossistemas um nível acima de sua capacidade de regeneração e assimilação.

Em função da ocorrência de sua contaminação com resíduos ou substâncias tóxicas, provocando, em horizonte mais amplo, o surgimento de sequelas problemáticas, como o caso do aquecimento global, alvo do Protocolo de Kyoto.

Desde a década de 60, a deterioração ambiental e sua relação com o estilo de crescimento econômico já eram objeto de estudo e preocupação internacional.

Nesse sentido, pode-se citar como exemplos, Albert Shweitzer que ganhou o Prêmio Nobel da Paz ao popularizar a ética ambiental e o livro “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, lançado em 1962, que trata do uso e efeitos dos produtos químicos sobre os recursos ambientais.

A fundação do Clube de Roma em 1968, que em 1972 publicou o conhecido relatório “Limites do Crescimento” (Meadows et al., 1972) foi um dos principais fatos para a ampliação da divulgação do tema. O referido relatório denunciava que o crescente consumo mundial ocasionaria um limite de crescimento e um possível colapso do ecossistema global.

O relatório de Meadows foi recebido com perplexidade pelo grande público e pelos cientistas que, desde o final da 2ª Guerra Mundial, havia se habituado a escutar hinos de louvor ao crescimento econômico e à sociedade de massas (FURTADO, 1974).

Sintetizando suas conclusões, o relatório previa que, mantido o ritmo de crescimento, os alimentos e a produção industrial declinariam até o ano 2010 e, a partir daí, provocar automaticamente uma diminuição da população por penúria, falta de alimentos e poluição.

TAYRA (2002) argumenta que neste sentido, a crise do petróleo de 1973 veio a constituir-se em importante fator suplementar de alimentação do debate em torno da temática da escassez e esgotabilidade dos recursos naturais e da necessidade de humanização do crescimento, através de mudanças quantitativas e principalmente qualitativas do processo.

A divulgação de “Limites do Crescimento” ganhou grande repercussão mundial, desencadeando uma série de reações críticas ao que foi considerado seu tom apocalíptico, com a tese do crescimento (populacional e industrial) zero.

Inegavelmente catastrofista, o relatório previa uma incontrolável mortandade da população por volta de 2050, provocada pelo esgotamento dos recursos naturais, consequência do aumento da produção industrial e de alimentos para atender ao crescimento exponencial da população.

O tom alarmista de “Limites ao Crescimento” desencadeou várias avaliações contrárias, mas o impacto foi inequívoco: a questão ambiental a partir desse momento faria parte da teoria econômica, tanto em nível dos insumos, como dos efluentes e rejeitos. O informe assinalava:

“Se continuarem as atuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, contaminação ambiental, produção de alimentos e esgotamento dos recursos, este planeta alcançará os limites de seu crescimento no curso dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um súbito e incontrolável declínio tanto da população como da capacidade industrial.” (Meadows, 1972, p. 40-41).

O debate em torno da questão ambiental colocou na ordem do dia questões relativas a problemas potencialmente vitais para a sociedade, colocando-se então para os pensadores sociais, políticos e econômicos a tarefa de interpretar tal problemática enquanto produto do desenvolvimento socioeconômico e de incorporá-lo em seus arcabouços conceituais.

Nesse sentido, as previsões contidas no relatório geraram todo tipo de reações. Turner (1987) construiu uma tipologia para as distintas visões sobre o meio ambiente que se destacaram no debate mundial a partir dos anos 70:

Por seu turno, a Conferência da ONU sobre o Ambiente Humano, conhecida como Conferência de Estocolmo, realizada em 1972, gerou a Declaração sobre o Ambiente Humano e produziu um Plano de Ação Mundial, com o objetivo de influenciar e orientar o mundo na preservação e melhoria do ambiente humano.

As grandes preocupações, dentre elas a poluição e a questão da chuva ácida na Europa, levaram a Conferência de Estocolmo a reflexão, de forma mais ampla, das questões políticas, sociais e econômicas envolvidas, “onde as recomendações passaram a ser mais realistas e mais próximas da vida e da qualidade da vida humana” (MAIMON, 1992, p.21).

Como resultado deste evento, foi criado o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas, UNEP, encarregado de monitorar o avanço dos problemas ambientais no mundo.

Ato contínuo, proliferaram acordos e conferências temáticas internacionais, como por exemplo, a Convenção sobre o Comércio Internacional de espécies ameaçadas da fauna e flora silvestres (em 1973), e o Programa Internacional de Proteção a Produtos Químicos (em 1980), estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), UNEP e Organização Internacional do Trabalho (OIT), com o objetivo de avaliar os riscos causados à saúde humana e ao meio ambiente, segundo TAYRA (2002).

Referência:

COSTANZA, R., Economia Ecológica: uma Agenda de Pesquisa in Valorando a Natureza, Análise Econômica para o Desenvolvimento Sustentável. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1994.

FOLADORI, G., Los límites del desarrollo sustentable. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental, 1999.

FURTADO, C., O Mito do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974

MAIMON, D., Ensaios sobre economia. Rio de Janeiro: APED, 1992

MALTHUS, T. R., Ensaio sobre população. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. “Os economistas”).

MEADOWS, D. L., MEADOWS, D. H., RANDERS, J. & BEHRENS, W. W., Limites do crescimento- um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o dilema da humanidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1972.

SACHS, I., Ecodesenvolvimento, crescer sem destruir. São Paulo: Vértice, 1986

SACHS, I., Estratégias de Transição para o Século XXI. São Paulo: Studio Nobel/Fundap, 1993

TURNER, R., “Sustainable global futures. Common interest, interdependency, complexity and global possibilities”. Futures, nº 5. vol. 19, pp. 574-582, 1987.

WCED Our common Future. Oxford: Oxford University Press, 1987.

TAYRA, F. A relação entre o mundo do trabalho e o meio ambiente: limites para o desenvolvimento sustentável. Scripta Nova, Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, nº 119 (72), 2002. [ISSN: 1138-9788] http://www.ub.es/geocrit/sn/sn119-72.htm



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate

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